Saúde mental: assistência impacta em menor evasão na universidade

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O ingresso na universidade é quase sempre uma fase muito importante na vida das pessoas. Quando se trata de uma universidade pública de prestígio, como a Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, essa entrada é em decorrência de bastante esforço e dedicação durante vários anos.

O ambiente universitário costuma ser um lugar de oportunidades muito ricas tanto no aspecto pessoal quanto profissional para os estudantes, que são, em sua maioria, jovens.

No entanto, realizar um curso universitário pode vir acompanhado de desafios e dificuldades. Estudar matérias complexas, ter longas cargas horárias de aulas e fazer muitas provas e trabalhos são características dos cursos superiores. Todas essas atividades, às vezes acabam trazendo preocupação e apreensão aos estudantes.

Quando isso vem acompanhado de mudar para longe da casa dos pais, e se tornar responsável por pagar contas, cuidar da casa e dos afazeres domésticos, o jovem pode sentir-se bastante ansioso e angustiado.

Apesar de ser normal que tantas mudanças levem a períodos de tensão e mesmo a certo grau de ansiedade e sofrimento por parte de muitas pessoas, é preciso estar atento a quando as reações negativas a estas mudanças forem muito intensas e o abalo emocional persistente. Estas reações podem estar relacionadas a problemas mais amplos, como questões de ordem psicológica ou distúrbios psiquiátricos.

Tendo em vista a relevância e seriedade do tema, a Unicamp mantém desde 1987, o SAPPE – Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante, que atende a toda a comunidade discente da universidade. O intuito deste serviço, que completa agora 30 anos, é justamente dar apoio aos estudantes que, por algum motivo, estejam enfrentando desafios com a vida universitária, seja em seus cursos, na relação com colegas e professores ou nas responsabilidades diárias. Além disso, o intuito do SAPPE é poder auxiliar no diagnóstico e tratamento de eventuais problemas psicológicos e psiquiátricos que possam estar se manifestando como pano-de-fundo dos problemas emocionais relativos ao ambiente acadêmico.

Avaliar qual tem sido o papel e a relevância nos serviços prestados aos estudantes é de vital importância para se pensar como fornecer um atendimento cada vez melhor e mais eficiente à comunidade estudantil.

A médica psiquiatra Cláudia Franulovic Campos desenvolveu uma dissertação de mestrado que permite entender melhor quem são os estudantes que procuram auxílio e de que forma o acompanhamento oferecido pelo SAPPE tem se mostrado adequado no seguimento de sua vida acadêmica.

Cláudia Franulovic Campos – “Eu acho que tem problemas emocionais em qualquer época da vida, e esse período da universidade é um período da vida onde, particularmente, surgem vários problemas psiquiátricos (não só na universidade). Por um lado, estar na universidade tem fatores positivos; pessoas que tem condições intelectuais, passaram no vestibular, são pessoas que tiveram acesso ao estudo. Mas também tem a adaptação a uma nova vida, a um ambiente diferente fora de casa, para grande maioria, então você tem dificuldades de adaptação, assim como algumas facilidades e possibilidades desse público. Fora dele, também é um período onde surgem muitos quadros psiquiátricos; boa parte dos quadros psiquiátricos surgem nos adultos jovens, no final da adolescência, ou, dependendo do transtorno, antes. De um modo geral, a gente espera uma adaptação rápida”.

Cláudia destaca que o SAPPE trabalha com uma procura espontânea. É geralmente o aluno que percebe que tem dificuldades e busca ajuda.

O trabalho da psiquiatra foi orientado pela professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Clarissa de Rosalmeida Dantas, e contou com a coorientação da coordenadora do SAPPE, Tânia Freire de Mello. Nele, Campos traçou o perfil dos estudantes atendidos especificamente no serviço de psiquiatria do SAPPE, entre os anos de 2004 e 2011.

A professora Clarissa Dantas explica como as adversidades normais do período estudantil são diferentes de casos diagnosticáveis de transtornos mentais.

Clarissa Dantas – “O que a gente considera muito é o grau de sofrimento e o impacto que isso traz na vida da pessoa. Sofrimento faz parte da vida, mas no sofrimento normal você espera que ele tenha um certo limite de tempo: a tendência é que ele vá melhorando. Não tem um tempo certo, fixo, que seja igual para todas as pessoas, mas quando a situação é de um sofrimento normal, você percebe com o passar do tempo, uma melhora, uma atenuação. Quando isso não acontece, é um sinal de que alguma coisa pode estar errada. Outro parâmetro é o quanto isso prejudica a vida da pessoa. Mesmo que a gente esteja muito triste por causa de um problema, por uma dificuldade, a nossa vida continua, a gente consegue, mesmo triste, fazer uma série de coisas, se cuidar, cumprir com nossas obrigações. Quando a pessoa perde a capacidade de fazer isso, isso também é uma parâmetro de que aquele sofrimento, aquela dificuldade emocional está deixando de ser uma coisa que faz parte da vida e adquirindo aspecto de um transtorno, de um problema maior”.

De acordo com os dados obtidos por Cláudia Campos, a partir da análise de prontuários de 1237 alunos de graduação e pós-graduação, a grande maioria dos estudantes que chega até a assistência psiquiátrica foi encaminhada pelo serviço de atendimento psicológico do próprio SAPPE, ainda que essa não seja a única via. De todos os estudantes que buscaram o auxílio no período avaliado, apenas 15% chegaram a ser atendidos na psiquiatria. Em oitenta e cinco por cento dos casos, portanto, o atendimento se resume ao psicoterápico. Vale lembrar que a maioria dos pacientes que se submete ao acompanhamento psiquiátrico realiza também o psicológico. Campos relata quais foram os diagnósticos mais frequentes entre os estudantes em seu levantamento:

Cláudia Franulovic Campos – “Primeiro a maior quantidade (40% mais ou menos) foi de episódios depressivos, seguido por transtornos fóbicos e ansiosos. O número de transtornos graves (esquizofrenia, episódios do espectro psicótico e transtorno bipolar) dá quase cinco por cento”.

Como ressaltou o trabalho, cerca de um terço dos estudantes recebeu, ainda, diagnóstico de mais de um distúrbio mental.

Quanto ao perfil dos estudantes atendidos, foi maior o número dentre o sexo feminino e de pessoas solteiras. Uma informação relevante foi que apesar de a porcentagem de estudantes mulheres ter ficado estabilizada próximo a 45% do total na Unicamp no período avaliado, o estudo mostrou que elas foram as que mais buscaram o serviço psiquiátrico do SAPPE, correspondendo à quase 57% do total. No geral, a idade média do primeiro atendimento foi de 25 anos.

É importante ressaltar que de acordo com o trabalho, 37% dos estudantes atendidos pela primeira vez no SAPPE já haviam feito algum tipo de acompanhamento psiquiátrico anteriormente.

Uma vez dado o diagnóstico, o levantamento mostrou que as medicações prescritas foram principalmente da classe dos antidepressivos, o que se deu em cerca de 80% dos casos.

A parte principal do trabalho de Cláudia foi mensurar como os estudantes atendidos estavam se saindo academicamente. Para isso, foi realizada a comparação do desempenho acadêmico destes estudantes com o de colegas que não haviam passado por atendimento no SAPPE. A coordenadora do SAPPE, Tânia Mello, explica como isso se deu:

Tânia Mello – “A gente pensou em fazer uma comparação dos pacientes atendidos pela psiquiatria nesse período de tempo com um controle que seriam alunos que, supostamente, não estariam sendo atendidos, e com uma população parecida; a gente tentou comparar cada aluno com alunos da sua própria turma”.

Cláudia Campos comenta a metodologia utilizada e quais foram os resultados encontrados levando-se em conta o coeficiente de rendimento acadêmico dos alunos – chamado de CR -, tempo de conclusão do curso e taxas de evasão, na graduação e pós-graduação:

Cláudia Franulovic Campos – “Com relação ao rendimento, na graduação e pós-graduação, nós tentamos manter, aproximadamente, uma mesma proporção de gênero – porque tinham resultados diferentes no rendimento acadêmico por gênero – e nós pegamos, para cada aluno atendido no serviço,  dois colegas de turma que entraram no mesmo período, para comparação […]. E o resultado foi esse: na graduação, nós utilizamos o CR, e então teve uma diferença muito pequena no CR: o CR do controle é levemente melhor que o CR dos alunos atendidos, embora tenha sido uma diferença mínima. E, na questão da evasão, na graduação foi 10% menos evasão nos alunos atendidos no SAPPE do que nos colegas de turma usados para controle. De um modo geral, eles tiveram rendimento um pouquinho pior, uma demora um pouquinho maior para conclusão do curso, mas tiveram bem menos evasão. Na pós-graduação, onde a gente considera que os critérios de prazo são mais rigorosos que na graduação (de um modo geral são prazos mais apertados, critérios mais rigorosos) a gente tem rendimento semelhante – não teve grandes diferenças – também com uma evasão menor do que no controle”.

As próprias pesquisadoras se disseram surpresas com o fato de a taxa de conclusão de curso ter sido maior dentre o grupo que estava fazendo o acompanhamento psiquiátrico. Conforme afirmam, o resultado pode ser considerado muito positivo, pois concluir um curso de graduação representa um fator muito importante na vida destes alunos.

Tânia Mello ressalta a autonomia que dispõe o SAPPE dentro da universidade, o que o torna um espaço de acolhimento livre de eventuais interferências burocráticas e institucionais, e menciona o esforço da equipe para fazer do serviço um real aliado, com quem os estudantes podem contar sempre que houver necessidade.

Tânia Mello – “Lembrando que uma coisa importante é que a gente tem o sigilo para os alunos, isso está no nosso regimento. E isso garante, como a vocação do serviço é assistencial, que ele possa procurar  assistência sem isso estar atrelado com… muitas vezes alguns ficam pensando ‘a gente vai, mas será que essa informação não poderia ser divulgada ou alguém vai saber?’, e o fato de ter essa confidencialidade dá uma segurança para eles de que eles vão ter essas dificuldades acolhidas, mas de uma forma assistencial, e não vinculada à questão acadêmica”.

Como avaliação final, as pesquisadoras ressaltam a relevância do trabalho no sentido de combater os estigmas relacionados aos transtornos mentais e ressaltar a importância que o SAPPE tem adquirido no ambiente universitário, o que, segundo afirma Clarissa Dantas, é um investimento que tem retorno em vários níveis para a universidade.

Clarissa Dantas – “Esse trabalho tem algumas mensagens que são muito interessantes. Uma delas é da efetividade de você ofertar tratamento e acompanhamento para essa população, em termos não só de redução do sofrimento, e do impacto dessas dificuldades e desses problemas na vida das pessoas, mas também em termos de resultado acadêmico. Ele é um investimento que compensa para universidade inclusive academicamente. Ele tem uma mensagem anti-estigma muito interessante, que é de mostrar que mesmo em uma universidade com alto grau de exigência e mesmo numa pós-graduação, em que essa exigência, esse grau de expectativa em relação ao desempenho do aluno é maior ainda, com ajuda, com acompanhamento, mesmo pessoas passando por dificuldades mentais que chegam a ser um diagnóstico, conseguem corresponder a estas expectativas. E, por fim, ele tem essa mensagem do investimento que vale a pena e que é necessário; não faz sentido acolher na universidade, entrar na universidade, e não dar as condições de concluir o curso, concluir a sua formação”.

Reportagem de Gustavo Almeida.

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