Importância dos zoológicos para a pesquisa e preservação (parte II)

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No programa anterior, conhecemos a história dos zoológicos e suas novas funções como a de promover a educação ambiental além de lazer. Mas os zoológicos também são uma das principais ferramentas para conservação de espécies, pesquisas científicas e até para preservação da natureza. Ouça nesta segunda parte da reportagem de Kátia Kishi.

No Brasil e em outros países há ONGs que atuam contra os zoológicos. Em 2013, o governo de Costa Rica anunciou que não renovará o contrato com a FundaZoo, que mantém os dois zoológicos públicos. E por pressão dos movimentos de direitos dos animais, vão transformar essas instituições em jardins botânicos. Especialistas da área ficaram preocupados com o destino dos animais que serão soltos ou transferidos, e podem não sobreviver sozinhos na natureza. Para o presidente da SZB (Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil) Claudio Maas, soltar os animais não é tarefa simples: e não há consenso na comunidade científica sobre o assunto. O biólogo explica que as instituições recebem animais de apreensão sem saber suas origens. Por isso não é aconselhável soltar esses animais em populações diferentes, já que eles podem levar doenças para o novo grupo. Outro problema é que talvez o novo ambiente não tenha suporte para mais animais, podendo gerar competição e mortes.

Mercival Francisco, biólogo da Universidade Federal de São Carlos, com pesquisa de reprodução em cativeiro, explica alguns desafios que animais soltos podem enfrentar na natureza: “A reintrodução em si é uma ciência a parte, ela envolve uma série de cuidados e isso depende muito do grupo de organismos, então quando se fala de reintrodução de peixes e anfíbios é algo mais simples porque esses animais não dependem ou dependem muito menos de cuidado parental então é muito comum, por exemplo, vermos o povoamento de rios e lagos com alevinos com filhotes de peixes e é um procedimento simples […]. O mesmo acontece com repteis e anfíbios, se você pegar girinos de qualquer espécie e soltar na natureza, eles estão geneticamente programados para sobreviverem sozinhos. Já quando se trata de aves e mamíferos, fica mais complicado, então tem uma série de técnicas que muitas vezes envolvem até treinar esses animais a procurarem alimentos novamente na natureza, treiná-los a fugir de predadores, então tudo isso tem que ser feito previamente em cativeiro para que se tenha algum sucesso.”

Já deu para perceber que as funções dos zoológicos vão além da educação e lazer, não é? Essas instituções também são responsáveis pela conservação e cuidados de várias espécies ameaçadas, pela preservação da natureza, além de pesquisas científicas. Claudio Maas informa que nos congressos anuais da SZB são inscritos mais de 200 trabalhos: “O zoológico trabalha em conjunto com a universidade e esses trabalhos geram desde trabalhos de graduação até a teses de mestrado e doutorado, sempre voltados para a questão de bem estar animal, avanços nas técnicas de manejo, estudos de requisitos nutricionais, com a questão do público e percepção do publico dentro do zoológico, e o zoológico é parceiro nas universidades, gerando um grande volume de conhecimento.”

Entre as pesquisas realizadas nos bastidores dos zoológicos, tem-se a reprodução em cativeiro que ajuda na conservação das espécies em extinção, como explica Mercival:“Quando sobrou, por exemplo, uma única população na natureza e essa população se encontra fora de áreas protegidas, a gente sabe que criar uma área de conservação para proteger uma espécie ameaçada é uma coisa que pode levar bastante tempo e também não garante. Então Quando você tem uma espécie que tem um número muito reduzido de indivíduos na natureza e a gente percebe que tem indícios de que protege-la naquele ambiente é algo que não seja possível num curto prazo, muitas vezes indica-se trazer essa espécie pro cativeiro, reproduzir em cativeiro para uma possível reintrodução na natureza, então na verdade é uma garantia a mais para produção de espécies que chegam em uma situação de ameaças extremamente críticas, e por isso a importância da reprodução em cativeiro.”

No Brasil, o caso do mico leão dourado mostra como o trabalho de conservação favorece as espécies ameaçadas e também o retorno para a natureza, ao lembrar que os zoológicos são a terceira maior fonte de renda para preservação mundial, sendo que em média, 350 milhões de dólares são enviados por zoológicos para programas de preservação da natureza. .

Mas Mercival explica que ainda existem muitas espécies que dependem 100% do cativeiro para sobreviverem, como é o caso das aves Ararinha Azul e Mutum de Alagoas:

“Esses projetos eles obrigatoriamente tem que ser multidisciplinares, tem que envolver diversas equipes, o projeto que nós trabalhamos é do Mutum de Alagoas, nesse projeto estão envolvidos os criadores, os donos dos criatórios que desenvolvem a criação do cativeiro que é um trabalho extremamente intenso que já dura décadas, existem equipes que trabalham na área de educação ambiental e na área de criação de unidades de conservação lá no estado de Alagoas, que fazem um trabalho bem extenso. A nossa equipe aqui na universidade trabalha com a questão do monitoramento genético desses planteis, porque normalmente quando uma espécie passa a depender do cativeiro é porque teve um numero de indivíduos muito reduzido e por conta disso surgem os problemas de ordem genética, então a genética é algo que tem que ser manejado de perto para que esses programas tenham algum sucesso.”

Claudio Maas critica iniciativas para soltar animais na natureza sem conhecimento técnico: “Importante frisar de novo que hoje os zoológicos são decisivos para muitas espécies tenham uma possibilidade de futuro.”

Se você perdeu a primeira parte da reportagem sobre zoológicos, acesse nosso site e ouça no programa 17. Você vai saber sobre o novo papel desses espaços na educação e mais!

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