50 anos do uso de agrotóxicos em Santa Catarina

Diversos são os estudos científicos sobre risco à saúde humana e ao meio ambiente causado pelo uso de agrotóxicos em diferentes sistemas agrícolas ao redor do mundo. Diversas também são as iniciativas e campanhas de combate ao uso em larga escala de tais produtos. Muitas delas propõem sistemas agroecológicos, ou seja, sistema agrícola no qual não é utilizado nenhum tipo de agrotóxico.

Se hoje o Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, as políticas públicas e o próprio sistema regulatório nacional têm participação no processo de implementação dessas substâncias e na aprovação de novos agrotóxicos. O consumo por área plantada no Brasil dobrou entre os anos de 2000 e 2012, conforme dados dos Indicadores de Desenvolvimento Sustentável Brasil, o IDS, ligado ao IBGE.

Essas reflexões estão no artigo “‘Defensivos’ ou ‘agrotóxicos’? História do uso e da percepção dos agrotóxicos no estado de Santa Catarina, Brasil, 1950-2002”, de Miguel de Carvalho, Eunice Nodari e Rubens Nodari. Esse artigo publicado na revista História, Ciência, Saúde – Manguinhos.

Ele traz um panorama de 50 anos do uso de agrotóxicos em Santa Catarina, em uma contextualização histórica no cenário nacional, abordando temas como a crise econômica e a emergência e popularização do ambientalismo em 1980.

A análise dos autores parte das vivências, das experiências e das práticas de agricultores e técnicos. Narrativas de casos de intoxicação por partes desses profissionais do campo norteiam as reflexões sobre a percepção do uso de agrotóxicos.

Sobre isso, os autores pontuam que, ver o aumento da preocupação com os agrotóxicos no país apenas como um reflexo da popularização do movimento ambientalista, seria não dar o devido olhar para essas experiências de intoxicação. A causa de tais intoxicações pode ser justificada pela negligência desses profissionais quanto às medidas de segurança, mas ela se dá principalmente pela falta de campanhas promovidas tantos pelos governos quanto pela indústria dos agrotóxicos. Para os autores, não foi considerado o perfil do agricultor, daquele que aplicaria o agrotóxico na colheita, por vezes analfabeto e/ou sem acesso a equipamentos de proteção.

O contexto ideológico das décadas de 1950, 1960 e 1970 foi favorável à implementação de políticas para a inserção dos agrotóxicos na agricultura. O Brasil adentrava na esteira da modernização agrícola, e a chamada Revolução Verde trazia para o país um discurso otimista sobre os agrotóxicos.

Os avanços tecnológicos traziam soluções para erradicar as pragas, responsáveis por doenças ou por prejudicarem as lavouras e as criações. A “era de ouro” dos agrotóxicos entre 1950 e 1980 integrava um pacote de modernização interligado a uma série de tecnologias agrícolas, como fertilizantes sintéticos, calcário, tratores, sementes certificadas e demais implementos agrícolas.

O Brasil investiu seriamente em uma campanha para promover o uso de tais tecnologias entre os agricultores. Métodos de extensão rural foram importados dos Estados Unidos. Escritórios de assistência técnica foram criados a partir de 1950, com um efetivo de técnicos agrícolas, engenheiros, agrônomos, veterinários e economistas domésticos.

Mas, a partir de 1980, começaram a intensificar os debates sobre os efeitos nocivos dos agrotóxicos em relação aos alimentos produzidos e à saúde da população, agricultores ou consumidores.

As ideias ambientalistas tomavam força no país. Foram implementadas legislações e órgãos ambientais, assim como centros de informações toxicológicas. Data de 1985, a criação do Ministério do Desenvolvimento Urbano e do Meio Ambiente, hoje Ministério do Meio Ambiente.

O discurso de benefícios trazidos pelo uso de agrotóxicos propagandeados pelas indústrias passou a se contradizer quando foi descoberto o quanto algumas substâncias são comprovadamente prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente. O inseticida Aldrin, por exemplo, bastante utilizado e difundido, foi proibido no Brasil a partir de 1985, mas ele não foi totalmente abandonado na prática. Essa foi uma proibição tardia se comparada com vários países, nos quais ocorreu já na década de 1970.

Outra reflexão do artigo é sobre as graves consequências sociais decorrentes do uso em larga escala de agrotóxicos. Por conta da contaminação de determinadas áreas, a qualidade de vida de famílias rurais é afetada, o que provoca um êxodo da população mais carente em direção às grandes cidades. Logo, os bolsões de pobreza em zonas urbanas aumentam.

Contudo, apesar da crescente preocupação sobre o uso de agrotóxicos e a intensificação dos debates que exigem legislações mais rígidas, o uso permanece vertiginoso com elevados índices de intoxicação, inclusive de mortes.

Para Miguel, Eunice e Rubens, tanto a indústria como parte da comunidade científica, junto ao governo, são os principais responsáveis por esse cenário. Justificativas como a necessidade de tais substâncias para garantir alimentos para a população mundial ou para baratear os alimentos minimizam o real risco do consumo de agrotóxicos.

Confira, em nosso site ou na página do Facebook, o link para o artigo ‘“Defensivos’ ou ‘agrotóxicos’? História do uso e da percepção dos agrotóxicos no estado de Santa Catarina, Brasil, 1950-2002”: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702017000100075&lng
=pt&nrm=iso&tlng=pt&ORIGINALLANG=pt

Matéria de Carol Gama.

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