Entrevista com Nathalie Gravel: é preciso envolver as comunidades na gestão dos recursos naturais

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A geografia estuda dinâmicas territoriais. Essas dinâmicas são construídas tanto pelo território quanto pelas pessoas que o ocupam. E na transformação desse território, as percepções da população exercem um papel importante. Qual a sua percepção sobre a natureza? E sobre as unidades de conservação? Será que nós valorizamos os cursos dos rios nas cidades? Essas são reflexões propostas pela geógrafa Nathalie Gravel, que estuda o protagonismo das comunidades na gestão de seus recursos. Nathalie é professora e pesquisadora da Universidade de Laval, em Québec, no Canadá. Especialista em geografia da América Latina e do Caribe e também em governança dos recursos hídricos.

Como é que surgiu seu interesse em pesquisar América Latina e Caribe?

Nathalie Gravel – Começou nos anos do meu mestrado, estava buscando um tema para pesquisar e fiz uma viagem para a Jamaica e gostei da cultura e comecei a pesquisar a influência dos turistas internacionais na Jamaica para saber exatamente qual era o produto turístico, mas também os efeitos que deixa o turismo internacional nas comunidades. Por exemplo, as praias. Elas são públicas ou são privadas? As praias de uma ilha do Caribe são acessíveis à população ou são reservadas a população turística. E podem surgir desigualdades e ressentimento. E se percebe esse ressentimento. Na Jamaica e outros países caribenhos também. Então essa relação entre turismo e população local pode melhorar quando o turista faz um esforço para aproximar-se da população local, falar com eles, sair dos caminhos turísticos e ir mais adentro da ilha. Ter uma relação autêntica com a gente local. Acho que isso pode ajudar a melhorar. E também o que fica de uma viagem é uma aprendizagem, um intercâmbio, mais entendimento da parte de cada um.

Depois desse estudo na Jamaica fui ao México fazer a minha tese de doutorado. Foi uma pesquisa sobre as maquiladoreas. Essas empresas de assemblage e exportação, que muitas vezes se dão nas fronteiras dos países, como na divisa entre EUA e México. Mas Yucatan é uma nova divisa para maquiladoras. Está localizada no Golfo do México e facilitam a exportação dos produtos para “terra” dos portos americanos. E lá também me interessou saber o impacto dessas empresas, muitas vezes de origem internacional, sobre a população local. Como a população local vai se adaptando aos novos horários de trabalho, nova cultura de trabalho, e também como os donos das empresas vão se adaptando à cultura local. E depois fui para a região central do México fazer um pós-doutorado sobre a pequena produção agrícola, os impactos do acordo de livre comércio entre Canadá, EUA e México sobre os pequenos agricultores. E logo comecei a ser mais interessada sobre meio ambiente e governança.

Conta um pouquinho o que você veio pesquisar aqui no Brasil.

Nathalie Gravel – Vim ao Brasil porque estava fugindo da violência de México. No Brasil é possível fazer mais pesquisa no campo com comunidades rurais. É mais fácil fazer isso no Brasil que em México. Em México é difícil. Muita violência que não se pode planejar, que não é localizada a violência. É por todos os lados. Qualquer pessoa que se desloca, está sujeita a violência. E como pesquisadora é um pouco estressante. E Brasil ainda se não é um país livre de violência, é mais fácil pra eu fazer pesquisa. Comecei no nordeste, no Recife, logo no centro de Pernambuco, comecei a fazer pesquisa lá, na beira do rio São Francisco e estudar a governança dos recursos hídricos, a distribuição de água, quem se aproveita mais da água do rio, como está distribuída, também um pouco de reforma agrária. Lá tive a oportunidade de visitar acampamentos do MST, com a faculdade de geografia da Universidade de Pernambuco (UPE) – Campus Petrolina. E estudei o Movimento ASA – Articulação para o semiárido, que é um movimento que agrupa mais de 800 ONGs no semiárido brasileiro e que tem função de chegar a uma melhor convivência com o semiárido. De tentar mudar as percepções que os brasileiros têm do semiárido. E tentar incentivar um modo de vida que não seja tanto de luta contra a aridez, contra a seca, mas de convivência, aprender a viver com essas condições que são normais para essa região. E se pode, por exemplo, com agroecologia. Também se pode recolhendo águas de chuva, com as cisternas que desenvolveram lá. São tecnologias sociais que foram desenvolvidas lá com ASA para recolher água de chuva e permitem realmente para as populações de viver e ter acesso à água durante seis meses por ano, os meses que são de seca. Isso permite ter atividades múltiplas, mais variadas e assim ter uma vida que pode ser boa. Ainda há muito a ser feito para mudar as percepções os brasileiros sobre o semiárido, porque isso parece que tem muitos prejuízos. Muitos brasileiros acham que não tem nada lá, que é uma terra seca, que não é fértil. Mas é fértil. Tem brejos de água. Cidades que se desenvolvem bem. É importante mudar essa percepção para reconhecer o potencial dessas pessoas e dessas comunidades. E o papel da Universidade Federal Rural é justamente de apoitar esses estudantes lá onde estão. Apoiando-os a ficar lá com os estudos superiores, por exemplo, que não se sintam obrigados a sair para as grandes cidades.

E por falar em semiárido, você veio pesquisar a crise hídrica em São Paulo?

Nathalie Gravel – Sim. Tive a oportunidade num intercâmbio entre Canadá e Brasil, que tratava de governança nas metrópoles. Mudei um pouco o foco da minha pesquisa, que sempre foi do meio rural, para entender as bacias no meio urbano. É interessante ver como se construiu a cidade de São Paulo na história. E finalmente, o rural sempre completa o urbano. Sempre tem vínculos entre o rural, a periferia e o urbano. E essas dinâmicas são importantes, porque o rural serve para alimentar as pessoas da cidade. E também, há muita produção de água nas unidades de conservação, no meio rural, onde tem muita floresta. O rural, a parte mais vegetalizada do estado de são Paulo, serve para abastecer a cidade. Então essas dinâmicas rural-urbanas são objetos de estudo para geógrafos e são muito ricas pra entender o que se passa nas bacias como esta do rio Tietê e da Cantareira, para conhecer realmente as origens da crise de água em São Paulo. Então não é um estudo superficial. A gente vai lá na história, analisando os processos de colonização do território.

Durante a pesquisa, estudantes canadenses vieram ao Brasil para estudar essa questão da água e ainda não terminamos. Estamos no meio da pesquisa. E também comecei outra pesquisa sobre agricultura urbana. Essa pesquisa se coloca dentro de uma mudança global. As cidades verdes, onde os moradores urbanos tentam se reaproximar da natureza e fazem hortas comunitárias, hortas individuais, tentando produzir os alimentos sem agrotóxicos, por exemplo, e também reaproximar-se da terra. E muitos deles, aqui na cidade de São Paulo, tem origens na roça, tem pais e avós que vieram do campo. É como reencontrar suas raízes de certa maneira. Então agora é preciso estudar as funções da agricultura urbana nas cidades e seus obstáculos, como a falta de politicas publicas, que ainda não apoiam muito esse tipo de produção, mas isso pode mudar, pode se desenvolver, e até chegar a resultados interessantes, por exemplo, em torno dos serviços ecossistêmicos, da agricultura urbana, pode ajudar a convencer políticos, funcionários, de adotar politica pública para apoiar esse tipo de atividades na área urbana. E isso também gera renda. Atualmente gera renda para muitas famílias, com o apoio de ONGs, como Cidade Sem Fome. Eles buscam um lote, muitas vezes debaixo de linhas elétrica e ajudam a por a infraestrutura pra começar a produção e buscam famílias para cultivar. E essas famílias podem vender o resultado de sua produção. E ajuda muito. Tenho visitado vários e vejo que isso ajuda toda a comunidade, porque tem acesso a alimentos frescos e livres de agrotóxicos.

Matéria de Paulo Muzio.

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