#93 Série Corpo, episódio 4 – Outra quadra

Daniel é um professor de inglês e atleta de esgrima em cadeira de rodas. Maria Luiza Tanure Alves é professora da Faculdade de Educação Física da Unicamp e estuda formas de ensinar o esporte paralímpico na escola para promover a inclusão. Em “Outra quadra”, contamos as histórias dos dois e falamos de suas memórias com as aulas de Educação Física. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp).

SAMUEL RIBEIRO

Oi. Este é o quarto episódio do Corpo, podcast que fala de pessoas e de movimento e é produzido aqui na Unicamp. Eu sou Samuel Ribeiro, e hoje… a gente começa com a história do Daniel.

SAMUEL

Parte 1: o esgrimista em quarentena.

SAMUEL

E pra você assim, que fazia tanta coisa, e tinha uma rotina de treino, de sair, de dirigir, de ir pra Unicamp, como que tá sendo agora esse período do isolamento?

DANIEL TIBIRIÇÁ

Ah tá sendo um baque, cara, tá sendo um baque. Eu tô fazendo o possível pra não me perder de… o foco né, o momentum.

SAMUEL

Esse é o Dani, um amigo meu. A gente trabalhou junto em 2012 numa empresa de tecnologia aqui da região de Campinas.

DANIEL

Bom meu nome é Daniel Tibiriçá. Eu sou atleta de esporte paralímpico…

SAMUEL

Além de atleta ele é professor de inglês e assim como eu tá trabalhando de casa agora durante a pandemia.

DANIEL

Eu pratico esgrima em cadeira de rodas principalmente, mas eu também já me envolvi com o basquete em cadeira de rodas, parabadminton e também tô trabalhando com o Wushu adaptado.

SAMUEL

A locomoção do Dani é prejudicada desde que ele era pequeno, porque ele nasceu com uma malformação na coluna chamada lipomielomeningocele.


DANIEL

Eu andava mas eu… eu… eu cambaleava, eu jogava as pernas pro lado pra fazer a marcha, né. Então precisei fazer fisioterapia né, pra que não acontecesse nenhum tipo de desvio no desenvolvimento da minha marcha, né. Então eu fazia fisioterapia, eu intermitentemente eu usava órteses, né, quando eu era criança, eu usava órteses durante o período, depois eu não precisava mais. Depois piorava a minha marcha eu tinha que voltar a usar órteses.

SAMUEL

Na adolescência ele treinava Wushu, que a gente também chama de kung fu, só que conforme ele foi crescendo o problema na locomoção foi piorando. Primeiro ele passou a usar bengala, e aí ele pensou…

DANIEL

… bom o Wushu já acabou, não tem o que fazer.

SAMUEL

Depois foi pra cadeira de rodas, e isso foi mais ou menos na época da Copa.

DANIEL

… a Copa do Mundo de 2014 fez eu começar a pensar no esporte novamente e aí 2016 estava vindo né, tava no horizonte, e aí eu comecei a contemplar o esporte paralímpico né, porque Olimpíada também, fiquei sabendo da Paralimpíada, e aí comecei a pensar no esporte paralímpico.

SAMUEL

Bom, e o primeiro passo pra pensar em praticar um esporte era trocar a cadeira de rodas…

DANIEL

… porque assim, a cadeira que eu tinha antes era um trambolhão né. Não era uma cadeira muito dinâmica. Aí essa cadeira nova que eu fui comprar era uma cadeira um pouco menor, um pouco mais leve, um pouco mais ágil. Aí normalmente o que acontece? Quando as pessoas sentam, mudam de uma cadeira grandona trambolho pra uma cadeira pequena e mais leve, ela tem um pouco de dificuldade, ela se sente meio assim sem muito equilíbrio. É um pouco estranho, as pessoas costumam estranhar. Só que eu sentei e eu não tive nenhum problema. Eu comecei a dar volta pela loja, a loja tinha os corredores lá, eu comecei a fazer ziguezague em volta da loja o cara falou tipo assim “oh, você leva jeito para jogar basquete, você já pensou em jogar basquete?”.

SAMUEL

Aí o Dani falou…

DANIEL

… “olha eu estava pensando justamente em fazer algum esporte paralímpico mas eu não fazia, eu não faço a menor ideia onde procurar”. Aí ele falou que eles tinham contato e aí foi assim que eu comecei.

SAMUEL

Então ele treinou basquete por um tempo e depois foi se envolvendo com outras atividades. A uns anos atrás ele conheceu um projeto de esgrima paralímpica desenvolvido na Faculdade de Educação Física da Unicamp. Aí ele apareceu lá, fez uma aula experimental…

DANIEL

E foi bem natural depois disso, eles perceberam que eu levava jeito, porque era uma coisa que eu sempre gostava, né, tipo assim…

SAMUEL

O Dani entrou de cabeça na esgrima e desde então tem se dedicado a treinar e participar de campeonatos com a equipe da Unicamp.

DANIEL

… desde criança meu brinquedo favorito era espada, né, então [RISOS]…

SAMUEL

E é curioso pensar que só depois de adulto que ele foi ter contato com um esporte especificamente voltado para pessoas com deficiência. Na época da Educação Física na escola ele não teve esse tipo de conteúdo e participava do jeito que dava. A lógica do Dani era assim:

DANIEL

Tá, onde que eu posso me inserir melhor né? Era um raciocínio que eu mesmo fazia. Onde que eu posso contribuir melhor? Eu tentei várias vezes jogar no ataque e eu percebi que eu não conseguia né, porque eu não conseguia dominar a bola, eu não tinha o controle das pernas suficiente pra dominar a bola, fazer os dribles, fazer tudo que a molecada fazia, então eu falei “meu, o que eu consigo fazer é tipo assim, dar carrinho” [RISOS]. Eu conseguia dar carrinho na bola, então eu jogava ou na zaga ou no gol.

SAMUEL

Então ele mesmo bolava estratégias pra participar dos jogos com os colegas.

DANIEL

… no geral eu sempre fiz um esforço pra não ser diferente, né, eu não queria… eu não queria passar por essa situação de tipo assim “ah o professor tem que fazer alguma coisa especialzinha só pra mim”. Eu tentava me inserir. E tipo assim, era uma coisa que agora eu considero tipo assim, mentalidade da época. Eu não queria lidar com o fato da minha deficiência, ou queria lidar com ela da forma que fosse menos, assim, que tratasse de uma forma menos explícita.

DANIEL

… eu falei com alguns amigos meus do basquete, né, e tipo assim, uma menina por exemplo falou pra mim que ela… ela não fazia, né… ela ficava lendo durante a aula de Educação Física né. Então eu fico imaginando que talvez, se eu tivesse numa realidade onde eu tava na cadeira de rodas e não tivesse toda uma estrutura pra inserir o meu quadro na atividade esportiva, provavelmente eu teria feito a mesma coisa. Teria acabado lendo sozinho, né, ou buscado fazer qualquer outra coisa durante a aula de Educação Física.

SAMUEL

Parte 2: a professora de Educação Física que não gostava de Educação Física.

SAMUEL

Que tipo de aluna que você era nas aulas?

MARIA LUIZA TANURE ALVES (MALU)

Péssima! Eu não gostava de fazer Educação Física! É… a Educação Física pra mim ela nunca foi atrativa, a Educação Física da escola. Hoje eu consigo entender porque que ela era daquele jeito, e porque que eu tinha o meu comportamento daquele jeito, mas eu raramente participava… conseguia participar da aula de Educação Física…

SAMUEL

Essa é a Malu.

MALU

E eu vim pra Unicamp fazer faculdade de Educação Física, minha família tomou um choque, assim, como? Se a pessoa nunca gostou de esporte, nunca praticou nada, ela vai fazer Educação Física? Justo isso, né? Não tinha nada? Enfim.

SAMUEL

Depois que eu conversei com o Dani eu quis conversar com ela, porque ela entende tudo sobre inclusão.

MALU

… meu nome é Maria Luiza Tanure Alves, né, vamo… acho que é melhor… cê quer o nome todo, desculpa, já comecei fazendo tudo errado! Cê quer o nome todo? É que todo mundo só fala Malu, né, então fica difícil.

SAMUEL

… a Malu é aqui da Faculdade de Educação Física da Unicamp. Ela é do Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada e pesquisa o tema da Educação Física para crianças e jovens com deficiência.

SAMUEL

Antes de fazer pesquisa ela deu aula de Educação Física na rede estadual, na periferia de Campinas. Ela já tinha estudado um pouco a questão da deficiência na Educação Física durante a graduação, mas…

MALU

… quando eu cheguei na escola, eu vi a realidade desse aluno com deficiência, que ele chegou pra mim. E até o momento que ele chegou pra mim ele não participava da aula de Educação Física, ele ficava sentado num canto. E essa é a história mais comum que a gente encontra: o aluno com deficiência na aula de Educação Física ele fica sentado num canto, e ele já se acostumou a ficar sentado ali. Ele já se acostumou, ele admite que o problema dele não participar na aula de Educação Física é dele.

SAMUEL

E pra entender melhor esse contexto do aluno sentado num canto, a Malu foi fazer pesquisa. Ela começou estudando as relações sociais dos alunos com deficiência na escola, e logo depois, no doutorado…

MALU

… eu já parti pra um outro viés, assim, porque as pesquisas na área de inclusão elas sempre procuram saber opinião do professor, opinião do diretor, opinião dos pais, mas dificilmente elas pegam opinião da criança, do jovem, ou do atleta com deficiência.

MALU

E aí foi um desafio muito grande, porque eu comecei a perceber que é muito difícil criança com deficiência verbalizar. Você pegando agora um atleta, que já tem memórias, que já tá incluído num contexto esportivo, que já é valorizado… é muito diferente quando você pega uma criança que tá marginalizada todo dia. Ela não se sente no direito de falar, ela tem uma dificuldade muito grande de se expressar, em colocar.

SAMUEL

O que ela percebeu ali foi um cenário de exclusão. A escola não tinha estrutura adequada, os professores relatavam não saber o que fazer com aqueles alunos…

MALU

E aí vieram relatos muito fortes, assim, de… do aluno com deficiência falando assim, de criança falando, é… mesmo no frio eu fico lá sentado esperando a aula acabar e vendo meus colegas jogarem. Então assim, cê começa a ver uma realidade que cê não fazia ideia, né, de que você… uma coisa que cê não tinha pensando. A pessoa tá ali, jogada, sentada no canto.

MALU

Parece que é um ser invisível ali, né, que tá só colocado ali pra… pra entender esses pré-requisitos de estar incluído, mas a inclusão realmente ainda não chegou dentro da escola. As pessoas ainda não entendem muito o que que é inclusão.

SAMUEL

A Malu depois que entrou como professora na Unicamp fez uma pesquisa na qual acompanhou alunos com deficiência e professoras nas aulas de Educação Física durante um ano. E um dos dados que ela obteve foi que alguns professores ainda tinham uma ideia de inclusão que era desatualizada, lá dos anos 90, então no final do processo a coisa não funcionava tão bem e os alunos ainda relatavam não conseguir participar da aula.

MALU

Falar de uma forma muito simples, é isso que eles entendem: que se o aluno com deficiência não tiver fazendo a mesma coisa que os outros alunos na aula de Educação Física, ele não tá incluído. Só que não. Esse pensamento já evoluiu! Isso era o início do processo, quando começaram a pensar em inclusão, foi dessa forma que ela foi entregue.

MALU

E aí foram escutar as crianças, os alunos, os jovens com deficiência, e eles falaram “não, não tô me sentindo incluído”. Aí os estudos começaram a falar “mas pera aí, se você não tá se sentindo incluído, você não tá incluído”. Né, não adianta a gente ficar dando murro em ponta de faca.

SAMUEL

Sabe aquele brinquedo de criança, das formas e dos buracos? É como se o professor estivesse tentando fazer um quadrado passar no triângulo, ou vice-versa. Ele não tá entendendo que as peças são diferentes. Então a ideia de inclusão que os estudos propõem hoje já não é mais essa de todo mundo fazendo a mesma coisa.

MALU

Hoje a gente tá mais pautado no conceito de equidade. E o que que é equidade? São oportunidades diferenciadas de acordo com a necessidade de cada um.

MALU

Então ao mesmo tempo que eu tenho alunos que devam aprender o futebol, o basquete, o vôlei e tantas outras modalidades esportivas, eu também tenho o aluno com deficiência que deve aprender sobre esporte paralímpico. A aula de Educação Física é o local onde essa criança vai aprender de forma sistematizada sobre o que que é o esporte, então não é certo e não é justo uma criança passar por um processo de escolarização aí de vários anos sem saber quais são os esportes que ela pode praticar fora da escola.

SAMUEL

E aí a gente entra num ponto chave da pesquisa atual da Malu: a questão da inclusão acaba sendo também um problema de currículo. As modalidades paralímpicas não aparecem nas aulas de Educação Física.


MALU

Então a gente tem lá todo um rol de conteúdos que tá lá no nosso PCN, tá lá no nosso currículo, baseado nas manifestações da cultura corporal. Só que de que corpo é esse que a gente tá falando? Manifestação de que corpo? Obviamente, pelo que você coloca de currículo, a gente tem um corpo hábil, um corpo capaz, um corpo forte. Quem não atende essas demandas, essa visão de corpo, não atende o que se espera na aula de Educação Física e não é valorizado. Como é que você coloca um aluno com deficiência, que não tem esse corpo desejado, pra atender esse currículo? Então mais uma vez entra o nosso questionamento de por que que o esporte paralímpico ainda não está no currículo escolar de uma forma pedagógica, como estão as outras modalidades, entendeu?

SAMUEL

As vezes o esporte paralímpico até aparece em alguns currículos…

MALU

Mas ele aparece só na parte de uma vivência. Então o professor vai lá e faz um joguinho pra esse aluno e esse aluno vivencia um joguinho só, uma modalidade só, um goalball, um vôlei sentado e acabou.

SAMUEL

Pra comparar, é só pensar quantas vezes você jogou futebol durante a sua Educação Física. Ou basquete, ou handebol, ou alguma dessas modalidades convencionais que a gente tá mais acostumado. Eu mesmo só fui saber da existência de esporte paralímpico depois de adulto…

MALU

Então a gente não tem modalidades que possam ser praticadas pelo aluno com deficiência no currículo. E de uma forma que consiga aprender o esporte, não só vivenciar o esporte, que ele possa se interessar e falar “nossa, esse é um esporte que eu posso praticar fora da escola”.

SAMUEL

Com base nisso, a ideia da Malu nessa pesquisa que ela tá começando é fazer intervenções em escolas pra capacitar professores a trabalhar o conteúdo do esporte paralímpico, pra depois observar os efeitos disso junto aos alunos, com deficiência e sem deficiência.

SAMUEL

Por enquanto a pesquisa tá parada por conta da pandemia, mas ela me contou um pouco do que rolou no estudo piloto do projeto que foi feito numa escola ano passado, com uma turma de ensino médio.

MALU

E tinha um menino cadeirante. E foi super legal, porque quando a gente começou, a professora falou assim “as meninas não fazem aula, cê pode esquecer, porque elas ficam se maquiando, elas ficam mexendo no celular, mas elas não fazem a aula”. Além do menino com deficiência física, né, então a gente tinha dois grupos ali que não participavam da aula de Educação Física. E aí quando eu montei as aulas, todas fizeram. Não teve um aluno que não participou. Então tinha aluno obeso, que tinha uma dificuldade de correr, né, tinha um aluno com deficiência física, e tinha as meninas, que tinham outras coisas na cabeça, elas tavam preocupadas com outras coisas. E todos conseguiram participar, e eu trabalhei esporte. Eu não trabalhei pega pega, brincadeirinha… eu trabalhei o esporte, só que de outra forma, entendeu? Com jogos, com brincadeiras, de formas que eles não tavam se sentindo cobrados em desempenhar aquele papel do corpo ideal. Foi bem legal, sabe? Eu fiquei bem feliz com essa coleta.

SAMUEL

Pra mim, pensando agora, a trajetória da Malu faz todo o sentido, porque eu também não gostava de Educação Física e encafifei de me formar na área. É como se fosse um reencontro da gente com a gente mesmo.

MALU

Então… eu acho que eu faço hoje a Educação Física que eu queria ter recebido na escola, isso… eu tenho essa consciência, assim, porque eu conseguiria fazer a aula de Educação Física que eu proponho.

SAMUEL

O episódio fica por aqui. O Corpo é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é feito na Faculdade de Educação Física e tem financiamento da FAPESP.

SAMUEL

A idealização, produção, entrevistas, roteiro e edição desse programa foram feitas por mim, Samuel Ribeiro. O projeto é coordenado pelo professor Bruno Rodrigues da FEF e supervisionado pela Marina Gomes do Labjor. Quem coordena o Oxigênio é a professora Simone Palone, também do Labjor.

SAMUEL

E se você gostou do episódio, dá um alô pra gente nas redes sociais. A gente tá no Facebook, Instagram e Twitter, é só procurar por Corpo Podcast.

SAMUEL

Um agradecimento especial para os professores de Educação Física que me mandaram relatos e perguntas sobre inclusão e me ajudaram a pensar o tema. Muito obrigado à Bruna, ao Bruno, ao Gustavo, à Marina e à Nara! Até a próxima.

Músicas

Are We Lost Yet” by Bodytonics.

Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

Our Quiet Company” by Marisala.

Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *