#134 – É tudo mato? As plantas que não vemos

As plantas estão em todos os lugares: no jardim, na decoração, na praça e no parque. Elas estão lá, mesmo que a gente nem sempre note sua presença. Essa nossa insensibilidade diante desses seres vivos ficou conhecida como Cegueira Botânica. Termo proposto na década de 90, junto com uma lista de “sintomas”, falhas de nossa percepção, em reconhecer a individualidade, o ciclo de vida e a importância ambiental das espécies vegetais. Mas, essa nossa relação com as plantas pode ser melhorada e, os Jardins Botânicos, espaços dedicados à preservação e divulgação das plantas, são uma ferramenta importante nesse processo.

Nesse episódio, Mayra Trinca e Thiago Ribeiro conversam com Matheus Colli-Silva, que é biólogo e doutorando em botânica pela USP e, com Domingos Savio Rodrigues,  diretor do Jardim Botânico de São Paulo, para entender melhor o que é essa cegueira e o que é, e qual o papel de um Jardim Botânico nessa história. 

Vem com a gente encontrar um outro olhar pro mundo verde ao nosso redor.

 


Thiago: Oi! Deixa eu te fazer uma pergunta. Se eu te pedir um exemplo de alguma espécie que está ameaçada de extinção, qual é a primeira que vem na sua cabeça?

Thiago: É bem provável que você, assim como a maioria das pessoas, tenha pensado em um animal como o mico-leão-dourado ou a onça-pintada, já que são eles que, com frequência, ganham a mídia e as manchetes quando falamos sobre extinção.

Mayra: O que pode te surpreender é que as plantas correm um perigo ainda maior do que os animais. Um relatório feito no ano passado pelo Jardim Botânico Kew Gardens mostrou que 2 em cada 5 espécies de plantas estão em extinção. No Brasil, das 6 mil espécies avaliadas pelo Centro Nacional de Conservação da Flora, 2 mil estão ameaçadas em algum grau.

Thiago: Segundo o último censo do ICMBio, registrado no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, em 2018, dos mais de 17 mil grupos de animais listados, 1.173 encontram-se ameaçados. Isso significa dizer que, proporcionalmente, o risco de perda de diversidade vegetal é cerca de 5 vezes maior em relação aos grupos animais.  Essa dificuldade que temos de perceber e valorizar as plantas como um grupo de seres vivos importantes faz parte de um fenômeno conhecido como cegueira botânica. 

Thiago: E aí? Se interessou? Meu nome é Thiago Ribeiro.

Mayra: E eu sou a Mayra Trinca. E hoje vamos tentar entender um pouquinho mais sobre essa tal cegueira ou invisibilidade da flora que está presente em tantos espaços à nossa volta.

[VINHETA OXIGÊNIO] 

Mayra: Vou começar falando da minha relação com as plantas. A versão curta da história é assim. Quando eu entrei na faculdade para fazer Biologia, tinha toda certeza do mundo que ia trabalhar com bicho, mas o mundo deu voltas bem rápido e logo no primeiro ano eu comecei um estágio na botânica. Aí fui me interessando e pegando outras disciplinas sobre o tema. Foi numa apresentação de seminário em uma dessas disciplinas que eu conheci o termo cegueira botânica. 

Thiago: Eu me lembro de notar as plantas, pela primeira vez, no cursinho. Desde então, a botânica passou a ser uma parte da biologia muito complicada pra mim. Com um monte de nomes estranhos e difíceis de entender. Não sei dizer como isso de fato aconteceu, mas quando percebi, estava concluindo meu trabalho final de curso sobre conservação do palmito juçara. Nesse momento eu já tinha tido contato com o termo ‘cegueira botânica’ e, a partir daí, essa tem sido uma questão que sempre me intriga.

Mayra: Esse contato meio conturbado com a botânica é relato comum entre as pessoas que fazem o curso de Biologia e acaba se refletindo na educação básica, já que a maioria dos professores de Ciências tem essa formação. 

Matheus: Sempre tem esse estereótipo da botânica entre os biólogos. Eu acho que isso também existe, inclusive, entre os professores, que são biólogos na maioria das vezes – professores de Ciências e de Biologia – e, que tem uma aversão às plantas que acaba surgindo no ambiente acadêmico mesmo.

Thiago: Esse é o Matheus-Colli Silva, que é biólogo e doutorando na área de botânica pela USP.

Mayra: E foi exatamente nesse contexto escolar que essa tal Cegueira Botânica começou a ser explorada. O primeiro e mais famoso artigo sobre o tema, é de 1999 e foi publicado numa revista da Associação Nacional de Professores de Biologia, na Califórnia, Estados Unidos.

Thiago: Nele, os autores discutem como é comum o desinteresse pelas plantas e propõem esse termo “Cegueira Botânica”. Além de listar uma série de sintomas, que demonstram essa dificuldade em enxergar as plantas ao nosso redor. 

Mayra: Um dos primeiros sintomas apontados pelo artigo é a dificuldade de entender as plantas como protagonistas e por isso, a gente acaba colocando todas como uma massa única de coisas que servem como um cenário. Mesmo que estejam totalmente envolvidas nos hábitos e sobrevivência dos animais, as plantas costumam ser percebidas como coadjuvantes na natureza.

Matheus: Eu acho que tem a ver com como as pessoas percebem o que é um ser vivo, né? Para muita gente, um ser vivo é aquilo que se mexe. Muitos outros seres vivos, eu acho na verdade, passam despercebidos pelas pessoas. Ou eles até são percebidos, só que eles são percebidos como um elemento da paisagem, não como um indivíduo que tem a sua identidade. Eles são só um plano de fundo. 

Mayra: O Matheus lembra  que essa percepção em relação às plantas ocorre também com os fungos. Embora não sejam plantas, os fungos são estudados na grande área da botânica. Como não se movem tão rápido quanto um animal, também acabam invisibilizados na natureza, como as plantas.

Thiago: O Matheus não é o único a pensar assim. A gente conversou com o Domingos Savio Rodrigues, que é diretor do Jardim Botânico de São Paulo. E ele também tem essa percepção de que muitas vezes o jardim parece funcionar apenas como um plano de fundo para as atividades que são realizadas dentro dele.

Domingos: As famílias vêm para contemplar mesmo a natureza. Botar uma toalha no gramado, em alguns bancos, e ficar naquela paz, naquela contemplação da natureza. E, tem o pessoal que vem tirar fotos. Eles aproveitam vários pontos: tem umas escadarias, tem estufas, tem um portão.

Mayra: Ou seja, as pessoas escolhem esses lugares com plantas para terem um fundo bonito para as fotos e por criarem um ambiente agradável para fazer um piquenique. Mas dificilmente essas pessoas escolhem esse cenário para caracterizar, por exemplo, nas fotos, plantas que sejam originárias daquele lugar. E esse é um outro sintoma da Cegueira Botânica.

Thiago: Mas eu vou ser sincero com vocês, já me peguei pensando se isso realmente faz diferença, sabe? Assim, eu sei que as plantas são muito importantes pro meio ambiente e tudo mais, mas com todo o intercâmbio cultural que existe hoje, por que eu deveria dar prioridade pras espécies nativas sobre as exóticas, as plantas que vieram de outros lugares? Aí, eu fiz essa pergunta pro Matheus.

Matheus: Primeiro que você entende um pouco da flora do local e conhecer a nossa flora, a nossa fauna, é conhecer a nossa história, certo? Então, quando a gente conhece quais são as espécies que ocorrem na região onde a gente está, a gente entende um pouco como que o nosso lugar é. A gente entende um pouco da nossa história como indivíduo, assim como ser vivo. E, também acho que também como nação, né? Acho que tem até uma coisa meio patriótica.

Mayra: Quando a gente fala sobre a relação das plantas com a nossa história, não tem como não pensar no Pau-Brasil, essa árvore que deu nome ao país, é nativa aqui da Mata Atlântica e é endêmica do país. Quer dizer que ela só cresce naturalmente aqui e em nenhum outro lugar do mundo.

Thiago: É, mas o Pau-Brasil é só uma entre tantas do Brasil, que tem a maior diversidade de espécies de plantas do planeta. Tem também o açaí, o palmito, o cupuaçu e o cacau, que hoje tá no chocolate do mundo todo, mas que é daqui, da Amazônia.

Matheus: Acho que passa por aí. Assim, quando a gente entende um pouco melhor o que é nosso, o que é brasileiro, a gente entende a nossa história. Pô, a gente não estuda história? A gente sabe que o Getúlio Vargas é brasileiro e ele compôs a história do país? Por que a gente não pode entender um pouco melhor ou, pelo menos, ter a possibilidade de valorizar a nossa flora, né? Sei lá, não sei se eu convenci vocês.

Mayra: Eu não sei você, mas eu fui facilmente convencida, e adorei esse jeito de pensar as espécies de plantas como parte da nossa história.

Thiago: Na verdade, se a gente parar pra pensar, as plantas estão super presentes na nossa vida, tem o jardim na casa da vó, tem as flores de enfeites, os buquês e são um presente clássico em ocasiões especiais. E até mesmo na cidade. Se você mora no sudeste, com certeza já parou para observar um ipê todo florido no meio da rua. 

Mayra: Aí é que entra um outro sintoma da Cegueira, a gente tende a prestar atenção nas flores, mas nem sempre na planta em si. Por exemplo, todo mundo conhece as rosas, mas será que você consegue identificar uma roseira sem que ela esteja florida? 

Domingos: Mas assim, de repente, a turma não se liga que tem uma árvore ali muito rara, né. Ameaçada de extinção. E a pessoa não se liga assim na árvore nem na planta. Por que ele vem aqui e tem época que tem flor e época que não tem. Tem muita gente que quer vir aqui e acha que vai estar tudo florido, porque aqui é gramado, né? Claro que tem, pode ter flores, né. Mas a gente explica. Será que essa pessoa faz um link entre porquê que tem ou não tem e, o verão e o inverno? Saber a diferença do porquê que essa árvore tem época que está com folha caída ou porque não está.

Thiago: As flores são só uma parte do ciclo de vida das plantas. São as estruturas responsáveis pela sua reprodução e, portanto, só aparecem quando estão prontas para formar uma nova geração. Mas isso tem um tempo para acontecer, dependendo das estações, do clima, da quantidade de água.

Mayra: Claro que flores são lindas, mas é importante reconhecer a planta como um organismo com um ciclo de vida complexo, cheio de fases e que vão muito além das flores.

Matheus: Que é o que os autores clássicos descrevem. A Cegueira Botânica não é só a identidade da planta como um indivíduo que pertence a uma caixinha. A Cegueira Botânica também tem a ver com o entendimento das plantas de maneira geral, da biologia delas. As pessoas muitas vezes não associam flor com fruto. Então, mostra um tomate com flor e ela vai falar “Ué, mas como assim?”. É muito doido isso, é engraçado.

Thiago: Entender o ciclo de vida e o funcionamento das plantas também é parte importante de reconhecer o papel fundamental que elas cumprem no combate ao aquecimento global. Quando a gente diminui, mesmo que sem querer, a relevância das plantas no nosso dia a dia, a gente pode acabar ficando insensível aos eventos de derrubadas ou queimadas desses seres. 

Domingos: Mesmo a gente falando em efeito das mudanças climáticas, o pessoal não se liga assim. Uma pouca porcentagem que se liga nisso, né.

Mayra: As florestas tropicais têm um papel fundamental na regulação do clima global, influenciando o regime de chuvas, proteção contra inundações e controle de erosão. O Domingos nos contou sobre um dos importantes serviços ambientais oferecidos pelo Parque Estadual Fontes do Ipiranga, localizado no município de São Paulo, no qual está inserido o Jardim Botânico de São Paulo.

Domingos: Aqui, nós temos até 3°C de diferença de temperatura com algumas partes da cidade de São Paulo que são mais asfaltadas. Então, mostra isso na prática. Serve como uma esponja para não ter enchentes aqui na região. Mesmo tendo aqui o jardim botânico, ainda tem enchente aqui por perto.

Thiago: Infelizmente, quase sempre as plantas somente são notadas por sua utilidade a serviço da humanidade. A devastação das florestas tropicais reflete, sim, em um agravamento da questão climática, com todos os problemas decorrentes do aquecimento global. Mas as plantas não se resumem apenas a extensos tapetes verdes, reservatórios de carbono, fornecedores de oxigênio e que auxiliam na regulação do clima global.

Mayra: A perda dessas florestas, além de afetar o clima, também tem como consequência, a destruição de diversos ecossistemas, com a extinção de espécies que nem sequer foram descobertas.

Matheus: A valorização da fauna e da flora, que são patrimônios nacionais, isso é algo muito importante, porque a gente tem muitas espécies que só ocorrem no Brasil. Mais importante do que isso, o Brasil é o país mais diverso do mundo em termos de riqueza de espécies de plantas. Muita gente não sabe disso.

Matheus: A gente nem percebe mas, se a gente soubesse, se a gente valorizasse, se a gente entendesse, talvez a forma de como a gente se relaciona com o ambiente seria muito diferente, a gente teria mais noção, seria muito mais sustentável.

Mayra: Mas qual seria o caminho para melhorar essa nossa relação com as plantas? Como a gente pode minimizar os sintomas provocados por essa cegueira botânica?

Domingos: Essa questão, eu acho que tem que ser mudada na escola de base. Na escola fundamental, né? O ideal é que venha criança aqui para ter aula de educação ambiental mesmo. Pra ver a nascente, pra ver o verde.

Domingos: E, eu acho que os ouvintes do programa de vocês, quando forem ouvir isso, vão até despertar entre eles mesmo, por quê? Essa cegueira, ela não é só nos Jardins Botânicos. Pode ser em parques também. Tem muita gente que não vai em Jardins Botânicos, mas vai em parques, né? Levar a criança pra passear e, de repente, não está nem ligado que planta é aquela, que árvore é aquela, que flor é aquela.

Thiago: Nós também perguntamos ao Domingos sobre qual a percepção que o público tem em relação ao jardim botânico.

Domingos: O pessoal, a comunidade, o munícipe paulista ainda não descobriu o Jardim Botânico ainda, né? Nós temos em torno de 150 a 200 mil visitantes. O zoológico tem mais de 1 milhão … por ano.

Domingos: Quando a gente vai falar do Jardim Botânico, a gente fala que é do lado do zoológico. A gente recebeu visita antes aqui, que eles não conseguiram chegar no zoológico por causa do trânsito. Aí os caras entram, meu, e falam: “Nossa! O que é isso!”

Mayra: Mas Domingos, explica melhor pra gente, o que é um jardim botânico? Ele é como um jardim ou uma praça qualquer com canteiros expondo flores multicoloridas e gramados verdejantes para visitantes que buscam fugir da rotina atribulada das cidades? O que esse espaço tem de diferente ou de especial?

Domingos: O Jardim Botânico tem várias categorias, né. São vários Jardins Botânicos no Brasil. E tem o CONAMA, Conselho Nacional do Meio Ambiente. Ele que regula os Jardins Botânicos. Então, para o Jardim Botânico ser considerado classe A, são 17 itens. O Jardim Botânico tem que ter herbário, ele tem que ter coleções, ele tem que ter um corpo de pesquisadores, tem que ter biblioteca, tem que ter cursos para a comunidade. Se o Jardim Botânico tiver uma quantidade, sei lá, dez, aí ele entra numa categoria B, C, entendeu? Não precisa ser, também, uma Unidade de Conservação. Aqui, o Parque Estadual Fontes do Ipiranga, é uma Unidade de Conservação.

Thiago: Caso você nunca tenha visitado um jardim botânico, vamos tentar descrever algumas das principais impressões desse lugar. 

Camille: À primeira vista, um jardim botânico pode até lembrar um parque, com árvores muito parecidas recheando seus canteiros, todos contornados por arbustos e ervas floridas que perfumam e embelezam seus caminhos. Mas, o caminhar dentro de um jardim botânico reserva certa demora, uma morosidade de quem procura, com o olhar, diferenciar formas, cores e texturas e, por vezes, se perde em meio aos próprios pensamentos. 

Camille: Um jardim também possui canteiros porém, estes normalmente se apresentam organizados por categorias. Imagine que estamos caminhando por uma dessas trilhas.É possível ouvir os sons dos pássaros fazendo alvoroço enquanto se recolhem em seus poleiros. Eles gostam de visitar o jardim atrás de comida ou de um lugar para descansar antes de seguir viagem. Logo o ar parece diferente, parece mais leve, mais fresco do que lá fora. Um cheiro diferente passa impregnar as narinas. Um cheiro de mato verde ou algo assim.

Camille: Enquanto você caminha, tentando decifrar essa mistura de odores, começa a notar um barulho que passava despercebido. É o som de passos que se chocam contra o chão da trilha, agora coberta por cascalho e outras tantas pequenas pedras. Um pequeno jardim do seu lado esquerdo, também coberto por pedras como as da trilha, chama sua atenção. Ali crescem plantas de aparência pouco amigável. Parecem ter vindo de algum deserto. Algumas nem parecem vivas mas, olhando com um pouco mais de atenção, podemos notar que flores brancas em formato de funil estão brotando do topo de algumas dessas colunas espinhosas.

Camille: Enquanto você se distancia daquele canteiro intrigante, um pouco mais adiante, à sua direita, um caminho te guia a uma paisagem completamente diferente. O ar parece mais úmido agora. Sem sombra de dúvidas, aquele cheiro de mato verde é bem mais forte aqui. Ele se mistura com o cheiro de terra molhada e troncos apodrecidos. A trilha parece ter sido engolida por um bosque com árvores altas de copas densas cobrindo sua cabeça. 

Camille: Aqui, a umidade estimula o olfato de uma forma que parece permitir sentir o gosto das folhas verdes, dos troncos, da terra. E por falar das folhas, estas possuem coloração de um verde muito vistoso. Possuem diferentes formas, texturas e tamanhos: ovais, redondas, alongadas, lisas, ásperas, aveludadas, pequeninas e avantajadas. O chão está coberto por uma camada de folhas mortas, galhos e troncos podres. Com sorte, é possível encontrar alguma flor ou fruto recentemente desprendido das copas das árvores.

Mayra: Ao olhar pro chão, pertinho do tronco das árvores, você vê uma plaquinha fincada. Nela, pode ler dois nomes, um mais comum, que se puxar na memória tenho certeza que já ouviu em algum lugar. O outro, logo abaixo,  é diferente. Tem duas partes e parece escrito em Latim. É o nome científico daquela espécie.

Thiago: Essas placas são parte importante dos Jardins Botânicos. Mostram a identificação das árvores, que funcionam tanto para organização do próprio jardim, quanto para facilitar o manejo e as pesquisas. E, servem para ajudar os visitantes a identificar e conhecer mais sobre aquela planta.

Domingos: E a gente tem, na nossa área, a gente tem um grande lance que é nomes vulgares, né? Por exemplo, eu sou pernambucano, né. Então, uma planta com nome lá, aqui já tem outro nome. Lá no jardim dos sentidos, e a gente faz de propósito, tem o capim limão e o capim citronela.  Aí, eu peço, quando vou com visita: “Ah, cheira aqui!” O cara cheira e fala: “É capim limão”. O outro: “Não, é cidreira!”. “É melissa!”. Aí começa a discussão, né? E é muito engraçado isso.

Mayra: Os nomes populares são manifestações da cultura de um local ou de um grupo e por isso são importantes de serem conhecidos. Entretanto, eles não são a melhor alternativa quando a gente precisa definir e classificar uma espécie sem correr o risco dela ser confundida com outra. Daí, a importância de usarmos também os nomes científicos. 

Matheus: Então, assim, a gente consegue olhar para uma planta. Pensando nas plantas, certo? Como um indivíduo, como uma planta simplesmente, uma coisa verde com folhas. A gente pode olhar como mato. A gente pode olhar como uma entidade que tem um nome científico. Quer dizer são diferentes perspectivas, de identificar alguma coisa, de você individualizar, você dar nome pra uma coisa.

Thiago: Os nomes científicos são extremamente importantes no mundo científico. Eles garantem que uma planta específica seja diferenciada das demais, podendo ser reconhecida em qualquer lugar do mundo e, apenas através desse nome, já conhecemos um pouco da sua evolução e sua relação com outras espécies. 

Mayra: Infelizmente, nem todo mundo reconhece o valor dessa informação. O Matheus pensou e fez parte de uma iniciativa super legal de colocar essas placas de identificação em um jardim lá na USP. O grupo de pesquisa que ele fazia parte fez algumas entrevistas com o pessoal que passava pelo local, perguntando as opiniões da galera sobre aquelas placas.

Matheus: Teve uma que falou assim: “Acho que vocês estão jogando dinheiro fora. Não deveriam fazer essas placas aí não, porque ninguém dá valor pra isso. Ninguém liga pra isso. Ninguém liga pras plantas.” Eu lembro que teve uma pessoa que falava assim “Ah, elas não são úteis para mim, não vejo utilidade. Não tem pra quê colocar placa, não tem utilidade. Essa planta aí, não dá fruto para mim, não dá comida pra mim.”

Thiago: Essa ideia de separar plantas úteis daquelas, aparentemente, inúteis para nossas vidas é mais um dos sintomas que fazem parte da Cegueira Botânica. Enxergar a importância única e exclusiva das plantas em nos servir de alguma forma, no geral, nos fornecendo comida ou medicamentos, é uma visão que limita nossa relação com esses seres vivos.

Domingos: Essa cegueira botânica é muito interessante, realmente. Porque, às vezes, a pessoa quando… a gente tem um pé de jaca aqui e o pessoal fica: “Nossa! Isso é um pé de jaca!”  Eles ficam, assim, bem entusiasmados pra ver uma jaca. Aí, vai lá na frente e vê um pé de café também. Quer dizer, a gente se preocupa com as plantas nativas e o público fica maravilhado com essas coisas assim: “Não, essa aí não é jaca!”  Quer dizer, engraçado, né.

Mayra: E na verdade, isso até que faz sentido. Imagine como era a vida de um ser humano que viveu há milhares de anos, antes do surgimento das cidades antigas, dominando ferramentas muito simples. Sem dúvida, era mais importante, pra ele, aprender a reconhecer uma planta que poderia ser fonte de alimento de outras sem valor nutritivo ou, até mesmo venenosas.

Thiago: Por outro lado, a gente sabe que existe uma forte influência cultural sobre o nível de percepção que as pessoas têm sobre as plantas. 

Matheus: Acredito que a cultura tem um papel muito forte. Então, se você comparar numa cidade como São Paulo, o estudo que eu fiz com os umbandistas. A Umbanda é uma religião da cidade. Ela nasceu na cidade e, ela existe na cidade, e a cidade é um lugar que não tem vegetação. Mas, as pessoas conhecem muito de plantas. Você leva elas para um lugar com mata, as pessoas conseguem identificar bem os elementos. Elas conseguem saber que uma palmeira é diferente da outra. Que essa árvore, ela é diferente da outra. Que essa erva é uma coisa, que a outra é outra. Diferentemente de uma pessoa, por exemplo, que pratica outra religião que não é tão ligada aos elementos vegetais.

Mayra: Essa discussão apresenta um terreno muito fértil. Por um lado, os estudos pioneiros sugerem que a causa da cegueira botânica está relacionada com nossa história evolutiva e, com o conjunto de ferramentas biológicas que organizam nosso corpo. Ou seja, faz parte do que somos enquanto espécie humana ter essa visão limitada das plantas. 

Thiago: No entanto, não podemos desconsiderar que essa percepção possa ser também determinada culturalmente. Mesmo os estudos clássicos sobre o assunto não deixam de reconhecer a importância dos aspectos culturais, já que observamos diferentes padrões dependendo das vivências de cada pessoa. É provável que seja uma soma de diversos fatores pois, um fenômeno tão amplo assim, dificilmente tem sua explicação em uma única causa. 

Mayra: Verdade seja dita, que esse é um tema relativamente novo no mundo científico. Os debates ainda estão acontecendo e outras abordagens ainda estão sendo desenvolvidas para tentar solucionar algumas das lacunas desses estudos. 

Thiago: Inclusive, o próprio significado da expressão “Cegueira Botânica” tem sido questionado pois, esta, pode ser considerada como um termo capacitista. 

Matheus: Primeiro, que ser cego não é algo que tem que ser encarado como uma coisa pejorativa, certo? Segundo, que não é que as pessoas são cegas, não vêem. Elas vêem. Só que elas não dão a devida individualização das plantas como elas fazem para os animais.

Matheus: Não estou falando também que, a gente tem que saber tudo, de todas as coisas, mas, eu acho que a gente tem que estar, pelo menos, aberto a olhar. Assim, falar “Nossa! Que será que é isso?” Pelo menos, ter essa curiosidade que a gente tem com os animais. Com os animais, a história é outra. Assim, a gente entra num nível de querer saber, que é muito além e, que a gente poderia ter para as plantas também.

Mayra: Aproveitando essa fala do Matheus, nós gostaríamos de dedicar esse episódio a todas as biólogas e biólogos que no dia 3 de setembro celebram essa profissão que trabalha em benefício da vida em todas as suas formas e que costumam ser despertadas e despertados para a Biologia justamente por essa curiosidade da qual o Matheus fala. Bom, nós vamos encerrando o programa e, se você, assim como a gente, também se interessou pelo tema, fica aqui um convite do Domingos.

Domingos: Os ouvintes do programa estão todos convidados a vir conhecer o jardim botânico e tomar um cafézinho.

Thiago: Esse episódio foi escrito e apresentado por mim Thiago Ribeiro e por Mayra Trinca. A revisão do roteiro foi feita pela coordenadora do Oxigênio, a Simone Pallone, do Labjor/Unicamp. Os trabalhos técnicos são do Gustavo Campos e do Octávio Augusto Fonseca, da rádio Unicamp. A narração do passeio no Jardim Botânico foi de Camille Brôpp. E a ilustração da capa é de Matheus Vareja  (@matheus_vareja).

A trilha sonora é do Freesound e da Biblioteca de Áudio do Youtube.

Mayra: O nosso entrevistado, Domingos Savio Rodrigues, comentou sobre Serviços Ambientais e esse foi o tema do Episódio número 60 do Oxigênio. Se quiser saber mais sobre o que é isso, escute nosso episódio 60 http://oxigenio.comciencia.br/60-tematico-servicos-ecossistemicos/.

Thiago: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento), no Instagram e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

Mayra: Você pode deixar a sua opinião sobre este programa comentando na plataforma de streaming que utiliza. Obrigado por ouvir e até o próximo episódio!

 

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