#88 Série Corpo, episódio 2 – Gente forte

“Gente forte” é o segundo episódio da série Corpo. Traz histórias de pessoas que queriam ser fortes, que treinaram pra isso, e/ou estudam o tema. Os entrevistados foram a halterofilista paralímpica Maraísa Proença, apelidada de“Boneca de Ferro”, e os professores Marco Carlos Uchida e Renato Barroso, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, e que entendem tudo de movimento e força.

A série Corpo é produzida pelo Samuel Ribeiro, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que fala de pessoas, de movimento e de pesquisa e de Educação Física. É financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelos professores Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp) e Marina Gomes, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp. 

Um lembrete: o Oxigênio está fazendo uma pesquisa de público! Não esqueça de responder. A equipe toda agradece. É só clicar aqui.

Segue a transcrição completa do programa.

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Samuel: No ano passado eu decidi que ia praticar Powerlifting, que é um esporte de levantamento de peso, e esse som que você tá ouvindo é lá das aulas que são oferecidas na minha faculdade. Mas calma, deixa eu explicar melhor…

Samuel: Eu não sou um cara forte, mas eu sou fascinado pela força. 

Samuel: Uma coisa que me marcou quando eu era criança eram as histórias que meu avô Mário contava. O Mário era alto e tinha um bigodão, tinha sido caminhoneiro a vida inteira e se gabava de ser um homem muito forte. Ele contava que arremessava sacos de batata pra cima do caminhão usando uma mão só. Que quando era mais novo levantava o carro do amigo e mudava a posição que tava estacionado, só de sacanagem. E que tinha pescado um peixe de mais de 100 quilos e tirado da água sozinho.

Samuel: Eu não sei até onde essas histórias são verdade, porque além de caminhoneiro meu avô também era pescador. Mas a presença daquele homem forte ficou gravada na minha imaginação. E é por isso…

Samuel: … que eu precisava falar desse assunto.

Samuel: Eu sou o Samuel Ribeiro, e este é o Corpo, podcast da Unicamp que fala de pessoas e de movimento. E neste episódio a gente vai falar de força, de músculos e dos pesos que a gente é capaz de levantar.

Samuel: E já que eu tava falando da minha infância… 

Samuel: … eu quis começar perguntando pra Maria Fernanda, minha sobrinha, que não chegou a conhecer o bisavô Mário, se ela conhecia alguém que fosse muito forte.

Maria Fernanda: Ninguém que eu saiba.

Samuel: … e depois de alguma insistência…

Maria Fernanda: A Capitã Marvel, porque ela consegue voar e ela tem bastante força. Ela tem bastante força, acho que ela consegue levantar 100 kg ou mais e ela consegue tirar do chão uma barra bem pesada.

Samuel: Então eu segui a dica da minha sobrinha e fui procurar alguém que conseguisse levantar uma barra bem pesada.

Maraísa Proença: É, na verdade eu fazia academia, mas nada pensando no esporte. Na verdade eu nem conhecia o…

Samuel: Essa é a Maraísa Proença.

Maraísa: … Powerlifting né, paralímpico, nem nada. Eu treinava normal, pra não ficar sedentária.

Samuel: Ela é atleta de Parapowerlifting, ou halterofilismo paralímpico.

Maraísa: … vai fazer 5 anos que eu tô no esporte. Assim, nunca me imaginei uma atleta mas, depois que eu conheci o esporte me apaixonei e não parei mais.

Samuel: A Maraísa nasceu com uma malformação e usa prótese de perna desde pequena. Ela começou a se envolver com o esporte praticando o Powerlifting convencional. Depois ela passou para a modalidade paralímpica, e os resultados que ela tem alcançado renderam até um apelido pra ela…

Maraísa: … Boneca de Ferro [risos]… uma vez eu tava em um evento e aí veio um pessoal pra fazer entrevista também, e aí a repórter acabou mencionando depois alguma coisa de boneca de ferro e eu acabei adotando né, gostei, achei até uma música depois, que é o nome de Boneca de Ferro, uma letra bem legal, e aí acabei adotando [risos].

Samuel: Pra quem não conhece, o halterofilismo paralímpico tem só a prova do supino, que é aquele exercício que a gente faz deitado no banco da academia. Só que no caso das competições que a Maraísa participa, tem muito mais peso. E tem muito mais regra.

Maraísa: … a gente saca a barra, aí tem que esperar o comando do árbitro pra poder descer, aí você tem que encostar a barra no peito sem quicar, sem afundar no peito. Tem uma pausa nítida e aí você sobe, com os braços retos, também sem, tipo, sem travar no meio e continuar, tem que ser um movimento contínuo, e aguardar o comando do árbitro pra poder guardar a barra. Fazendo tudo certinho, válido o movimento.

Samuel: Ela tem conseguido ficar sempre entre as três primeiras colocadas na categoria em que ela compete, e tem treinado muito pra melhorar o seu desempenho. Na nossa conversa eu fiquei impressionado com toda aquela força, e fiquei pensando como seria se a minha sobrinha conhecesse ela e visse o que ela consegue fazer?

Maraísa: Lembrei de uma situação bem engraçada. Eu tava com o meu afilhado e a minha sobrinha…

Samuel: … talvez parecesse um pouco uma das super heroínas que ela vê nos desenhos…

Maraísa: … era casamento da minha sogra, e aí a gente foi embora pra casa dela um pouco antes, né, que as crianças tavam com sono e aí eu fui com eles. Aí a gente chegou na casa, a porta do banheiro tava trancada e não abria por nada. E eles precisando usar o banheiro [risos].

Samuel: … e usasse a sua força pra salvar o dia.

Maraísa: Aí eu arrombei a porta do banheiro [risos]. Eles ficaram assustados, mas foi bem engraçado, falaram “nossa, tia!” [risos].

Maria Fernanda: Mulher Maravilha, Capitã Marvel, Mulher Gata…

Samuel: … e Boneca de Ferro.

Marco Carlos Uchida: Na verdade eu acho que os meus heróis de referência na infância foram os heróis típicos japoneses, né. Então, o clássico Ultraman, Ultraseven… 

Samuel: Pra falar um pouco sobre como a ciência vê essa questão da força…

Uchida: … e logicamente tem a força deles, né, seja a força física ou seja a força da emissão de raios e tudo mais.

Samuel: … eu fui conversar com alguém que entende do assunto.

Uchida: Meu nome é Marco Carlos Uchida, né, sou professor aqui da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas, e a minha linha de pesquisa principal é o treinamento de força e potência, né, atualmente para idosos e também trabalhando na área da deficiência física.

Samuel: O Uchida faz parte do Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada e estuda treinamento de força desde o doutorado. Mas a questão da força acompanha ele desde antes dele ser pesquisador.

Uchida: … e tem um episódio muito… uma passagem muito interessante que foi meu primeiro contato com algum tipo de… é… elemento da academia de musculação, né, treinamento de força, que foi uma barra e anilhas, né, que foi na casa do meu tio, lá em São Paulo. Eu devia ter mais ou menos uns, talvez 4 anos, e aí eu lembro que eu vi aquilo num quarto e fui lá levantar o peso. Então pra mim aquilo foi, acho que o primeiro contato com um implemento da força propriamente dito.

Samuel: E levantou o peso?

Uchida: Levantei, porque era muito leve né, devia ser talvez 4 quilos, coisa assim. Mas por isso que foi muito legal, porque eu consegui levantar o peso do solo né, então isso foi marcante.

Uchida: Então eu sempre fui muito franzino, muito magro né, até com aspecto frágil né, aquele oriental magrinho, e eu lembro que com 14 anos, é… apesar de saber judô e tudo mais, eu tinha um amigo na minha rua que era praticante de musculação, né, que a gente chama aqui academicamente de treinamento de força.

Samuel: Aí esse amigo chegou pra ele e falou…

Uchida: … “pô, vamo lá fazer, participar lá da academia, tal, né, academia de musculação”, e aí eu fui.

Samuel: O Uchida ficou encantado com a ideia de treinar e obter resultados, não só o aumento da força mas também o ganho de massa muscular. E conforme ele foi tendo resultados, ele foi se apaixonando pelo universo do treinamento.

Uchida: … aquilo foi me retroalimentando positivamente e aí eu fui gostando, gostando, gostando, até que finalmente, né, eu fui fazer Educação Física e fui direcionado pra isso. E eu sempre comento com os meus alunos que eu fui fazer Educação Física porque eu queria abrir uma academia de musculação [risos]…

Samuel: O Uchida não abriu uma, mas trabalhou em academias e atuou como personal trainer. Só que ele sentia necessidade de se aprofundar mais nos estudos, e aí ele foi se envolvendo com o mundo da pesquisa e nunca mais parou. Hoje ele faz e orienta vários tipos de pesquisas relacionadas com o treinamento de força.

Uchida: Você vê um indivíduo musculoso, esse é o sinônimo de força, né. Mas pra nós aqui da academia científica, e pros estudiosos e aqueles que são na verdade os entusiastas e que estudam um pouco mais, a gente sabe que a força, né, fisiologicamente falando, ela tem basicamente dois componentes, né. Um é o componente morfológico…

Samuel: … que é o tamanho do músculo e o jeito que ele cresce quando estimulado, a chamada hipertrofia…

Uchida: … e outro são as adaptações do sistema nervoso, né, são as adaptações neurais…

Samuel: … que, em resumo, é o jeito que o seu cérebro, os seus neurônios e as conexões deles com os músculos passam a funcionar de um jeito mais eficiente pra gente produzir mais força. E esses dois componentes não são a mesma coisa.

Uchida: O que é muito comum as vezes na academia, nas musculação a gente vê isso. Tem aquele rapaz magrinho, tal, ele vai na… no equipamento lá, tipo legpress que é de empurrar o peso lá pra cima com membros inferiores, ele levanta lá uma marca imensa, e aí vem um rapaz muito maior, as vezes… é… quase o dobro de massa muscular, ele vai lá e faz com o mesmo peso. Então isso é interessante pra saber que a força não depende apenas do tamanho do músculo, mas depende também dessas adaptações do sistema nervoso.

Samuel: E isso é interessante pra pensar em treinamento pra idosos, que é algo que o Uchida domina bastante. Ele me contou que é comum que as pessoas mais velhas consigam resultados legais no ganho de força, mesmo sem ter muito aumento da massa muscular. E quando a gente fala de treino de força nesse contexto, nem sempre tem a ver com os 100 kg da Capitã Marvel. Ou com o supino que a Maraísa faz.

Uchida: Porque por exemplo, sentar e levantar pra você ou pra mim não é força. A gente consegue fazer talvez centenas de repetições. Mas pra um idoso, muitas vezes, se ele consegue fazer 2 ou 3 repetições saindo da cadeira e levantando, ele pode chegar em exaustão pra isso. Ou seja, isso caracteriza o que? Algo realmente muito intenso, né, e é força pra ele.

Samuel: Então tem mais de um jeito de se pensar o treinamento de força, e o Uchida me falou de algumas pesquisas que o grupo dele tem desenvolvido nos últimos anos. Teve por exemplo um doutorado que ele orientou, feito pelo Hélio Coelho Júnior, que analisou os efeitos de um treino de força em idosos frágeis. Que são aqueles idosos que não conseguem mais fazer várias tarefas simples do dia a dia. E depois de alguns meses eles melhoraram na locomoção e em outras habilidade básicas… inclusive sentar e levantar da cadeira.

Samuel: Teve também um mestrado recente, da Luz Castaño, que fez um treinamento de dupla-tarefa com idosos, combinando exercícios de força e exercícios cognitivos. Então enquanto o idoso levantava os pesos…

Uchida: … a gente falava assim, agora o senhor a senhora deve falar nome de animais, então pra cada repetição né ele falava assim, então: cachorro, gato, galinha, vaca, rinoceronte, hipopótamo e ia… até o final das repetições. E aí na próxima série já era outra coisa. Agora cê tem que falar nome de fruta, então abacaxi, abacate, tomate, e maçã e aí ia… Logicamente a gente ia piorando a situação da dupla tarefa. Depois era só animais aquáticos. Animais terrestres. Animais que voam, entendeu? Então é, aumentando o grau de dificuldade.

Samuel: A ideia era matar dois coelhos com uma cajadada só. E deu certo. Aqueles idosos voluntários treinaram por um tempo, e no final da pesquisa a Luz e o Uchida viram que de fato eles tinham melhorado na parte física e também na cognitiva. 

Uchida: E logicamente nosso grupo de idosos eram idosos mais instruídos, né, a gente não sabe se isso por exemplo uma população com menos instrução formal teria o mesmo resultado, mas já é algo que é possível de você incluir na sua rotina de treinamento, não só uma parte física mas uma parte cognitiva também.

Samuel: Essa nossa conversa foi longe e ele me contou de vários outros estudos que o grupo dele tem feito. Inclusive um em que ele analisou a expressão facial das pessoas durante exercícios de força…

Uchida: … todo mundo de uma forma ou de outra utiliza a expressão facial pra você decodificar o outro ser humano [risos].  

Samuel: … e mostrou que a gente consegue usar a careta como mais um indicador possível pra saber se um exercício tá muito difícil ou se a pessoa tá perto da exaustão, o que pode aumentar a chance de acontecer uma lesão. Enfim, tem muita possibilidade de pesquisa com essa questão da força, e o que o Uchida tá vendo agora é justamente… o halterofilismo paralímpico.

Maraísa: … eu quando fazia só musculação, eu detestava treinar braço. Eu odiava, fazia uma coisinha ou outra porque o professor pedia muito. Mas assim, eu só gostava de treinar perna, abdominal, enfim, eu odiava treinar braço.

Samuel: A gente volta pra Maraísa.

Maraísa: Mas aprendi a gostar né, porque daí não teve outro jeito, eu gostei do esporte, e aí fui obrigada a gostar de treinar braço, né. Hoje em dia é ao contrário, eu adoro treinar braço e tenho preguiça de treinar perna.

Samuel: E hoje em dia os treinos que ela faz são muito diferentes do que ela fazia na época da musculação. São treinos específicos para ganho de força, com técnicas e equipamentos diferentes dos convencionais. E a Maraísa sente os resultados disso no dia a dia.

Maraísa: … quando eu comecei a minha primeira marca assim em competição foi 40 kg. Hoje eu levanto 81, foi a minha última marca na competição agora em fevereiro em Brasília.

Maraísa: Eu lembro assim que quando eu comecei assim no convencional tinham pouquíssimas mulheres que faziam, e eu assim de início meio que quase que igualava né os pesos de algumas que já competiam há mais tempo. Mas aí quando eu fui pro paralímpico, aí assim já tinha um pessoal mais experiente, já mais forte, mas aquilo sempre me motivou a chegar naquele nível, entendeu? Sempre me motivou a conquistar mais, a querer mais… a estar no primeiro lugar.

Renato Barroso: De verdade eu não tinha ninguém na minha família que era forte.

Samuel: Esse é o professor Renato Barroso.

Renato: … eu assisti Conan né. Então a pessoa mais forte que me vem na cabeça quando você me pergunta assim é o Arnold Schwarzenegger, que foi o ator principal do Conan.

Samuel: Ele também faz pesquisas sobre treinamento de força e hipertrofia. E o nome do Schwarzenegger… 

Renato: … Shwarzenegger. 

Samuel: … apareceu bastante na nossa conversa.

Renato: Schwarzenegger, Arnold Schwarzenegger. O Schwarzenegger vai lá no mercado, ele vai carregar 2 ou 3 caixas de leite facilmente.

Samuel: O Arnold veio na nossa cabeça, e a essa altura deve ter vindo na sua também, porque a gente conversou muito sobre a questão do aumento do tamanho do músculo. E esse é um dos temas que o Renato tem trabalhado, também lá na Faculdade de Educação Física da Unicamp.

Samuel: Ele me contou que estuda força desde o começo da carreira, e que tem se dedicado a entender como que o treino de força pode afetar o desempenho esportivo na natação, na corrida, no ciclismo e em outras modalidades… mas antes de falar com o Renato sobre as pesquisas, eu tinha que perguntar…

Renato: Eu tenho 1 metro e 98 de altura. De tênis talvez tenha 2…

Samuel: Ele é bem fácil de achar pelos corredores da faculdade. E uma coisa que tá nas pesquisas do Renato e dos alunos que ele orienta é ver como funciona a questão do ganho de força e do aumento da massa muscular quando a gente mexe nas variáveis… 

Renato: Volume de treino, intensidade de treino, frequência de treino…

Samuel: … nessas variáveis do treinamento ao longo de um período. 

Samuel: Pra simplificar, é mais ou menos assim. A gente pega dois grupos e põe eles pra fazer treinamentos de força parecidos, só que com algumas coisas diferentes. Quantas vezes por semana o treino acontece. Quantas séries de quantas repetições vão ser feitas em cada exercício. E se o peso vai estar leve ou pesado perto da força que o indivíduo já tem. E a ideia é olhar no resultado final de cada grupo o que que isso gerou em ganho de força e no tamanho do músculo.

Samuel: Uma coisa que o Renato me explicou é que pode ser difícil fazer esse tipo de pesquisa, porque algumas diferenças a gente só constata depois de períodos mais longos de treino. E nem sempre é fácil manter os voluntários participando do treinamento de um jeito consistente por muito tempo.

Renato: Então a gente demora um tempo pra recrutar alguns voluntários, avaliações iniciais, treino, avaliações finais. Então se nós nos estendermos e falamos assim “ah, 8 semanas é pouco, vamos fazer com 24”. 24 semanas são 6 meses! Então é muito desafiador, é muito desafiador.

Samuel: Mas mesmo sendo desafiador, esses estudos podem ajudar a pensar treinos mais eficientes pros atletas de várias modalidades, ou mesmo a entender melhor a relação entre a força e a hipertrofia, que ainda é um tema muito quente na área. E o Renato reforçou o que o Uchida já tinha me falado, de que quando a gente fala de força a gente tá falando de muitas coisas diferentes.

Renato: Há pouco tempo saiu na mídia aí uma foto do Cristiano Ronaldo saltando algo que eles estimaram ser por volta de 80 cm, o que é um valor muito alto. O Cristiano Ronaldo é forte? Se você comparar com o Arnold Schwarzenegger, e você tiver o Arnold Schwarzenegger como o padrão de força, o Cristiano Ronaldo não é forte. Mas se você pedir pro Arnold Schwarzenegger saltar, certamente ele não vai saltar 80 cm. Então a força ela pode se manifestar de diferentes maneiras.

Samuel: E uma dessas maneiras é a potência, que é tipo isso que o Cristiano Ronaldo fez na foto, aplicando uma dose considerável de força num curto espaço de tempo.

Renato: Há pouco tempo teve um programa na TV que era o strongman, que é o homem mais forte do mundo, acho que eles traduziram assim. Então tem várias provas de força. Então pega uma rocha com 150 kg e coloca num pedestal que tá a 1 metro do solo. Joga o barril pra uma barra que tá a 4 metros do solo. O barril pesa sei lá quantos quilos, 40, 50 quilos, vai jogar pra cima… E como eles têm que fazer várias vezes ainda, também pode ser considerado resistência de força.

Renato: Então tem provas que envolvem força máxima, por exemplo uma modalidade que chama powerlifting. Então os indivíduos participam de 3 provas, que são supino… 

Maraísa: Isso, supino.

Uchida: Clássico, eu adoro supino, falo toda hora do supino né…

Renato: … agachamento, levantamento terra, e o objetivo é levantar a maior quantidade de peso possível nesses exercícios, uma única vez. Mas eles levantam.

Maraísa: … válido o movimento.

Renato: Então são diferentes manifestações que têm que ser consideradas quando você faz uma pergunta que eventualmente parece simples. Você é forte? Eu posso ser forte se eu levantar 150 kg. Eu posso ser forte se eu jogar 10 vezes o barril por cima. Eu posso ser forte se eu saltar 80 cm.

Samuel: Você é forte?

Renato: Não [risos].

Samuel: Nem com quase 2 metros de altura?

Renato: Nem com quase 2 metros de altura.

Samuel: Conversar sobre força me fez lembrar mais ainda do meu avô Mário, aquele homem forte que me marcou tanto. E eu lembrei de uma coisa que aconteceu no final da vida dele. 

Samuel: Eu tinha uns 14 anos mais ou menos, e ouvi ele me chamando de dentro do banheiro. Ele tinha caído e já não conseguia levantar sozinho. Aí eu, franzino e desengonçado, abracei aquele homem enorme do melhor jeito que consegui, respirei fundo e levantei ele do chão. Ele olhou pra mim um pouco triste e comentou: “você tá forte hein moleque”. 

Samuel: A força continua sendo algo que me fascina, mas eu percebi que quando a gente fala de força…

Uchida: … na física é simplesmente massa vezes aceleração, né…

Samuel: … a gente tá falando de muita coisa.

Uchida: … acho que é muito mais do que massa vezes aceleração.

Uchida: Acho que o importante é falar que o treinamento de força, né, ele veio de uma marginalidade da década de 70, do mundo underground, né, onde só quem treinava era o fisiculturista, né, que né, muitas vezes associado à utilização de recursos não lícitos, né, como os anabolizantes esteroides, pro que é hoje né.

Uchida: Né, então hoje todo mundo fala assim, o que que eu tenho que fazer de musculação pra eu envelhecer melhor? Cada vez mais a ideia do treinamento de força ela não tá vindo simplesmente pra questão da estética ou pro esporte de alto rendimento, mas também pra melhorar a saúde da população como um todo.

Samuel: Então eu posso estar falando do fisiculturista gigantesco. Da Maraísa levantando o supino. De um ciclista ou nadador que faz treino de força pra melhorar o desempenho, e de uma pessoa comum, que vai à academia pra manter a saúde. Da potência, da resistência de força, da força máxima. Ou do idoso frágil fazendo exercícios com elásticos pra poder viver melhor.

Uchida: Eu acho que todos nós temos a capacidade de melhorar a força, né. Talvez quando você melhora a força, você pode falar “eu sou forte em relação ao que eu era antes, e posso ser mais forte no futuro”. Eu acho que a pessoa forte é aquela que consegue é… consegue ultrapassar os obstáculos, né, de forma facilitada.

Uchida: Eu posso imaginar por exemplo, que atualmente ainda me sinto forte [risos].

Samuel: O episódio fica por aqui. O Corpo é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é feito na Faculdade de Educação Física e tem financiamento da FAPESP. 

Samuel: A produção, as entrevistas, o roteiro e a edição deste programa foram feitas por mim, Samuel Ribeiro. O projeto é coordenado pelo professor Bruno Rodrigues, da FEF, e pela professora Marina Gomes, do Labjor. E quem coordena o Oxigênio é a professora Simone Pallone, também do Labjor.

Samuel: E se você gostou do episódio, dá um alô pra gente nas redes sociais. A gente tá no Facebook, Instagram e Twitter, é só procurar por Corpo Podcast. Até a próxima!

 

Músicas

“Pastor” by Macrame.

Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

“Hickory Interlude” by Onesuch Village. 

Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

“Flattered” by Delray.

Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

“An Oddly Formal Dance” by Calumet.

Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue).

 

Imagem da capa

Imagem de Ryan McGuire por Pixabay.

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