Resenha do livro Palácio da Memória, de Nate Dimeo

O que será que a morte da esposa de Samuel Morse teve a ver com a invenção do telégrafo? O que pensava Guglielmo Marconi, conhecido como pai do rádio, sobre a eternidade dos sons? O que aconteceu com o menino esquimó Minik Wallace e seu pai, que foram levados a Nova York em mil oitocentos e noventa e sete para serem estudados por cientistas? Como o jovem Don Hornig acabou sendo babá da bomba atômica durante uma tempestade no meio do deserto? E qual foi o fim do ilustrador científico Waterhouse Hawkins, que encantou a sociedade britânica do século dezenove com suas enormes, e até bizarras, réplicas de dinossauros?

Essas e tantas outras histórias verídicas fazem parte do livro “o palácio da memória”, lançado em julho deste ano pela editora, todavia. As histórias são, na verdade, transcrições de episódios do podcast “The Memory Palace”, mantido pelo radialista e escritor norte-americano Nate Dimeo desde dois mil e oito.

Nate Dimeo possui seguidores ao redor do mundo, mas o brasil é o primeiro país a receber suas narrações em forma de livro. Quem teve a ideia de selecionar e traduzir algumas das histórias foi Caetano Galindo, professor do departamento de linguística da universidade federal do paraná. Galindo conta, no final do livro, que ouviu “The Memory Palace” pela primeira vez durante uma viagem de avião. Prevendo a dificuldade de dormir durante o voo, o professor baixou todos os episódios e passou oito horas mergulhado na narrativa de Nate Dimeo.

Há de tudo um pouco entre as histórias que compõem o livro. Seja num cenário de guerra ou de descobertas científicas, de amor ou de sofrimento, Nate Dimeo busca sempre resgatar bons personagens. Como diz o próprio subtítulo da obra, trata-se de pessoas extraordinárias que viveram em tempos conturbados. É evidente também a fascinação do autor por assuntos espaciais e por gente que, de alguma maneira, simbolizou transformações sociais que marcaram os estados unidos e o mundo. O episódio “quatrocentas mil estrelas” se destaca por juntar essas duas coisas. Ele fala da vida de Williamina Fleming, a ex-empregada doméstica que foi contratada para fazer cálculos num observatório astronômico, em mil oitocentos e setenta e sete. Williamina trocou o esfregão e o balde pelo lápis e o tinteiro. Naquela época, uma mulher num observatório era caso muito raro. Foi ela quem, mais tarde, descobriu a nebulosa “cabeça de cavalo”. Ela era tão boa que inspirou seu chefe a contratar mais mulheres, como Margaret Harwood e Johanna Mackey. Todas elas foram importantes computadores humanos. Ou, nas palavras de Nate Dimeo, foram mulheres que organizaram os céus e contaram estrelas.

Para Caetano Galindo, o sucesso do “The Memory Palace” está na combinação de três elementos: a voz estilisticamente marcada de Nate Dimeo; a capacidade de gerar empatia através da narrativa; e a séria pesquisa por trás de cada história. Nas palavras do tradutor, “ao transformar cada um desses pequenos encontros numa espécie de volta às situações mais básicas da origem da narrativa na humanidade e na nossa vida individual, como o velho junto da fogueira ou a mãe à beira da cama, Nate Dimeo se serve do que de mais poderoso existe nesse nosso pacto tão humano”.

Por mais que a viagem pelo palácio da memória seja deliciosa através da leitura, escutar as narrativas na voz de Nate Dimeo não tem preço. Se estiver com o inglês em dia, ouça os episódios no site www.thememorypalace.us.

Matéria de Beatriz Guimarães.

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