Dados abertos e a ameaça a espécies em extinção

A transparência tem sido a palavra de ordem nas ciências, sobretudo como forma de evitar fraudes e outras más condutas. Mas ela pode estar colocando espécies raras em perigo ainda maior.

Os pesquisadores da Australian National University, David Lindenmayer e Ben Scheele, publicaram na edição de 26 de maio da revista Science um apelo que à primeira vista parece inusitado.

“Não publiquem” é o título do ensaio em inglês. Isso, claro, seria contrário ao grande motor do trabalho acadêmico: a publicação dos achados nas revistas da área. Mas a publicação de dados sobre o tamanho populacional de uma espécie pode indicar sua raridade. E raridade literalmente tem um preço no mercado negro do tráfico de animais e plantas. E, mais do que isso, a publicação de dados de geolocalização de populações têm sido usada por caçadores e coletores ilegais para obter seus prêmios, como no caso de uma espécie de lagarto monitor de Bornéu, descrito em 2012.

A situação fica ainda mais drástica com a publicação dos dados em revistas de acesso aberto, ainda que o paywall tampouco impeça que os malfeitores obtenham a informação.

Dependendo do grau de capacidade de proteção ao meio ambiente que as autoridades locais podem oferecer, como tamanho do efetivo de fiscais e policiais, seu treinamento, equipamentos e confiabilidade, o máximo de informação sobre a localização de uma espécie ameaçada que se pode dar é em que país ele ocorre. E isso se não for um país muito pequeno.

Os autores listam ações a serem tomadas em relação à divulgação de dados de acordo com o grau de vulnerabilidade da espécie. Se o risco de extinção for baixo, a informação sobre comportamentos, hábitats e localização não necessita de nenhuma restrição. Para espécies com risco moderado, as informações devem ser liberadas apenas para pessoas autorizadas. No caso de risco alto, apenas agências regulatórias devem ser notificadas.

Mas os pesquisadores notam também os reveses dessas ações. Quanto mais restrita a circulação de informação, menor a colaboração científica possível. Observadores amadores são importantíssimos para o monitoramento de muitas espécies, por exemplo.

Com menos colaborações, menos avanços científicos podem ser obtidos, inclusive de descobertas que poderiam ajudar na conservação das espécies que se pretende proteger.

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Matéria de Roberto Takata, locução de Simone Pallone.

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