Festival de inovação reúne empreendedores no Sul de Minas

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Por quanto tempo ainda teremos como base da economia industrial o modelo de grandes empresas, transnacionais, que se espalham pelo mundo com grandes plantas, altos investimentos em máquinas e uma infinidade de funcionários? Sem uma resposta precisa, empreendedores do universo da tecnologia, acreditam que esse modelo está prestes a se esgotar. E se depender dos jovens e profissionais experientes, que estiveram reunidos no início de setembro, no Hack Town, o movimento para um novo modelo de indústria já começou. E começou bem.

Hack Town é um festival de inovação, criatividade e tecnologia, realizado pela segunda vez este ano, em Santa Rita do Sapucaí, cidade localizada no sul de Minas.

Santa Rita é conhecida por ser um polo tecnológico e berço de startups, que são jovens empresas inovadoras, muitas voltadas para negócios com tecnologia de informação e comunicação. A cidade de 40 mil habitantes abriga a primeira Escola Técnica de Eletrônica do país, e também o Instituto Nacional de Telecomunicações, o Inatel. Juntos, atraem estudantes de todo o país em busca de formação e oportunidades de trabalho nessa área.

O evento de três dias contou com mais de 100 palestras, debates, workshops e mentorias, acontecendo em vários lugares diferentes, simultaneamente. Contou também com atividades culturais como shows, exposições de fotos e uma feira gastronômica, que movimentou a economia local.

Os temas foram os mais variados: realidade virtual, games, carreira, financiamento, internet das coisas, bitcoin. Em comum, a visão de criar possibilidades de novos negócios, baseados em conhecimento e criatividade, pensados dentro de conceitos de compartilhamento, qualidade de vida e sustentabilidade.

Algumas características marcam o ecossistema das startups. A troca de conhecimentos é uma delas. O compartilhamento de ideias, de equipamentos e do próprio ambiente físico. Muitas dessas empresas trabalham juntas, desenvolvendo produtos diferentes.

Gabriella Sant´Ana, do Centro Empresarial da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), cidade vizinha de Santa Rita, salienta que tem sido relevante a ação de integrar pessoas e instituições em prol do desenvolvimento local. Cada um atua na sua cidade, seja Itajubá, Alfenas, Lavras, mas trocando informações. Para ela, o empreendedorismo na região ainda não está no ponto ideal, mas estão avançando e reunindo mais pessoas para levar o Sul de Minas em direção à inovação.

João Rubens Costa, um dos idealizadores do evento é pesquisador no Inatel. Ele é engenheiro elétrico, com ênfase em telecomunicações e fala um pouco dessa marca do compartilhamento e de como a interdisciplinaridade foi considerada no Hack Town.

João Rubens Costa – “A gente propõe sempre que o pessoal aprenda coisas que não estão no contexto do dia a dia deles. E o Hack Town vem justamente pra mostrar que isso é importante. Por que a gente é um festival de criatividade e inovação? Não tem um cara lá falando assim: ‘galera inove, e pra inovar tem que fazer assim, assim, assim’. Na verdade, quando a gente se posiciona como festival de criatividade e inovação, é justamente porque a gente está trazendo conteúdos tão doidos, tão diferentes do seu cotidiano que a gente acredita que isso é o combustível necessário pra que você seja mais criativo e inovador”.

O evento foi baseado no norte-americano SXSW, que é realizado desde 1987, em Austin, no Texas, e que é considerado um dos maiores eventos da indústria criativa no mundo. Reúne tecnologia, arte, criatividade, que são elementos essenciais para quem busca inovar.

Para o casal de estudantes do Inatel, Carol Oliveira e Guilherme Costa, que estão no primeiro ano dos cursos de Controle e Automação e Engenharia da Computação, o evento ofereceu ensinamentos e estímulo ao mostrar diversas experiências de empresas pequenas, mas também das grandes como a Google, por exemplo, que eles ouviram em uma das palestras que eles assistiram. A variedade de temas também encantou.

Guilherme diz que conseguiu participar de quatro palestras e ouvir eventos de música na praça. Para ele, que pensa em abrir um negócio próprio, possivelmente a partir da criação de um aplicativo, uma das palestras mais interessantes foi a que tratou de Internet das Coisas, a chamada IoT.

Simone Pallone Das palestras que você assistiu, qual que você gostou mais, que você acha que pode te ajudar mais a [pensar a] levar adiante o seu objetivo?

Guilherme Costa – “Foi uma que eu vi na Holliday, que foi uma palestra sobre Internet das Coisas. Fala como você pode ter interatividade pela internet, com todas as coisas. Por exemplo, um sensor que detecta o estacionamento está lotado, certo? Aí ele já manda para um banco de dados que você recebe no seu celular e aí você ‘Nossa, o estacionamento está lotado, então eu nem vou entrar’.

Carol também acredita que vá investir em uma empresa dela, mas até mesmo a partir do que ouviu no evento, sabe que muita coisa ainda pode mudar, e nesse ramo da tecnologia, as mudanças ocorrem muito rápido e é difícil prever que tipo de necessidades a sociedade terá daqui alguns anos.

Carol Oliveira – “A cada dia que passa está ultrapassado [sic] as coisas, então você tem que pensar muito e ao longo do desenvolvimento você tem ir pensando no que você pode fazer pra não ficar desatualizado”.

Investir em novos negócios não é trivial. Um estudo recente da Fundação Dom Cabral, localizada em Belo Horizonte, mostra que um em cada quatro startups fecha encerra as atividades no primeiro ano, e a taxa aumenta para 50% em até quatro anos. Se tornar um grande sucesso de público e ganhos financeiros é ainda mais difícil. Gabriella Sant´Ana, na mesa redonda sobre ‘A busca de novos vales do Silício’, lembrou que a base para esse tipo de empresa mais inovadora, ainda é a tríplice hélice que propõe a junção de três atores importantes: a empresa, a universidade e o governo. A universidade garante a formação, o conhecimento que levará à criação de produtos ou serviços importantes; o governo colabora com financiamento e infraestrutura e a empresa é quem vai produzir e levar o resultado para o mercado.

Mas hoje, esse apoio do governo no financiamento de projetos está mais escasso, como lembrou o subsecretário de Tecnologia e Inovação do estado de Minas Gerais, Leonardo Dias. Para ele o papel do governo tem que ser outro. O gestor tem que facilitar, fazer as pontes, juntar as empresas inovadoras, para que conversem, além de garantir alguma infraestrutura. Mas o governo de Minas não está fazendo somente isso.

No último ano, houve uma seleção de 40 empresas entre 1500 concorrentes, dentro do Programa Seed (de capital semente), que é um programa de aceleração de empresas. Com recursos da ordem de R$ 70 mil por projeto, as empresas de base tecnológica selecionadas ficam incubadas por seis meses, recebendo suporte em áreas chave para estruturar os projetos antes de se lançarem definitivamente no mercado, e não só em relação à parte técnica, A consultoria vai também como buscar financiamento, como gerir o negócio, em que ponto pode começar a ampliar a escala.

Um dos selecionados no Programa Seed foi o Marcos David, que é o diretor da D’Ágora, startup que desenvolveu uma plataforma online de disseminação do conhecimento, unindo pessoas que querem aprender e ensinar, e que funciona também offline. Marcos também se formou no Inatel, na área de tecnologia, assim como Rafael Caputo, sócio da D’Ágora, que tem formação também em Educação e um mestrado na Unicamp.

Ele explica que o grupo trabalha com um tema muito importante que é educação, que é um sistema muito engessado no mundo inteiro. A dificuldade, na opinião dele, era encontrar alguém que ‘hackeasse’ bem para desenvolverem uma empresa que realmente faça algo para mudar e conseguir oferecer uma proposta mais valorizada. Ele ressalta que se usa pouca inovação na educação e que é possível desenvolver mais produtos nessa área. A dificuldade é impulsionar o projeto e ele acredita que nem a tecnologia nem o dinheiro são barreiras para isso. A dica é não pensar nos problemas de agora, mas sim nos problemas do futuro. Comparando as startups com a indústria convencional, ele diz que uma empresa mais tradicional pensa em resolver o problema de alguém ou de muitas pessoas hoje. Já as startups tem que pensar mais na humanidade como um todo, e como a tecnologia pode resolver problemas como fome, energia, questões maiores e que se não forem resolvidas agora terão um impacto grande no futuro.

O subsecretário do governo de Minas também insiste que o foco do projeto apresentado pela startup pode fazer diferença numa concorrência por algum tipo de apoio, principalmente diante da falta de recursos.

Leonardo Dias – “Nosso papel estratégico é apoiar projetos sustentáveis. Esse é o caminho. Nosso papel é investir no ambiente, no ecossistema. Estamos fazendo um trabalho muito legal. A crise ajuda nesse ponto. Se tivesse todo mundo com muito dinheiro, ninguém ia estar olhando, mas como está todo mundo apertado, está todo mundo abraçado: Sebrae, Fiem, Governo, Fapemig, está todo mundo abraçado pra poder fechar a conta”.

Gabriella reforça essa questão do que se deve esperar do governo e quais devem ser as ações das empresas:

Gabriella Sant´Ana “O governo tem que atuar em segmentos estratégicos, em empresas estratégicas também, e é papel do empreendedor e quem tá começando investir também, começar com as próprias pernas, buscar financiamentos também. A gente não pode esperar do governo 100% das coisas, mas no Brasil existem diversas linhas de fomento que não é só a parte do governo, como diversos centros de pesquisa, diversas empresas estão investindo em startups. Então faz parte do papel do empreendedor procurar, divulgar. A gente está sempre, como comunidade empreendedora, divulgando as oportunidades para outras startups entendendo que a minha startup não compete com a sua, a gente vai escrever o mesmo formulário, mas a gente não se compete, entendeu? A gente vai participar do mesmo edital, mas se forem duas startups do Sul de Minas lá já vai fazer a diferença pra gente. Compartilhar esses editais, essas oportunidades, porque às vezes naquele momento não é para você, mas é pro outro”.

Perguntado sobre quais os pontos principais do evento, João Rubens Costa salientou que não conseguiria dizer, mas acabou mostrando uma questão interessante que é a de trazer para o público o inusitado, a surpresa.

João Rubens Costa – Eu não tenho um ponto específico pra falar. O que eu gosto é que as pessoas se surpreendam. Eu acho que o incrível do evento é que você vai com uma pretensão que não seja tão legal alguma coisa e você acaba se surpreendendo. Acho que isso é que é o mais interessante porque nesse momento é que você aprende, você fica embasbacado com uma coisa nova. É superlegal. Vou dar um exemplo do que aconteceu e eu acho que cresce muito. A primeira palestra ia ser sobre artes, mas a moça teve que desmarcar a palestra. De última hora a gente conseguiu um palestrante para falar sobre financiamento coletivo. Eu fiquei super preocupado, só que é interessante que aí que você vê o poder do Hack Town. Acabou que as pessoas que estavam não sabiam muito sobre financiamento coletivo, mas todas queriam fazer. Então começou a aparecer a demanda ‘ah, putz, eu sempre quis fazer um financiamento coletivo para um documentário’, a outra falou ‘eu queria fazer uma arte’. Acabou que a gente conseguiu trazer para o mundo dessas pessoas da arte como elas podem atrelar o financiamento coletivo para o dia a dia delas”.

O estudante de Engenharia da Computação, Guilherme Costa, também gostou dessa oferta variada de atividades, que torna o evento atraente para todo mundo, não só para aqueles que lidam com tecnologia, com eletrônica, telecomunicações, ou que pretendem criar uma empresa baseada em tecnologia.

Guilherme Costa – “O evento também não é só para a gente que é da área de exatas, de engenharia, mas para todas as pessoas que têm mente aberta, que quer aprender mais sobre as coisas. Tem bastante coisa de fotografia, de música, ou seja, é bastante cultural o evento”.

Segundo os organizadores, João Rubens, Marcos Davi e Carlos Henrique Goulart que, diferente dos amigos é publicitário, a ideia é realizar o Hack Town uma vez por ano, ampliando sempre o evento, as conexões e esse ambiente colaborativo e criativo.

Matéria de Simone Pallone.

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