Divulgação da matemática será destaque no biênio 2017-2018

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A matemática tende a não ser bem vista pela população em geral. São comuns expressões e comentários de rejeição ao assunto. Complexidade, abstração e dificuldade são alguns dos termos que acompanham a matemática há muito tempo. É possível transformar esse cenário? Como? Essa tem sido uma das preocupações da divulgação científica, da pesquisa e do ensino da matemática.

A impopularidade da matemática na sociedade não é um fenômeno recente. Estudos apontam que muito desse desinteresse é decorrente da difícil relação da população com a disciplina escolar, em especial por conta dos baixos desempenhos em exames escolares, que acarretam sentimentos de fracasso e perda de autoestima pelos alunos.

No relatório recente do Programa Internacional de Avaliação de Alunos – o PISA de 2015 –, o Brasil está na posição 66* nos indicadores de letramento em matemática, em uma lista de 72 países e economias participantes. Essa análise da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico,  a OCDE,  corresponde à “capacidade do indivíduo de formular, aplicar e interpretar a matemática em diferentes contextos […] Além disso, o letramento em matemática ajuda os indivíduos a reconhecer  a importância da matemática no mundo, e agir de maneira consciente ao ponderar e tomar decisões necessárias a todos os cidadãos construtivos, engajados e reflexivos.” Há estudos, entretanto, que questionam o papel do PISA pela sua abrangência e por comparar países de economias tão distintas.

Esse suposto distanciamento entre a matemática e a sociedade é reforçado pelos grandes meios, como os jornais diários. Na mídia, os temas sobre a área são menos frequentes, muitas vezes por opção dos editores. Aparentemente, os assuntos não despertariam interesse do público porque não apresentam utilidades imediatas, como os ligados à saúde, à medicina. Especialistas em jornalismo científico veem essa postura como um equívoco. Somos seres matemáticos e ela está em todas as culturas, pois processos de organização, de classificação, de contagem, de medição, de inferência, tudo isso é matemática.

As colunas sobre Ciência nos jornais de grande circulação são o retrato desse cenário, aponta Deborah Raphael, professora do Instituto de Matemática e Estatística e uma das idealizadoras do Centro de Difusão e Ensino Matemateca, ambos da USP. A Matemateca, como é mais conhecida, foi criada em 2003 e produz objetos interativos que tratam de conceitos clássicos, modernos e de pesquisas atuais na área.

Deborah Raphael: “A divulgação de matemática no Brasil ainda é bastante incipiente, tem muito pouca coisa desenvolvida nessa área. Inclusive, se a gente pensar dentro da divulgação científica em geral, a parte que a matemática ocupa é pequena, quando não é inexistente.

É um campo a ser desbravado. Então vamos olhar isso pelo lado bom. Tem muita coisa pra ser feita e tem muitos caminhos a serem seguidos. O povo que se interessar por isso agora é que vai dar o tom da divulgação de matemática no Brasil. A gente poderia ser bastante original, criar coisas diferentes. O Brasil é um país muito grande, com muita diversidade. Então, ele traz muita riqueza para o assunto por causa dessa abrangência que a gente teria que ter, dá para fazer divulgação de matemática de formas muito diferentes e usando instrumentos muito diferentes e para públicos muito diferentes.”

Marcelo Viana, diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o IMPA, comenta que a divulgação científica é interdisciplinar, com a participação de diferentes profissionais que não seja somente o cientista. O ato de divulgar não se resume ao conteúdo porque há outras questões envolvidas, como as próprias estratégias de comunicação.

Marcelo Viana: “Eu participei da Assembleia da Associação Brasileira de Museus de Ciência e me parece que, em termos de divulgação científica, o Brasil tem esforços muito meritórios. Mas que a Matemática está sub-representada nesses esforços e está sub-representada também porque nós não temos – temos muito pouco – pessoas que estejam vocacionadas, treinadas, preparadas, direcionadas, para fazer divulgação da matemática.

É um segmento no qual o país está… Precisa trabalhar, precisa produzir, porque só os matemáticos, sozinhos… Nós não somos sequer treinados para isso, para fazer esse trabalho. E tem, como eu já disse várias componentes no trabalho da popularização que vão muito além de você saber o conteúdo.”

Nos próximos dois anos, o Brasil terá como foco essa ciência tão temida. O país será o palco do Biênio da Matemática, sob a organização do IMPA, com diversas atividades de divulgação. Além disso, os dois eventos mais importantes na área vão acontecer no Rio de Janeiro: a Olimpíada Internacional de Matemática e o Congresso Internacional de Matemáticos, pela primeira vez trazidos para o Hemisfério Sul.

A proposta é que seja um período para colocar em evidência no país a matemática e as dificuldades para divulgar o tema. Será também um momento para destacar as pesquisas desenvolvidas pelos cientistas brasileiros, que são referência no mundo. No último Congresso Internacional de Matemática, em 2014, Artur Ávila foi o primeiro brasileiro a receber a Medalha Fields, considerada o “Nobel” da matemática. Outro brasileiro, Marcelo Viana recebeu o renomado prêmio científico francês Louis D., dado pela primeira vez à matemática e a um brasileiro.

Marcelo Viana: “Nós nos candidatamos para organizar dois eventos. Foram iniciativas mais ou menos separadas, embora as duas envolvam o IMPA. Primeiro foi o Congresso Internacional de Matemáticos, o ICM 2018, que é um evento muito tradicional, vem sendo organizado desde o século XIX e nunca aconteceu no Hemisfério Sul. Então a gente decidiu apresentar uma candidatura para trazê-lo para o Brasil. Funciona como Copa do Mundo, Olimpíadas, se faz com antecedência, submete ao organismo internacional encarregado, que no caso é a União Matemática Internacional, é avaliada a proposta, viabilidade, todos os tipos de questões, desde o apoio das autoridades, o plano financeiro, etc.

A Olimpíada foi um processo parecido com outro organismo, que se chama Internacional Matematical Olympic (IMO), mas também foi uma candidatura que a gente apresentou e venceu entre outros países. Nunca aconteceu no Brasil antes.”

O Biênio leva o nome do matemático e político maranhense Joaquim Gomes de Souza (1829-64), pioneiro nos estudos da matemática no Brasil. Carlos Nascimento, em sua dissertação pelo Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica, da Unicamp, resgata a vida e obra de Gomes de Souza e pontua a importância dos estudos desenvolvidos, em uma época que a educação não era prioridade na província. Em 1850, Gomes de Souza publicava artigos na revista carioca de grande circulação, Guanabara. Foi a Lei 13.358/16 de 8 de novembro de 2016 que instituiu os anos 2017-2018 como o Biênio da Matemática, homenageando Gomes de Souza.

Marcelo Viana – “Fiz a observação que, entre os dois eventos, entre julho de 2017 (que é quando será a Olimpíadas) e agosto e 2018 (o Congresso), há um ano. Eu pensei em utilizarmos essa circunstância para termos uma dimensão de divulgação da ciência, de popularização também. Por quê? Porque está no nosso objetivo desde o início. Você faz um evento desses, dessa envergadura e com esse trabalho e tem esse custo, para ter algum proveito para o país.

A proposta era de que o Congresso proclamasse o período entre os dois eventos como o Ano da Matemática no Brasil. E eles gostaram tanto da ideia que, no lugar de ser um ano, propuseram que fossem dois, para cobrir o anos 2017 e 2018 completos. É claro que nós aceitamos, mas também aumentou nosso trabalho. Significa que a gente tem dois anos durante os quais devemos construir uma agenda de eventos, de iniciativas. Além dos dois grandes eventos internacionais que provocaram isso tudo, a gente tem que construir uma programação.”

O Biênio tem início com o 1º Festival da Matemática, a ser realizado entre os dias 27 e 30 de abril no Rio de Janeiro. Destinado à divulgação para o público em geral, o Festival será composto também de propostas previamente inscritas no site[4] do evento.

Marcelo Viana: “O Impa é o Instituto Nacional de Matemática no Brasil. Ele tem uma missão. É isso que a gente faz: é promover o desenvolvimento da Matemática em todos os aspectos, desde a pesquisa, o treinamento de mestres e doutores, até… A nossa missão inclui uma terceira vertente, que é a disseminação do conhecimento. E essa terceira vertente a gente vem ampliando muito. Começou com a publicação de livros; agora temos produção de materiais didáticos para a Educação Básica, temos a Olimpíada de Matemática, temos o treinamento de professores.

O Biênio não se limita à capital carioca, vai abranger todo o país. O objetivo é que ações de divulgação sejam realizadas em outras cidades e estados. A proposta do Biênio é também ser um espaço aberto para que a comunidade proponha ações. Para Deborah Raphael é uma carta-branca inclusive para profissionais que não sejam matemáticos, mas que atuem nas áreas de educação, de divulgação e afins.

Deborah Raphael: “Seja você um professor de Matemática de qualquer nível, um educador do Ensino Básico. Pode ser um divulgador de ciências em geral, de matemática, em particular. Enfim, pesquisador também. Seja qual for a sua ligação ou seu interesse com a matemática, propor atividades nessa hora é importante e bacana. Então vamos tentar fazer isso.

Deborah Raphael também comentou conosco um pouco dos projetos em desenvolvimento em São Paulo.

Deborah Raphael: “A Matemateca, em particular, que é o projeto no qual eu trabalho, está pensando em fazer algumas atividades. A gente tem uma exposição que fica guardada porque não tem um espaço disponível para ser exposta na USP. Então, sempre a primeira coisa que a gente pensa é: “Bom, levar a exposição para algum lugar; vamos montar a exposição”. Essa já é uma possibilidade. Agora, mas que isso, a gente está no início de uma parceria com o Centro de Pesquisa em Matemática Aplicada à Indústria, é CEPID em São Carlos, que se chama CeMEAI. E com eles a gente está pensando em fazer uma parceria para promover um campeonato de jogos matemáticos bastante inspirado num campeonato que existe em Portugal e que lá já está bastante estabelecido, acontece todos os anos e movimenta muita gente.”

A importância de divulgar a matemática não é uma necessidade do século XXI. Ainda no século XVI, o matemático inglês Robert Recorde (c. 1510-1557) escreveu em inglês livros sobre assuntos matemáticos, um feito pioneiro. Até então livros da área eram escritos em grego ou latim. Os gabinetes de curiosidades dos séculos XVI e XVII também são outro exemplo. Esses espaços agrupavam objetos das mais diversas ordens, alguns com cunho matemático. Nesse período, áreas como astronomia, ciências da navegação, cartografia, artilharia e outras. estavam aglutinadas em uma “matemática pura ou mista”. Já no século XX, há a famosa exposição do casal de arquitetos Eames, “Matemática: um mundo dos números… e além”, montada pela primeira vez em 1961, no então Museu de Ciência e Indústria, na Califórnia. Hoje, há duas montagens diferentes da exposição: uma no Museu de Ciências de Boston, e outra no New York Hall of Science, em Nova York.

Como disseram Deborah e Marcelo, pesquisas e ações sobre a divulgação matemática ainda são escassas. É preciso debater o assunto, principalmente colocando a sociedade como atuante, engajada, detentora de conhecimentos, e não como uma tábula-rasa que precisa adquirir conhecimentos sobre uma dita ciência tão complexa. Tratar a matemática como algo difícil de ser compreendido pode reforçar o distanciamento e a rejeição da sociedade.

*Errata: havíamos informado que o Brasil estava na posição número 63 no PISA, mas a colocação correta é 66ª. Atualização em 28/01/2017.

Reportagem de Carol Gama.

Links relacionados

Governo sanciona lei que institui o Biênio da Matemática no Brasil

Seminário Biênio da Matemática 2017-2018

Festival da Matemática

Matemateca

CeMEAI

Revista Piauí – Edição Especial – Artur tem uma medalha

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