#83 Oxilab: o museu que não pegou fogo

Em formato narrativo e duração de 13m08s, este episódio do Oxigênio partiu das memórias do incêndio do Museu Nacional para abordar o passado, o presente e o futuro do Museu Paulista da USP. Com a sede interditada desde 2013 por problemas estruturais, o museu acabou de ter a sua reforma iniciada, e a expectativa é que tudo esteja pronto até 2022, quando ele será reinaugurado durante as comemorações do bicentenário da Independência do Brasil. Para entender melhor esse contexto, o Samuel Ribeiro conversou com o professor Paulo César Garcez Marins, que é doutor em História e trabalha na divisão de acervo e curadoria do Museu Paulista. Eles falaram sobre o surgimento e a trajetória da instituição, seus primeiros diretores, suas atividades, como foi o processo de interdição do prédio e como será o novo museu após a reinauguração. Este Oxilab #83 foi produzido e narrado pelo Samuel, para a disciplina de História da Comunicação da Ciência, do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo Científico (Labjor), da Unicamp.  Vamos ao programa!

 

ÂNCORA DE TV1: E atenção, uma notícia que acaba de chegar: um incêndio de grandes proporções está destruindo nesse momento o Museu Nacional no Rio de Janeiro.

ÂNCORA DE TV1: O fogo começou por volta das sete e meia da noite, aos poucos todo o prédio histórico foi tomado pelas chamas.

ÂNCORA DE TV2: As autoridades dizem que pouco ou nada vai sobrar do museu. Ainda não sabem o que terá provocado o incêndio combatido por bombeiros de vinte quarteis do Rio de Janeiro.

 

SAMUEL: A primeira vez que eu visitei o Rio de Janeiro foi no ano passado, e eu dei o azar de chegar bem no dia em que o Museu Nacional pegou fogo. Eu lembro que eu tinha acabado de chegar no quarto do hotel. Sentei na cama, liguei a TV e fiquei muito triste com aquelas cenas, porque eram séculos de história que eu nunca mais ia poder visitar.

SAMUEL: Pra mim os museus têm essa coisa louca. Cada um é de um jeito, e esse jeito de ser tá sempre mudando. Pode ser uma instituição educativa. Um lugar pra mostrar a ciência ou a arte de uma época. Pra contar as histórias de um povo, de um acontecimento, de um país. Tudo isso junto. Ou até alguma coisa diferente.

SAMUEL: E é por isso que é tão triste quando acontece um incêndio em um museu, porque não existem dois museus iguais por aí.

SAMUEL: Eu sou Samuel Ribeiro, e neste podcast vou falar sobre um museu que não pegou fogo: o Museu Paulista, fundado no século XIX e que foi o primeiro museu público do estado de São Paulo.

SAMUEL: Pra saber mais dessa instituição, eu conversei com o Paulo…

PAULO: Paulo César Garcez é… Marins… M-A-R-I-N-S… e eu sou docente e curador do Museu Paulista da USP, que é o Museu do Ipiranga.

SAMUEL: O Paulo, que tá lá desde 2004, trabalha na divisão de acervo e curadoria. Eu liguei pra ele porque eu queria conhecer melhor a história do museu, mas a gente acabou indo além disso e falamos também sobre o futuro da instituição.

SAMUEL: Se você não conhece ou nunca viu o Museu Paulista, procura uma foto aí no Google. A sede é uma construção antiga enorme, que fica dentro do Parque da Independência no bairro do Ipiranga, em São Paulo, e tá interditada desde 2013 por causa de problemas na estrutura das paredes. Depois de um período de planejamento, as reformas foram iniciadas agora, em 2019, e a previsão é de que a reinauguração do museu aconteça em setembro de 2022, no bicentenário da Independência do Brasil.

SAMUEL: O prédio do museu é um patrimônio tombado, assim como o seu acervo, que tem centenas de milhares de itens. Tem fotografias, quadros, esculturas, móveis, utensílios da vida cotidiana, documentos, enfim… tudo isso reunido e organizado ao longo de mais de um século de história.

PAULO: O Museu Paulista vai ser inaugurado e aberto ao público em 1895, na última década portanto do século XIX e num contexto importante de transição política do Brasil. O museu foi instalado em um prédio, que é o chamado Monumento à Independência, construído na década de 1880, na década anterior, que tinha sido erguido pelas autoridades imperiais para homenagear a história da fundação do país e homenagear o próprio regime imperial.

PAULO: Esse museu tem desde a sua abertura algumas finalidades. Ele tinha uma seção histórica, na medida em que o primeiro item do acervo dele foi o quadro Independência ou Morte, do Pedro Américo, pintado em 1888, também como uma encomenda imperial, e que foi projetado para o Monumento à Independência. Ele foi projetado pro salão nobre, o salão nobre foi projetado pra abrigar essa pintura.

SAMUEL: Desse quadro que o Paulo falou você deve se lembrar, porque deve ter visto ele nos livros de História do colégio.

PAULO: A… coleção de história né, foi a primeira, e as autoridades republicanas julgaram então que seria contrabalançar, não é, esta herança imperial, dedicando um amplo espaço do museu para a guarda de coleções e estudo de história natural. Então o Museu Paulista vai durante várias décadas ser a principal instituição do estado de São Paulo dedicada aos estudos de botânica, zoologia, mineralogia.

SAMUEL: O Paulo me explicou que lá no começo o museu não era muito especializado e tinha vários tipos de coleções, o que era bem comum nos museus de países americanos. Enquanto isso na Europa, as instituições já eram mais direcionadas ou para história natural, ou para história da arte, ou para história política.

SAMUEL: E aí muito do perfil do Museu Paulista foi sendo construído pelo contexto político do país e também pelo perfil dos diretores que entravam.

PAULO: Então, nosso primeiro diretor, que é um malacólogo né, um especialista em moluscos chamado Hermann von Ihering… era um alemão e que foi escolhido pelas autoridades republicanas para ser diretor do Museu Paulista justamente porque as autoridades queriam imprimir um caráter privilegiadamente de museu de história natural. Portanto, ele foi o primeiro escolhido por conta desta nova destinação que o prédio e que o próprio museu deveria ter na sua caracterização nessa aurora do regime republicano.

PAULO: A partir de 1917, no entanto, houve uma decisão de converter o Museu Paulista progressivamente num museu cada vez mais, não é, um museu histórico. E isso fará com que seja nomeado então o primeiro historiador pra dirigir o museu, que é Afonso d’Escragnolle Taunay, e o Taunay será o grande responsável por firmar no museu a sua característica de museu histórico.

SAMUEL: O Taunay, que foi professor da USP lá no comecinho da universidade, ficou como diretor até 1945, e logo depois entrou o Sérgio Buarque de Holanda, também historiador, e que dispensa apresentações.

SAMUEL: O Paulo contou pra mim que o museu sempre foi próximo da USP, e que por um bom tempo ele foi visto como um órgão complementar dela. Foi só em 1963 que ele foi oficialmente incorporado à universidade.

PAULO: Desde 63 os nossos diretores foram necessariamente todos professores da Universidade de São Paulo, característica essa que nós mantemos até hoje.

SAMUEL: E foi na gestão de um desses professores, o Ulpiano Bezerra de Meneses, nos anos 90, que o Museu Paulista passou a ser um museu exclusivamente histórico, com foco na história do estado de São Paulo.

SAMUEL: Durante toda a sua trajetória, o museu foi ganhando a cara que tem hoje – uma instituição de referência, com várias atividades de ensino, de pesquisa e de extensão. Então eu fiquei curioso pra entender como é que foram os impactos sobre tudo isso desde que o prédio-sede foi interditado.

PAULO: Desde que foi então detectado né,

o problema estrutural, e a nossa diretora professora Sheila Walbe Ornstein, naquele momento nossa diretora tomou uma decisão acertadíssima, não é, de interditar o prédio e de iniciar o processo que nós nos encontramos até hoje. O prédio passou a perder então muitas atividades que aconteciam lá dentro, a administração do prédio já não estava mais lá inclusive né, por uma questão de espaço, mas os laboratórios, as reservas técnicas, as atividades de aulas e as atividades educativas passaram a ser exercidas em imóveis que nós alugamos, por meio de recursos da Universidade de São Paulo, no entorno do museu.

SAMUEL: O que a população mais lembra de um museu são as suas exposições, mas pra que elas aconteçam tem todo um processo de trabalho que tem que vir antes. Os acervos precisam ser conservados, restaurados, catalogados, estudados, enfim, é muito suor e esforço ali nos bastidores. E nada disso parou de acontecer depois que o prédio foi interditado.

PAULO: Todas essas atividades estão sendo realizadas, não é, desde a interdição, com continuidade, não é, então o museu na verdade jamais ficou parado, não é, ele jamais ficou fechado, aliás eu diria que foi o período em que nós mais trabalhamos, não é, justamente pra planejar, em primeiro lugar, a ocupação dessas casas, o mobiliário pra recebimento de acervos nessas casas… depois, um trabalho que foi extremamente importante no nosso país também, inédito, que foi a transferência, né, de cerca de cento e cinquenta mil itens de acervos que foram acumulados num prédio durante centro e trinta anos aproximadamente e que nós tivemos que retirar em dois anos…

SAMUEL: Outro trabalho que a equipe fez nos últimos anos foi definir as necessidades do museu pro futuro, e foi com base nisso que os arquitetos elaboraram o projeto da reforma, que começou faz pouco tempo. Até 2022 a sede vai ter uma grande área ampliada no subsolo e a toda a área principal do prédio vai ser revitalizada e usada só pras exposições – serão 39 salas que vão cobrir vários temas da história do Brasil e de São Paulo.

SAMUEL: Essa obra é fruto de uma parceria entre a reitoria da USP, o governo do estado de São Paulo e mais de 15 patrocinadores públicos e privados, e o Paulo me contou que esse esforço tem a ver também com um aumento de sensibilidade da sociedade depois do incêndio do Museu Nacional no Rio.

PAULO: Porque as perdas foram realmente muito fundas, e isso acentuou a necessidade de que a população e as autoridades públicas e as entidades privadas se movimentassem para a recuperação do Museu Paulista. É o lado, que nós podemos dizer, positivo, não é, que uma tragédia daquela dimensão pode gerar, as populações acordam, não é, para o perigo que é aqui no Brasil ou fora daqui – é o caso de Notre Dame de Paris também – enfim, o patrimônio ele sempre deve ser zelado com o maior cuidado porque obviamente ele sempre está em risco.

PAULO: Então eu acho que nós precisamos aprender a construir caminhos, não é, para… a valorização das nossas exposições, das nossas instituições, e isso pede um esforço redobrado das próprias equipes, e acho que quando a gente consegue, não é, criar realmente um patamar importante de discussão pra sociedade, a sociedade já está pronta pra nos apoiar.

SAMUEL: O podcast fica por aqui, e se você gostou e não quer esperar até 2022 pra visitar o novo Museu Paulista, pode acessar o site www.mp.usp.br e saber mais das atividades e exposições que estão acontecendo em outros espaços. Ah!, e tem também o Museu Republicano de Itu, que é uma extensão do Museu Paulista e continua funcionando normalmente.

SAMUEL: O roteiro, a narração e a edição deste podcast foram feitos por mim, Samuel Ribeiro, como uma produção do curso de Jornalismo Científico do Labjor – Unicamp. As músicas usadas são do site Blue Dot Sessions. Até a próxima!

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Créditos de som

“Waltz and Fury” by Macrame. Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue/).

“Tanguedo” by Union Hall. Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue/).

“When in the West” by Landsman Duets. Blue Dot Sessions (https://www.sessions.blue/).

“Foyer of National Museum, Copenhagen”. BBC (http://bbcsfx.acropolis.org.uk/).

“Incêndio de grandes proporções destrói o Museu Nacional, no Rio de Janeiro”. Domingo Espetacular, Record (https://www.youtube.com/watch?v=YUWpG3fADNA).

“Incêndio destrói Museu Nacional no Rio de Janeiro”. Euronews (https://www.youtube.com/watch?v=jUhe5stSu-o).

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