Estudo analisa debates sobre a Teoria da Evolução no séc XIX

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Controvérsias fazem parte da história da ciência e por sua relevância, acabam sendo tema de pesquisas em várias áreas do conhecimento. O jornalista Danilo Brancalhão Berbel, resolveu estudar uma dessas polêmicas, sobre a Teoria da Evolução, analisando um jornal brasileiro do século XIX.

O veículo em questão era A Província de São Paulo,  precursor do jornal O Estado de S. Paulo. O período estudado foi desde a criação do jornal em 1875 até o ano de 1886.

Na época, a ciência e a tecnologia já despontavam no Brasil para desenvolver as bases culturais, educacionais e científicas do país, mesmo antes do recorte temporal escolhido pelo pesquisador. E também já existiam outros jornais em circulação, como o “Gazeta do Rio de Janeiro”, que estava a serviço da coroa portuguesa e o “Correio Braziliense”, que reivindicava um império brasileiro, independente de Portugal.

Entre 1840 e 1889, durante o segundo reinado de Pedro II, a economia estava em alta. A monarquia continuava centralizadora e era acompanhada de perto pela Igreja.

Na imprensa, até o ano de 1860 predominava o discurso conservador, mas novas ideias surgiam, defendendo a liberdade, a diversidade religiosa, a abolição da escravatura e a instauração da República.

Além das notícias sobre política e economia, questões relacionadas a comércio, agricultura, emprego e também ciência e tecnologia começavam a encontrar espaço nos veículos. E no jornal A Província de São Paulo analisado na pesquisa os temas começavam a aparecer em seções distintas, como a Secção Scientífica, onde eram publicadas as novidades sobre ciência.

Ao examinar todas as edições do jornal, Berbel identificou 39 textos que discutiam um tema em ascensão, a Teoria da Evolução.

Em cada ano, o tema foi tratado através de abordagens diferentes e carregando disputas explícitas em algumas passagens e controvérsias menos evidentes em outras.

Os autores dos artigos eram, em sua maioria, homens ligados à ciência, e representavam famílias abastadas, influentes social, política e economicamente no eixo Rio-São Paulo.

O próprio jornal A Província tomou partido na discussão e demonstrou uma linha editorial favorável à Teoria da Evolução em diversas ocasiões. Mesmo sem explicitar isso em um artigo, os editores favoreceram o Darwinismo através da seleção de textos para traduções, que serviam para contextualizar e agregar argumentos à controvérsia.

O material encontrado na pesquisa foi analisado por Berbel pelos anos de publicação dos textos.

Em 1875, por exemplo, foram três séries de textos. A primeira apresentou a teoria darwinista através de palestras ministradas por Augusto Cesar de Miranda Azevedo, no Rio de Janeiro, reproduzidas do Jornal do Comércio.

A segunda foi a tradução de textos de Girard de Rialle, que mostra que a linguística e o Evolucionismo, também chamado de Transformismo, se justificam e comprovam um ao outro cientificamente.

A terceira com cinco textos traduzidos, que tinham o objetivo de resenhar o livro de Oscar Schimidt, um pesquisador de linha evolucionista. Com isso o jornal valorizou a Teoria da Evolução, diminuindo os posicionamentos religiosos contrários.

Em 1879 foram quatro publicações isoladas que trataram do Evolucionismo, sendo uma tradução de texto de Paul Topinard que aborda o Transformismo do ponto de vista de Ernst Haeckel, biólogo que ajudou a popularizar o trabalho de Darwin.

A segunda constrói argumentação contrária aos opositores do darwinismo. Outros dois textos, do português Ramalho Ortigão analisam a falta de desenvolvimento do povo português, permeando conceitos do Darwinismo.

Ele critica também a religião pela estagnação do processo evolutivo de sua nação. Até esse ano de 1879, a maior parte dos textos é favorável à teoria evolucionista, de forma explícita.

Já em 1880, há duas séries de textos que discordam do Transformismo. De um lado, o médico Luiz Pereira Barretto trata do Positivismo em uma artigospublicados no jornal “A Província”. Nesse momento, Barretto critica o Evolucionismo por falta de provas experimentais e observacionais.

De outro lado, um pesquisador anônimo repreende o posicionamento de Barretto, defendendo a teoria da descendência. São nove textos destes dois autores argumentando a respeito do Positivismo e do Evolucionismo.

No ano seguinte, o jornal publicou três artigos traduzidos de Schmidt para afirmar o Darwinismo como teoria verdadeira e comprovável dentro do método científico.   

Em 1886, último ano analisado, há três séries que somam 12 textos. A primeira reúne sete artigos publicados pelo padre José Joaquim Senna Freitas, com visão contrária à teoria de Darwin. Ele se baseia em conceitos bíblicos e comparações anatômicas entre espécies, em particular, entre o homem e o macaco.

A segunda série foi publicada por um autor identificado apenas pelo acrônimo M.A.V.B. São dois textos que contra-argumentam as posições do padre, defendendo a Teoria da Evolução.

A terceira e última série reúne três artigos de Ernst Haeckel traduzidos por encomenda do jornal e que discute as objeções e defende a teoria de Darwin.

Os estudos de controvérsias

A conclusão do autor da pesquisa Danilo Berbel é que mesmo o jornal tendo cedido espaço para autores que defendiam a Teoria da Evolução e para os opositores, no conjunto da obra, há agendas mais bem construídas e reforçadoras em defesa do Darwinismo. Os oponentes acabam sendo retratados como retrógrados e presos a ideias religiosas.

Os estudos de controvérsias buscam revelar esse tipo de trâmite. Apresentam o contexto da polêmica, identificam os atores envolvidos e suas relações com o tema, apontam os grupos de influência social, quais são os argumentos de cada lado da disputa.

Essas pesquisas também fazem um balanço da contenda, e apresentam como a controvérsia se estabilizou.

Alguns temas, embora estabilizados, continuam suscitando disputa ao longo dos anos. Aliás, esse é o caso do Evolucionismo, que ainda hoje é contestado por alguns grupos, principalmente religiosos.

Essa pesquisa faz parte da tese defendida pelo jornalista Danilo Berbel em fevereiro, no Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade Federal de São Carlos. O trabalho está disponível no banco de teses da Universidade, no endereço: repositorio.ufscar.br.

Matéria de Simone Pallone.

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