Jornalismo evolui em contexto de estímulo à cultura científica

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A força da ciência e tecnologia dos países está ligada a diversos fatores, entre eles a cultura científica, ou seja, os conhecimentos, práticas e valores de uma sociedade a respeito do sistema científico. Um estudo espanhol ajuda a entender essas relações. Ele enfoca o papel da mídia e de políticas públicas. Nós conversamos com a autora da pesquisa, Ana Victoria Pérez Rodríguez, e também com o professor Wilson da Costa Bueno, da Universidade Metodista de São Paulo, que fala sobre paralelos com o contexto brasileiro. A seguir, ouça a versão com trechos dublados para o português ou a original em espanhol.

Ana Victoria Pérez Rodríguez – “Minha intenção em um dado momento foi observar um pouco como havia evoluído a relação justamente entre a ciência e os meios de comunicação em meu país, a Espanha.  A partir desse ano, do ano 2007, começa a haver uma maior quantidade de conteúdos relacionados com a ciência. O problema para nós que trabalhávamos como profissionais de divulgação  é que, quando analisávamos esse tipo de conteúdo, nos dávamos conta que em muitas ocasiões faziam referências a pesquisas que não se desenvolviam no contexto espanhol, o que não necessariamente é ruim, mas havia muito pouco conhecimento do sistema científico nacional.  E entendiamos… pelos critérios com que os meios de comunicação geralmente trabalham,  que  a proximidade geográfica dos leitores é um elemento importante. Os veículos primam por isso no tratamento de notícias de outros assuntos, como política, economia, inclusive esportes. E isto não estava acontecendo no jornalismo científico,  era incipiente. Então nos chamou muito a atenção.  Entendemos que era necessário analisar em profundidade os conteúdos para saber o que estava acontecendo”.

Esta é a autora do estudo Ana Victoria Pérez Rodríguez, gerente da Fundação Centro de Estudos para a Ciência, a Cultura Científica e a Inovação (3CIN). A tese foi defendida em 2016 na Universidade de Salamanca (USAL). Ela se baseou em matérias jornalísticas de ciência publicadas nos jornais El Mundo, El País e Público. Na base de dados de 48 mil notícias, de 2002-2011, Ana Victoria observa como a presença dos temas científicos nessas mídias cresceu em quantidade e qualidade.

Ana Victoria Pérez Rodríguez – “A principal mudança  e a associação que havíamos estabelecido entre as alterações que foram encontradas na informação científica, tanto mudanças quantitativas  porque é verdade que aumentou o número de conteúdos. Eles passaram  desde o ano 2002 a 2011  a publicar de 4 a 6% de conteúdos científicos, o qual se assemelha muito mais a contextos como o britânico, o alemão, inclusive italiano, em nosso caso no nosso contexto europeu.

E pudemos ver uma coisa que interpretamos como o elemento mais claro sobre o amadurecimento do jornalismo nesses anos, isto é, não só aumenta o número de notícias, como dizíamos, mas se passa de um predomínio  da presença de instituições governamentais  os meios espanhóis, parece que a princípio, não estavam acostumados a publicar notícias de ciência e basicamente usavam notas dos ministérios da saúde, dos ministérios de meio ambiente, de organizações como dizia  como a Organização Mundial da Saúde, ou notas de imprensa, por exemplo, do CERN ou da NASA ou da Agência Espacial Europeia. E quando começam a citar fontes governamentais, digamos, que o predomínio dessas fontes é muito importante, o que chama a atenção que não são os cientistas a fonte mais citada.

A medida que transcorre os anos e nos adentramos nos últimos biênios dessa amostra que analisamos  nos damos conta de que crescem muitíssimo o número de referências a cientistas em detrimento das referências a políticos que de maneira massiva se via no começo da análise da amostra  e especialmente ao final do período, as referências aos cientistas nacionais superam  timidamente, isso sim, a dos científicos estrangeiros  que é uma coisa que nos chamou muitíssimo a atenção, que se prestava uma escassa atenção à ciência nacional, aos projetos e as instituições espanholas de pesquisa”.

Com o passar dos anos foi possível observar que jornalistas e mídias adquiriram mais conhecimento sobre como funciona o sistema nacional de pesquisa. Eles passaram, por exemplo, a incluir cientistas para comentar as notícias, uma prática que se vê em outras áreas como economia, esportes.

Ana Victoria Pérez Rodríguez – “O que eles fazem é substituir os gabinetes políticos pelas grandes publicações científicas, as notas de imprensa da Nature, Science,  e inclusive a referência a veículos norte americanos e britânicos fundamentalmente como as seções de ciência do Washington Post ou do The Guardian, e  finalmente  aprendem as dinâmicas e começam a aplicar os mesmos critérios de seleção informativa que se aplica em outros âmbitos e, portanto, levar a informação nacional que creem que pode ser mais interessante para o público a que se dirigem seus veículos. Isso é um pouco o processo e a interpretação que fizemos com os dados que tínhamos e as limitações que esse tipo de estudo sempre tem”.

Ana Victoria também analisa o que estava acontecendo no país no período dessas mudanças. No início dos anos 2000, instituições europeias discutiam como fortalecer seus sistemas de C&T. A visão era que isso impactaria em economias mais competitivas, cada vez mais baseadas em conhecimento.

É aí que surgem marcos políticos e jurídicos importantes na Espanha: 2007 foi denominado o Ano da Ciência no país com um Decreto Real. As ações, em geral, enfocavam a alfabetização científica, a formação de recursos humanos, e a divulgação científica.

Ana Victoria Pérez Rodríguez  – “Foi o ano que começaram medidas como, por exemplo, a criação de uma agência nacional de difusão da informação científica não contávamos com no caso de vocês no estado de São Paulo a agência Fapesp que se encarrega de enviar aos meios de comunicação informações relevantes sobre o sistema brasileiro, neste caso o sistema paulista de ciência e tecnologia  não contávamos com uma agência desse tipo, e havia pequenas experiências a nível regional, de departamento da Espanha”.

Foram criadas também as Unidades de Cultura Científica e Inovação (UCC+i), ligadas a instituições de pesquisa. Elas têm o papel de difundir o conhecimento gerado nesses centros, formar pessoas para a divulgação, e gerar pesquisa sobre ciência e sociedade.

Ana Victoria Pérez Rodríguez – “Outro meio importante foi o incentivo que se deu à proclamação ao próprio ano da ciência, criando a rede de cidades da ciência. Isso ajudou os governos locais a se envolverem nessas tarefas de difusão. Se apoiou muitíssimo a museologia científica.  Nesse sentido, digamos, foi um conjunto de medidas que contemplava a implicação de todos os setores sociais que tenham de alguma maneira, mais ou menos, contato com o sistema científico, e a imprensa também, claro.  Todas essas medidas não somente tratavam de criar as condições jurídicas, legais do marco administrativo necessárias,  mas muitas delas estavam acompanhadas de financiamento importante”.

O professor Wilson da Costa Bueno faz um paralelo o caso do Brasil. Com anos de experiência tanto na pesquisa sobre jornalismo científico quanto na prática, ele observa evoluções nos últimos anos.

Wilson da Costa Bueno – A gente tem sentido essa evolução em vários sentidos, eu diria para você que o principal é a emergência de uma série de temas relevantes, como mudanças climáticas, ligados à temática ambiental, clonagem, nós temos uma série de grandes temas que despertaram a atenção da mídia e que necessariamente houve um incremento importante da cobertura de ciência, tecnologia e inovação na mídia brasileira.

Segundo o professor, parte dessas mudanças se deve a uma maior responsabilidade dos pesquisadores, e das instituições de pesquisa quanto a importância de democratizar o conhecimento científico. Mas a situação ainda está longe de ser a ideal, principalmente em relação às políticas públicas – que foi algo que se mostrou fundamental no caso espanhol.

Wilson da Costa Bueno – Estamos muito longe das nossas necessidades e cada vez que você percebe governos de alguma forma interferindo no próprio recurso destinado à ciência, tecnologia e inovação. A gente percebe que como um todo, não é nem necessariamente só a divulgação científica, esse olhar para a importância para a ciência, tecnologia e inovação no Brasil ainda não ganham força. Isso acontece no governo federal, acontece no governo estadual, todo esse entrevero entre o governo Alckmin e a própria FAPESP por exemplo. Eu acho que não há ainda uma consciência nem uma visão positiva dos governantes com respeito à ciência tecnologia e inovação e isso reflete necessariamente nas próprias políticas públicas voltadas para a democratização do conhecimento, para inclusão, etc. E isso tem penalizado necessariamente o jornalismo científico e a divulgação científica.

Uma das críticas do professor é em relação à visão das políticas que já existem para a cultura científica. Para ele, são medidas com uma perspectiva reducionista.

Wilson da Costa Bueno – Por exemplo, quando houve um edital para incentivar essa circulação de informação para a ciência, tecnologia e inovação, na verdade se dava prioridade a docentes, titulares que tinham um belíssimo Currículo Lattes e que necessariamente pensam a divulgação a partir da comunicação científica, junto aos pares. Eu diria uma divulgação mais elitista e não contemplando necessariamente o cidadão comum. Se a gente olhar quem ganhou ou ganhava as verbas para fazer trabalho eram basicamente pesquisadores que faziam trabalhos muito mais fechados e não necessariamente voltado para a maioria da população. Há uma confusão que se estabelece no governo, na Fapesp, entre a divulgação e o jornalismo científico e a comunicação científica.

Há uma visão muito elitista da divulgação científica e por isso os recursos, e a divulgação científica acabam contemplando não jornalistas, não professores que trabalham com a divulgação científica etc. Nós temos muito a avançar nesse sentido.

Quanto à relação entre pesquisadores e jornalistas e divulgadores, há avanços, mas também há muito a ser feito, na análise de Bueno.

Wilson da Costa Bueno – Nós temos hoje uma massa crítica na área de divulgação científica, seja de jornalistas, seja de divulgadores formados em outras áreas, com uma massa crítica importante. Nós temos inúmeros jornalistas que se especializaram, que fizeram cursos de pós-graduação, que estão fazendo a própria contribuição do Labjor, de algumas universidades que se dedicam a isso, a USP, a UMESP, a UFSC, UFBA eu acho que já não é muito razoável admitir que a divulgação científica não tem uma massa crítica na imprensa. Ela tem uma boa massa crítica e a gente tem jornalistas com competência para fazer esse trabalho. Acho que ainda é um momento importante de transição.

O professor alerta que essa divulgação não pode ser feita sem uma visão crítica do sistema científico.

Wilson da Costa Bueno – Eu citaria setores como agroquímico, farmacêutico, biotecnologia, onde há uma atuação agressiva de notícias eu diria pretensamente científicas e que confessadamente existem por trás subjacentes interesses meramente empresariais. Eu acho que a Ana Victoria não tratou muito disso. Aliás a própria literatura brasileira trata pouco disso. O que eu queria chamar a atenção é que o incremento da divulgação científica tem que ser feito, necessariamente acompanhando um balanço da importância da ciência, tecnologia e inovação processo de inovação no Brasil, não necessariamente a reboque do noticiário internacional, e atenção para os interesses extra científicos.

Bueno aponta que é preciso maior esforço das instituições de pesquisa. Em 2014, ele publicou uma análise sobre portais de universidades brasileiras e a visibilidade de suas atividades. No trabalho, ele observou que a pesquisa é a área que menos aparece, comparando com o ensino e a extensão.

Wilson da Costa Bueno – De tal modo que muita gente ainda acredita que boas universidades fazem poucas pesquisas. Talvez pela dificuldade de convencer pesquisadores e cientistas a se ocuparem disso, a própria Ana Victoria fala nisso, há uma na cultura cientifica ainda há uma certa disposição de não considerar o processo de divulgação científica como uma das funções básicas dos pesquisadores, dos cientistas, até dos docentes.

Nas pesquisas que temos acompanhado, essa particular, artigos publicados sobre jornalismo e divulgação científica evidenciam um crescimento, mas ainda não uma perspectiva de adesão ideal dos institutos, universidades, e particularmente de cientistas, pesquisadores e docentes.

A pesquisadora Ana Victoria também ressalta a importância da participação das instituições e dos cientistas na comunicação com a sociedade, algo que ajuda a melhorar o próprio sistema científico.

Ana Victoria Pérez Rodríguez  – “Realmente do ponto de vista, e como temos observado com os dados desse trabalho, creio que o reforço teria que vir por parte das instituições científica. Neste sentido, creio que há um nicho de trabalho para os divulgadores e os profissionais da difusão que consistem não só em mudar a atitude do público para a ciência, como mudar também de alguma maneira, ou intervir, melhorar, a atitude dos próprios pesquisadores para as tarefas de difusão  e de contato  entre sistema científico e a sociedade.  Se temos visto mudanças muito marcadas nos meios de comunicação,  é difícil de perceber uma mudança tão clara nas políticas das instituições científicas e da comunidade científica.  Não creio que deva ser um elemento determinante.  Os cientistas têm que fazer ciência, mas é importante que eles entendam também qual é o valor deste tipo de ações e sobretudo que entendam que repercute na própria saúde do sistema científico  e que é uma responsabilidade de sua parte que devem assumir para com a própria ciência, em explicar em que consiste o sistema científico, em definir quais são as necessidades do sistema científico para que funcione como tal porque senão outros tomarão o espaço nos meios como estávamos vendo e as definirão por eles.  Provavelmente desde o âmbito da política, da economia ou setores que podem de alguma maneira subverter valores necessários para fazer ciência”.

Se preferir, ouça a versão desta matéria sem dublagem:

Matéria de Patrícia Santos, dublagem de Sarah Schimidt.

2 comentários sobre “Jornalismo evolui em contexto de estímulo à cultura científica

  1. Muito obrigado pela matéria. Fazia uma busca de radios que divulgam conteúdos científicos quando encontrei a 0xigenio.Sou produtora de um programa de divulgacao científica no canal público em Moçambique. Gostaria de partilhar experiências.abrcs

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