#79 Temático: À sombra da floresta

Os Sistemas Agroflorestais misturam na mesma área culturas agrícolas e espécies arbóreas. A planta de origem sul-americana, cultuada por Olmecas e Maias, adora sombra e água fresca. Na verdade, é à sombra da floresta, que o cacau cresce e frutifica. 

No episódio #79, vamos até a região Amazônica conhecer dois produtores de cacau do tipo bean-to-bar: Dona Nena e Gustavo Sartori, que exploram essa forma de plantio e criam seus próprios chocolates. Depois conversamos com Idalto Pereira, que deixou a pecuária para plantar cacau, e dois representantes do Projeto Cacau Floresta, iniciativa da ONG The Nature Conservancy, o Rodrigo Freire e a Thaís Maier. 

No final, o pesquisador e engenheiro florestal Daniel Braga responde como o cacau ajuda a preservar florestas e a vida selvagem e a melhorar a qualidade de vida na zona rural. Uma viagem que nos leva às raízes da guloseima mais adorada do mundo: o chocolate!

O roteiro e a produção é de Camila Cunha. Entrevistas de Camila Cunha, Luciana Rathsam e Oscar Freitas. Narração de Camila Cunha e Gustavo Campos. Revisão de Natália Flores e Allison Almeida. Música de Caroline Maia. Mídia social e divulgação de Paula Gomes, Oscar Freitas Neto, Helena Ansani e Luísa Kanashiro. Coordenação de Simone Pallone e trabalhos técnicos, Gustavo Campos e Octávio Augusto da Rádio Unicamp.

Deixe seu comentário contando para a gente o que achou do episódio. Você pode mandar sugestões também pelo Twitter (@oxigenio_news), Instagram (@oxigeniopodcast) e Facebook (/oxigenionoticias). Se preferir, envie um e-mail para oxigenionoticias@gmail.com.

Abaixo, a transcrição do episódio.

 

música…

Camila Cunha – Olá, Ouvinte! Bem-vindos! Hoje vamos falar sobre uma planta sagrada de frutos grandes, que está contribuindo para frear o desmatamento de florestas e restaurar áreas degradadas. A cultura também aparece para agregar valor e melhorar a qualidade de vida de agricultores familiares. Você está achando que se trata de uma planta milagrosa? Arrisca um palpite sobre que planta é essa? Aqui vão mais algumas dicas. É uma planta de sombra e água fresca, encontrada naturalmente no sub-bosque de florestas. Seus Frutos, além de serem consumidos a mais de 5.300 anos por nativos do continente americano, vão do amarelo ao roxo e dão nos galhos como jabuticabas, pensos como lanternas. De tão importante para a sociedade, Jorge Amado, um dos maiores nomes da nossa literatura, escreveu um romance dedicado a cultura, que se estabeleceu no sul da Bahia na década de 30. 

música…

Camila Cunha – Já sabe a resposta? Sim, estamos falando do cacau. Para antigas civilizações mesoamericanas, como os Olmecas e os Maias, os frutos do cacaueiro eram símbolo de poder social, econômico e político. Envolto em misticismo religioso, o cacau era o alimento dos deuses. Quando os espanhóis chegaram por aqui logo perceberam a magia dos frutos, que na Europa, no final da década de 1870, foram misturados a açúcar e leite pelas mãos engenhosas de suíços, produzindo a iguaria mais desejada do mundo, o chocolate.

Gustavo Sartori – Se você degustar um chocolate Europeu, um chocolate Suíço, você vai perceber um forte sabor de leite. Eu costumo até dizer que o europeu achou no cacau uma maneira de vender o leite deles, né? E nós estamos tentando trabalhar uma maneira de vender o nosso cacau e não o nosso leite. 

Camila Cunha – Quem fala é o Gustavo Sartori, produtor de cacau e chocolateiro no Estado de Rondônia, que vamos conhecer neste episódio. Os grandes fabricantes de chocolate usam muito açúcar e gordura em suas preparações, muitas vezes mascarando o sabor de amêndoas de cacau de baixa qualidade. Produzir uma boa amêndoa, que valha um chocolate amargo, exige um manejo rigoroso da cultura, com investimento, tecnologia e mão-de-obra capacitada. Vários produtores, como o Gustavo, estão produzindo e beneficiando amêndoas e criando os seus próprios chocolates, que levam no sabor a identidade nacional. É o caso também da Izete Costa, a Dona Nena, produtora de cacau e chocolateira na Ilha do Combú, que fica pertinho da capital Belém no Pará. 

música…

Camila Cunha – Apesar desses exemplos bem sucedidos de produtores independentes, a cadeia produtiva do cacau ainda tem muitos desafios, principalmente na África, onde estão os maiores produtores. Juntos, eles respondem por mais de 75 % das amêndoas produzidas no mundo. 

música…

Camila Cunha – Mas, nem tudo é doce na cultura cacaueira, pois ela se estabeleceu em meio a problemas ambientais e de ordem social. Segundo o Barômetro do Cacau do VOICE Network, publicado em 2018, 90 % das florestas nativas do oeste africano foram devastadas pela expansão de cacauais e mais de 2 milhões de crianças trabalham nas lavouras da Costa do Marfim e de Gana. No Brasil, estima-se que quase 8 mil crianças e adolescentes trabalhem nas roças de cacau, segundo dados de 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Outro problema na produção de cacau é a frequente variação de preços pagos aos produtores. Mesmo em época de vacas magras, quando os preços do cacau estão baixos, os atravessadores e os beneficiadores das amêndoas / e os fabricantes e os revendedores de chocolate / sempre lucram, quem assume todos os riscos e, geralmente, perde, é o cacauicultor. A falta de poupança, seguridade social e crédito rural agravam ainda mais a situação.

Gustavo Campos – Camila, espere um momento! Você está falando de aspectos negativos do cacau, e disse no início do programa que ele ajudaria a resolver questões ambientais urgentes… Como? 

música…

Camila Cunha – Eu sou Camila Cunha

Gustavo Campos – E, eu sou Gustavo Campo. Neste episódio, vem com a gente conhecer dois produtores do tipo bean-to-bar, que na tradução literal significa, amêndoa-pra-barra, de chocolate claro, ou seja, produtores que trabalham verticalmente na cadeia produtiva. 

Camila Cunha – Depois, falamos com dois responsáveis e um participante do Projeto Cacau Floresta, iniciativa da ONG The Nature Conservancy Brasil. E, por fim, o pesquisador Daniel Braga, responde a nossa pergunta: como o cacau ajuda no enfrentamento das questões ambientais urgentes no Brasil? Vamos?!

vinheta de abertura…

música…

Dona Nena – Minha relação com o cacau começou muito cedo, ajudando a família a beneficiá-lo, fazendo colheita, quebra, fermentação e secagem. Minha família tinha o hábito de fazer o seu próprio chocolate, que era consumido somente pela família e o restante era passado para o atravessador. E, em 2003, mais ou menos 2004, comecei a participar de uma feira, onde eu entrei trabalhando com biojoias, mas vi que tinha potencial para outros produtos florestais. Então, eu comecei a fazer o chocolate caseiro, que era da família, e levar para feira, onde foi dando certo e aos poucos eu fui melhorando. 

Gustavo Campos – Na feira, o chocolate da Dona Nena foi descoberto pelo chef paraense Thiago Castanho e ganhou fama passando a ser usado em seus restaurantes. Como parte presente de sua culinária, Thiago valorizou a forma artesanal de produção e o produto final.

Dona Nena – Hoje nós produzimos em torno de 200 kg por mês de cacau e chocolate. A gente não tem como expandir tanto, porque nós não desmatamos para plantar o cacau. A gente aproveita espaços ociosos ou queda natural de árvores. O cacau, na Ilha [do Combú], é uma cultura nativa. Hoje a gente tá plantando novos pés para perpetuar a espécie, mas tudo que colhemos é um cacau vindo de um sistema agroecológico. Nós trabalhamos também outras culturas como o açaí, o cupuaçu, a pupunha… mas hoje para nós, ele é o carro-chefe. É o nosso manjar dos Deuses. O nosso chocolate, ele tem um diferencial que é da diversidade de plantas que rodeiam e soltam suas folhas, né? Para nutri-lo e para adubar as plantas, né? E, também, é um cacau diferenciado, de várzea, que é irrigado pelas marés. Eu acho que isso dá todo esse toque especial nele. 

Camila Cunha –  O cacau é nativo da Amazônia. E, segundo arqueólogos, é bem provável que os povos nativos da região não cultivassem a espécie, como faziam com o milho e a mandioca, pela abundância das árvores encontradas na mata. Assim, como feito pela Dona Nena, o cacau é uma cultura originalmente extrativista. O tamanho das árvores varia entre 3 a 4 m de altura, necessitando de poda para que as plantas recebam luz suficiente e frutifiquem na medida certa. Para colher um fruto é necessário paciência, porque a primeira frutificação só ocorre de 3 a 5 anos após o plantio. A formação e a maturação dos frutos também é lenta, chegando a até seis meses. Quando prontos, os frutos são colhidos e as sementes separadas para fermentação por 3 a 8 dias, em recipiente geralmente coberto por folhas de bananeira. O líquido resultante da fermentação é drenado e as amêndoas são secas ao sol. Depois, então, são torradas, descascadas e moídas para produzir o licor de cacau, que aí sim, vai virar manteiga de cacau e pasta de chocolate. 

música…

Gustavo Campos – A Dona Nena comenta que além do cacau, o açaí, o cupuaçu e a pupunha são plantadas na mesma lavoura. 

Camila Cunha – Esse tipo de plantio, que mistura espécies florestais e agrícolas, em um arranjo espacial e temporal único de sucessão das espécies, é chamado de Sistema Agroflorestal. Essa forma de manejo de espécies ajuda na preservação dos recursos naturais e no fortalecimento das comunidades locais em termos socioeconômicos. 

Gustavo Campos – E, para Dona Nena e outras 11 famílias… é sinônimo de sustentabilidade.

Idalto Pereira – Eu vim de Goiás para lá [São Félix do Xingu, Pará] devido a dificuldade financeira. Viemos em busca de oportunidade nova, no Pará. Aí chegando começamos a trabalhar errado por falta de formação. A gente chegou e queria derrubar a mata e criar gado. De início esse foi o que… Todos que vão para a Amazônia praticamente tem essa mesma história de fazer pasto e criar pecuária, só que com o tempo muda o cenário, o solo vai degradando.

Gustavo Campos – Você ouviu Idalto Pereira, produtor no município de São Félix do Xingu, situado no sudeste do Pará. Ele saiu de Goiás para trabalhar com pecuária e desmatou a floresta para abrir espaço para o pasto. A atividade não floresceu e aí apareceu o cacau…

Idalto Pereira – Depois de um certo tempo na propriedade vi que a renda familiar tinha diminuído. Tavamos tendo perda, deixando de ganhar dinheiro. O cacau veio como o carro-chefe na propriedade. A gente se inovou. A gente tinha muita área degradada e um dos focos era recuperar as nascentes e recuperar um pouco do que nós mesmo tínhamos estragado. Aí a gente pegou e viemos com cacau. Esse cacau nosso, ele é um cacau diferenciado e, mais, vamos pôr assim, mais dificultoso de se formar. Por se tratar de área degradada, a gente começou com o cacau em uma área que já não produzia nem mais pastagem. A gente teve que trabalhar a terra, plantar o milho e plantar banana, para poder recuperar um pouco do solo para entrar com cacau. E no meio do cacau a gente plantou as espécies nativas da própria Amazônia. A gente plantou no espaçamento de 18 por 18 para poder formar uma floresta nos próximos 10, 15 anos. Uma floresta por cima, para quem passava é uma floresta por cima, e por baixo, tem o cacau produzindo a fonte de renda da nossa família.

Gustavo Campos – As mudanças na atividade produtiva e na mentalidade do agricultor são resultado da sua participação no Projeto Cacau Floresta. Quem fala a seguir é Rodrigo Freire, vice-coordenador de Restauração da ONG The Nature Conservancy Brasil, que encabeça o projeto. 

Rodrigo Freire – O projeto surgiu em 2013 com a proposta de ajudar agricultores familiares no sudeste do Pará em São Félix do Xingu a melhor produzir cacau nas suas áreas. Uma boa parte deles já possuem plantio antigo de cacau, então a gente ajuda a melhor manejar o cacau, ter maior produtividade, manejo do solo, fertilidade, aumentando assim o manejo como poda, fertilização, controle de pragas, de fungos como vassoura-de-bruxa, podridão-parda que são as principais. Com isso o produtor melhora a produção dele nos plantios antigos e também a região é uma área dominada pela agropecuária, pecuária de corte com muitos espaços pouco produtivos e a gente ajuda também esses agricultores a transformar a parte desses espaços, na grande maioria já estão degradadas improdutivos, em novos plantios de cacau em sistemas agroflorestais. Sistemas agroflorestais na lógica de consorciamento de pés de cacau com pés de açaí, de mandioca, banana, milho, espécies florestais para sementes e madeira como a andiroba, mogno, ipê, jatobá numa lógica de substituir pasto pouco produtivo por uma agrofloresta biodiversa com cacau. Essa é a proposta do projeto: melhorar a renda do produtor, recuperar áreas degradadas e ajudar a evitar novos desmatamentos. A partir do momento que o produtor vê que ele pode ter uma vida melhor, uma renda melhor através de sistemas agroflorestais e recuperando áreas improdutivas do que fazer novos desmatamentos. 

Gustavo Campos – A engenheira florestal Thaís Maier, integrante do Projeto Cacau Floresta, esclarece como o projeto interliga diferentes atores: indústrias, governo, cooperativas, agricultores, suas famílias e a comunidade. 

Thaís Maier – Então a gente trabalha em parceria com as cooperativas locais. Elas por sua vez repassam às indústrias, que a gente tem parceria inclusive, que estão trabalhando para ter um cacau livre desmatamento, livre de trabalho infantil, porque como o cacau no mundo é muito atrelado a questão do desmatamento, trabalho infantil e trabalho escravo no Brasil. É uma oportunidade de ter uma fonte de matéria-prima para essas indústrias, essas empresas corporações, terem uma matéria-prima mais limpa, assim mais sustentável. Por isso, a nossa parceria com eles. Eles dão recursos para gente executar o projeto, a gente vai na ponta, ajuda os agricultores. É um arranjo institucional mesmo. A gente trabalha com a questão de treinamentos, visitas técnicas, numa série de eixos de ação do projeto para tomar escala. Hoje a gente está com 130 agricultores, sendo credenciados mais 120, o que vai resultar em 500 hectares de sistemas agroflorestais com cacau, são então 250 famílias. Também [temos] uma agenda que alia a questão da restauração ambiental e adequação ambiental da propriedade rural em relação ao Código Florestal e também a gente trabalha com agenda de gênero e juventude.

música…

Camila Cunha – As metas do projeto para 2020 são converter 1000 hectares em Sistemas Agroflorestais e 500 hectares em áreas de preservação permanente, além de capacitar 60 pessoas. O projeto Cacau Floresta vai muito além de ajudar agricultores familiares a melhorarem a gestão ambiental de suas propriedades. Temas transversais como trabalho infantil, juventude e inclusão da mulher na gestão da propriedade rural também estão na pauta. O resultado não poderia ser diferente. Escute o relato do Idalto. 

Idalto Pereira – Depois que a gente começou a fazer parte desse projeto Cacau Floresta as coisas só tem andado. Eu digo sempre foi uma luz que apareceu para nós porque todo mundo se empolgou. A minha esposa, ela faz a parte de gerenciamento de todos, desde pagar os funcionário. Tudo ela que faz. Quando a gente contrata alguém, compra de insumos, essa parte de pagamento ela que faz. E, na parte ambiental também nós conseguimos resgatar mais animais, porque tem uma parte de floresta preservada e muitos animais da floresta tão migrando para dentro do cacau. Para a gente que tem duas filhas, são crianças, elas se empolgam. Esses dias a gente tirou até foto de um bicho lá, de uma anta, dentro da propriedade. Para elas, elas encabularam, até assustaram, pensaram que era… mas isso não é bom,  isso é ótimo, não é bom não, é ótimo. Aí estão todos empolgados. Sem contar também que o meu filho. Ele estudou numa escola técnica que tem lá que chama Casa Familiar Rural, aprendeu bastante, conhecimento e trabalhamos juntos na propriedade. E o que eu tenho, a ganhar hoje principalmente, com o projeto é eu tá com a minha família toda reunida. Que lá tá: eu, minha esposa, minhas filhas, o meu filho, que já é de maior com a mulher dele, o neto. Nós estamos, todo mundo, trabalhando junto. Todo mundo se vê todo dia…

Gustavo Campos – Assim como Idalto, a família de Gustavo Sartori deixou Botucatu, no interior de São Paulo, para explorar a pecuária em Rondônia. Mesmo prosperando com a atividade, ele resolveu trabalhar com um produto típico da região. A escolha, claro, foi o cacau. Junto de um sócio, no município de Ouro Prêto do Oeste, em Rondônia, ele se tornou produtor de cacau e chocolateiro. 

Gustavo Sartori – A família minha quando veio para Rondônia, os pioneiros vieram com o objetivo de trabalhar na pecuária de corte. Trabalhar na pecuária de corte, quando me surgiu essa possibilidade a ideia era agregar valor a um produto da região, a um produto que valesse a pena trabalhar. Nisso surgiu a possibilidade do chocolate, o cacau um produto, uma matéria-prima é valiosa. Inclusive a origem do nome, né, o Theobroma, é o manjar dos deuses e então resolvemos trabalhar esse produto. A princípio a fazendinha tinha uma pequena plantação de cacau, algo em torno de um hectare nós começamos a implementar uma lavourinha de cacau e a trabalhar o projeto da fábrica. Nós chegamos à conclusão que não deveríamos plantar o total da lavoura, porque existe muita produção de cacau no interior do Estado. A região, hoje Rondônia é o terceiro maior produtor, embora Pará e Bahia são grandes produtores. Existe aqui uma produção de cacau já instalada de agricultores familiares e produtores que estão trabalhando com a qualidade do cacau. Aqui há quem diga que o cacau da Amazônia vai para outros estados e até mesmo para fora [do país] para fazer blend pela qualidade do cacau que se encontra aqui por dar um melhor ponto de chocolate, um chocolate mais frutado, com sabor um pouco mais agradável.

Gustavo Campos – O Gustavo [Sartori] também optou pelo Sistema Agroflorestal. Ele relata a experiência com o plantio de cacau.

Gustavo Sartori – Ele é feito onde era a princípio pastos, né? A gente vem plantando árvores de sombra, que são as árvores primárias e na sequência se planta o cacau e as árvores definitivas que vão fazer o sombreamento do cacau. Aqui no nosso, nós estamos reflorestando as áreas do cacau. Inclusive na propriedade existe uma APP que era uma nascente que já a tempo foi reflorestada e começou inclusive a produzir a água, não só cacau, mas também produziu a água. O que a gente planta integrado com cacau são árvores nativas. Tivemos um plantio o ano passado, mas devido à seca muito forte perdemos muitas árvores, devemos re-plantar esse ano de novo, mas a ideia é trabalhar com mogno, cerejeiras, é ipê, é árvores frutíferas integradas, como a jaqueira, manga, algumas árvores que também produz, produz alguns insetos, alguns, algumas moscas, uma mosquinha que ajuda na polinização do cacau. Então, tudo isso a gente está integrando para poder revitalizar a floresta. 

Camila Cunha – O Gustavo é zootecnista de formação e as dificuldades foram grandes para dominar um sistema de plantio diferente e os tratos culturais necessários ao cacau. Hoje com assistência técnica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), os erros iniciais foram corrigidos. O Gustavo identifica que os benefícios da adequação ambiental da propriedade vão muito além da produção de cacau. Tanto ele, quanto o Idalto, relataram a recuperação de nascentes em suas propriedades. 

música…

Camila Cunha – Hoje, a cacauicultura e a pecuária são as principais atividades que geram renda na região Amazônica, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de 2010 e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017. Daniel Braga, pesquisador da Universidade de São Paulo, atribui dois fatores como fundamentais para isso: as políticas públicas que atraíram tanto mão de obra como investimentos e a consolidação da cadeia de mercado. Mas… como essas atividades adquiriram tamanho destaque? Quem responde é o Daniel.

música…

Daniel Braga – Quanto o então Presidente General Médici anunciou a abertura da Rodovia Transamazônica em 1970, o cacau foi amplamente estimulado, com forte presença da CEPLAC, e ele era visto como um meio de vida capaz de promover a colonização daquela região, visto que tinha um bom retorno financeiro e era uma cultura perene, o que facilitava a permanência dos colonos ali naquela região. Mas, além disso, o plantio do cacau foi estimulado na região da Transamazônica também, porque haviam sido mapeados solos de alta fertilidade como a Terra Roxa, por exemplo. Então em 1976, o Governo Federal lançou o Plano para Expansão Nacional do Cacau, chamado PROCACAU. Nesse momento histórico, na década de 70, a história do cacau acabou convergindo com a história da pecuária naquela região do entorno da Rodovia Transamazônica. 

música…

Camila Cunha – A inauguração da Transamazônica, a maior rodovia do país, com mais de 5,600 Km, cortando os estados da Paraíba ao Amazonas, coincide com o boom do cacau no Sul Bahia e o fortalecimento da CEPLAC, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira. Juntas, essas mudanças impulsionaram a expansão das lavouras na região Amazônica. Após 10 anos da construção da rodovia, os objetivos traçados na Ditadura Militar de infraestrutura e de colonização não foram atingidos e a ausência do poder público, hospitais, escolas, saneamento básico, levaram a conflitos sociais e desmatamento. E aí entra a pecuária…

Daniel Braga – Nesse período o governo estava promovendo a colonização e o desenvolvimento rural a partir da introdução massiva da pecuária. E a pecuária serviu como principal estratégia para ocupação de grandes áreas nas regiões de fronteira agrícola da Amazônia como um todo. Foram criadas para isso diversas políticas de incentivos fiscais e facilidades de financiamento para atrair investidores. Por exemplo, os descontos tributários, redução de imposto para equipamentos importados, créditos rurais subsidiados e outros fomentos, como o próprio Programa Nacional de Desenvolvimento da Pecuária (o PROPEC). E, além de demandar pouca mão de obra, devido ao baixo custo das terras da região Amazônica, iniciou-se um processo de especulação fundiária por meio da formação de pastagens, um processo que perdura até os dias de hoje. Ao longo do tempo, a pecuária foi se consolidando no território amazônico. Isso junto com a evolução das tecnologias para essa atividade. Então facilidades industriais, a expansão da quantidade de matadouros e de infraestrutura pública básica, acesso à energia, estradas, água. Enfim, o crescimento do rebanho bovino na Amazônia Legal aconteceu de forma exponencial. No começo de 1970, por exemplo, havia cerca de 1,5 milhões de cabeças de gado na Amazônia Legal e isso aumentou para mais de 85 milhões no ano de 2017. Para você ter uma ideia esse número, de 85 milhões, equivale a 4 vezes a população humana no mesmo território da Amazônia Legal. Esse número representa cerca de 40% do rebanho bovino nacional. 

Camila Cunha – No doutorado, o Daniel se perguntou quão bem vivem os agricultores familiares da Amazônia e comparou as duas atividades: cacauicultura e pecuária. Os resultados indicam que os produtores de cacau em Sistemas Agroflorestais são tão bem-sucedidos quanto os produtores de gado. 

Daniel Braga – Nós fomos a campo levantar informações com base na realidade atual, considerando pequenos agricultores familiares com áreas de cacau e/ou gado já formadas, com mais de 8 anos de idade. O que nós encontramos naquelas diversas realidades é que o cacau se encontra predominantemente em áreas de solos mais férteis, enquanto a pecuária ocupa áreas de solos mais pobre no geral. Esse fato pode ser fundamentado a partir de literaturas que também descrevem o cacau como uma planta sensível no seu manejo, que prefere solos mais férteis e que a pecuária já se permite o desenvolvimento em condições menos favoráveis de solo. Em relação aos resultados do nosso estudo é que os produtores de cacau podem ser tão bem-sucedidos, quanto os pecuaristas. Então, o status social de produtor bem-sucedido, ele poderia também ser aferido aos produtores de cacau, que também conseguem alcançar bons níveis de bem-estar econômico tanto quanto os pecuaristas. 

Camila Cunha – O interessante do estudo é que o cacau foi capaz de gerar uma renda pelo menos seis vezes maior que o gado para a mesma área e preservou mais vegetação nativa. Quando as famílias adotaram ambos, cacau e gado, a chance de sucesso aumentou. Mas o desmatamento também. 

Daniel Braga – Os produtores de cacau, em média, tem uma propriedade de 52 hectares e conservam 47% da cobertura florestal original; os produtores de gado tem propriedades com 130 hectares e conservam cerca de 36% de floresta. Então, o que a gente tem como resultado é que em média os produtores que trabalham somente com cacau tendem a conservar um pouco mais de floresta do que os outros produtores do nosso estudo. Visto que quando se tem cacau e gado na mesma propriedade as famílias costumam ter propriedades com cerca de 90 hectares em uma área de cobertura florestal ainda menor de 31%.

Gustavo Campos – E, quanto a nossa pergunta inicial… Como então o plantio de cacau pode ajudar a resolver questões ambientais urgentes, como desmatamento, perda de biodiversidade, conservação do solo e qualidade de vida? 

Daniel Braga – Do meu ponto de vista o cacau já ajuda a conservar a floresta desde que o produtor tenha o bom senso de não avançar sobre suas reservas. Na verdade, isso acontece em diversas situações, mas já é uma questão de fiscalização e de falta de governança. Bem, o primeiro ponto sobre essa visão de que o cacau ajuda conservar as florestas é o simples fato de o cacau ser uma cultura rentável e ocupar áreas de terra menores do que a pecuária, que seria no caso a primeira opção alternativa, nessas situações. Outro ponto é que o cacau é plantado em sua maioria em Sistemas Agroflorestais, com espécies arbóreas nativas, que fazem o sombreamento das lavouras. Dessa forma é possível preservar os recursos genéticos das espécies florestais, bem como manter um fluxo gênico de outras espécies da fauna e da flora, obtendo-se corredores ecológicos em escala de paisagem, como acontece em Medicilândia, por exemplo. Além disso, o cacau em Sistema Agroflorestal provê diversos serviços ambientais, como a manutenção de polinizadores, o estoque de carbono, a proteção do solo, dos recursos hídricos e vários outros. 

música…

Camila Cunha – Os Sistemas Agroflorestais, principalmente em regiões da Amazônia, aparecem como a melhor alternativa para aumentar a renda familiar e a qualidade de vida das comunidades em zonas rurais. Isso por causa da diversificação da produção, com a inclusão de espécies nativas mais bem adaptadas às condições locais.   

Daniel Braga – O Brasil é um país essencialmente florestal, mais de 50% do território é coberto por florestas, detém a Amazônia, que é um dos maiores contínuos florestais do mundo, com uma das maiores biodiversidades também, que podem ser utilizadas dentro do seu potencial biotecnológico, também um país produtor de madeira tropical um dos últimos países que ainda detém esse recurso em abundância e também os próprios produtos florestais não madeireiros. O Brasil tem tratado de maneira muito negligente o uso das florestas e a própria forma de fazer agricultura em si. Não tem colocado essa questão como parte da agricultura. Então, seria uma questão mesmo de mudança cultural. Onde o agricultor fosse visto também como o manejador florestal.

música…

Camila Cunha – A fala do Idalto, que escutamos no início do episódio, ilustra bem a mudança cultural: de pecuarista, ele se tornou um manejador florestal. O Daniel relembra que “muitas vezes tudo que os produtores têm é a terra e o tempo de mão de obra” e fazer a transição para um novo meio de vida é um grande desafio. Alinhar a capacidade de investimento, a aptidão, a aquisição de novos conhecimentos pelo agricultor com segurança e estabilidade financeira é essencial. O Daniel aponta ainda outros desafios…

Daniel Braga – Então como fazer essa transição? Os produtores, normalmente, não estão acostumados a fazer o manejo das árvores. Então, eles seguem com rigor, muitas vezes, o manejo agrícola das suas culturas, mas não fazem manejo das árvores, não fazem o manejo de poda, não introduzem árvores, retiram árvores, manejo da biomassa, enfim. Então esse é um ponto chave para que se tenha essa transição do convencional para os Sistemas Agroflorestais. Outro ponto, seria mais uma questão de desenvolvimento de tecnologias agroflorestais mais adequadas para cada região. Claro, que não vai haver um único modelo empregado amplamente no Brasil todo, mas os Sistemas Agroflorestais, eles propiciam uma diversidade extremamente grande, até imensurável, de oportunidades, de opções de combinações entre as espécies. Só que para isso ainda precisa de muito investimento em pesquisa, em ciência, e também capacitação técnica, aproveitando o conhecimento já existente nas localidades, que muitas vezes é ignorado. E, por fim, importante nessa transição entre sistemas produtivos convencionais e Sistemas Agroflorestais seria o próprio estabelecimento de cadeias de mercado consolidadas para absorver os produtos diversos. Então, se tivesse um mercado, mercados preparados, consolidados, as cadeias bem formadas, o produtor se sentiria mais seguro em ter essas espécies nos seus sistemas produtivos. Então, essa parte de consolidação dos mercados, ela é fundamental. Somente a partir dela é que se pode vislumbrar o desenvolvimento dessas tecnologias. 

Camila Cunha – O desenvolvimento de mercados também passa pelo paladar. Conhecer frutas exóticas e valorizar sabores únicos passa por transformações culturais, acesso à informação e pela demanda por novas experiências em voga pelos novos consumidores que veem comida como saúde e entretenimento. Hoje tem cada vez mais espaço nas prateleiras para os produtos ditos saudáveis, orgânicos e sustentáveis, com baixo teor de açúcar, sal e gorduras. O setor de alimentos está se reinventando e os produtos estão cada vez mais de nicho. 

Gustavo Sartori – O que a gente tá acostumado a ver e saborear nas ruas aí, nos mercados, é mais doce, né, teor baixo de cacau e muito açúcar. Quando você começa a trabalhar com chocolate um pouco mais intenso, não é com qualquer amêndoa que se produz então nós trabalhamos a qualidade do cacau e da amêndoa para produzir. Existe um padrão que é seguido, que paga-se por amêndoas superior, superior tipo um, tipo dois, tipo três, amêndoa comum. Os órgãos que compram, as empresas que compram, já seguem esse mesmo padrão. O que eu faço é pagar um diferencial para o produtor. O chocolate Awiina, o produtor que se dedicar a fazer um bom produto, uma boa fermentação, uma boa secagem, um produto com qualidade ele chega a receber 100% em cima do valor do cacau. Então, nós chegamos a pagar R$ 20 o quilo do cacau, enquanto no mercado tava circulando a R$ 10 aqui, é um incentivo para o produtor trabalhar um pouco mais a qualidade, que o grande segredo do cacau não é só o plantio todo né é após a colheita, existem macetes, que se o produtor trabalhar com qualidade a gente consegue produzir um chocolate gourmet e mais intenso.

Camila Cunha – Quem fala é o Gustavo. O paladar brasileiro é doce. Por aqui, chocolate tem que ter no mínimo 25% de cacau. Para outros países o valor é maior, gira em torno de 33%. Chocolates amargos, feitos sem leite, demandam melhores amêndoas. Eles trazem mais benefícios à saúde e fazem bem para a cacauicultura nacional.

Gustavo Sartori – Acreditamos que a amêndoa da região é uma amêndoa de qualidade superior. A gente tem degustado bastante chocolate de vários regiões do Brasil e do mundo, inclusive, e a gente percebe uma qualidade no chocolate daqui. Não só o produzido por nós, mas alguns artesanais que tem também, amêndoas que nós levamos lá fora para produzir, ela dá uma qualidade superior. A nossa ideia é agregar valor aqui, que os produtores se incentivem em produzir em trazer mais Indústrias para cá, né? Porque hoje nós estamos com o Awiina agregando um pequeno percentual da produção. Seria ótimo para o Estado, para a economia da Região, para a preservação do meio ambiente, se toda esse cacau e essa amêndoa fosse processado na região e saísse na forma de chocolate. Somos moradores da Amazônia temos que ser defensores da Amazônia e preservá-la e com cacau a gente consegue fazer isso, agregar valor e poder dar renda ao produtor. Se nós conseguimos produzir um produto, que agregue valor e consiga vender por um valor maior para o consumidor final, sem os atravessadores, que vem aqui muitas vezes pegar o nosso produto e agregar valor em cima dele, eu acho que estamos no caminho certo. O objetivo não é só produzir chocolate, é ajudar a desenvolver a região, ajudar a preservar a região e ajudar a mostrar o que nós temos de bom no nosso Estado para todo mundo. 

música….

Gustavo Campos – A produção e o roteiro desse delicioso episódio são da Camila Cunha. O programa foi apresentado por nós: Gustavo Campos e…

Camila Cunha – Camila Cunha. As entrevistas foram feitas por Luciana Rathsam, Oscar Freitas Neto e Camila Cunha. A revisão do roteiro é de Natália Flores e Allison Almeida. A coordenação da professora Simone Pallone, do Labjor e os trabalhos técnicos de Gustavo Campos, e Octávio Augusto, da Rádio Unicamp.  

Gustavo Campos – Para quem quiser saber mais sobre o assunto deixamos no site algumas referências que usamos para fazer o programa.

 Camila Cunha – Gostou do programa? Você pode nos seguir no Facebook (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento), no Instagram (@oxigeniopodcast) e no Twitter (@oxigenio_news). Me conta o que você achou do programa. Deixe sua crítica ou comentário na plataforma que ouve o podcast. Até o próximo episódio!

música…

vinheta de fechamento.

 

Créditos:

Efeito sonoro especial:

Brazil – Oropendola Weaver Birds, Amazonas” de Tim Lewis

A gravação foi feita durante trabalho realizado para o projeto “If Not Us Then Who?” (“Se Não Nós, Então Quem?”, tradução), que observa populações indígenas e seu papel na preservação dos habitat naturais remanescentes. 

Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.

Nota: Autorização de uso do efeito sonoro cedida pelo autor Tim Lewis via e-mail. 

Crédito das trilhas e efeitos sonoros:

Small Stream Flowing, Walking in Forest, Wind in Pine Trees, Wholesome de Kevin MacLeod, Rainbow Forest e Green Forest.

Nota: Todas as músicas estão disponíveis na Biblioteca de Áudio do YouTube

Crédito de vídeo usado no teaser:

Canal do YouTube e Blog Meu Terroir de Paula Theotonio.

YouTube: “Bate-papo com Dona Nena | Chocolate do Combu, Pará

Crédito de imagem:

Foto de Camila Cunha e edição de Luísa Kanashiro.

Material extra para os curiosos:

[1] FOUNTAIN, A.; HUETZ-ADAMS, F. Cocoa Barometer 2018. Leiden: VOICE Network, 2018. Para ler, clique aqui.

[2] DIAS, J. C. O trabalho infantil nos principais grupamentos de atividades econômicas do Brasil. Brasília: FNPETI, 2016. Para ler, clique aqui.  

Nota: Luciana Rathsam entrevistou a Dona Nena; Oscar Freitas Neto, o Idalto Pereira, o Rodrigo Freire e a Thaís Maier; e Camila Cunha, o Gustavo Sartori e o Daniel Braga. 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *