14º Semana Nacional de Ciência e Tecnologia

‘A matemática está em tudo’. Esse é o tema que conduz a 14º Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que ocorrerá entre vinte e três e vinte e nove de outubro deste ano. Serão promovidas diversas atividades espalhadas por todo o brasil, tendo em vista a divulgação e a popularização dessa área do conhecimento.

Indo além das equações, o tema permite falar de várias relações possíveis entre a matemática e a arte, os astros, o meio ambiente, a cultura e tantos outros assuntos. O homenageado do ano é Jacob Palis, professor titular do instituto de matemática pura e aplicada, o impa, desde mil novecentos e sessenta e oito. Ele já foi diretor do instituto e presidiu a academia brasileira de ciências, a academia de ciências para o mundo em desenvolvimento e a união internacional de matemática.

A semana nacional de ciência e tecnologia é realizada anualmente desde dois mil e quatro, sob coordenação do ministério da ciência, tecnologia, inovações e comunicações. O evento, promovido sempre em outubro, conta com a colaboração de secretarias estaduais e municipais, agências de fomento, museus, espaços culturais, instituições de ensino e pesquisa, escolas, empresas, entre outras entidades.

O objetivo é aproximar a população da ciência e da tecnologia, assim como de seus impactos e aplicações. Desta forma, pessoas de diferentes idades e origens têm a oportunidade de aprender, se informar, experimentar e debater assuntos de grande relevância para o desenvolvimento do brasil. Eventos como esse vêm sendo promovidos em países da europa e das américas desde a década de mil novecentos e oitenta, com destaque para Portugal, Reino Unido, França, México, estados unidos, argentina e chile.

No brasil, a semana conta com coordenadores locais em cada estado, que ficam responsáveis por capilarizar as atividades e fazer com que cada vez mais pessoas sejam alcançadas por elas. Uma das formas de levar a ciência e a tecnologia a diferentes regiões é através de ações itinerantes, como faz o laboratório de divulgação científica ilha da ciência, na universidade federal do maranhão. Abordo do Ciência Móvel, a equipe do laboratório percorre diferentes municípios do maranhão durante a semana nacional, transformando a ciência e a tecnologia em momentos lúdicos, como conta o professor Antônio Oliveira, coordenador da semana no estado do maranhão e da ilha da ciência.

“O ilha da ciência é um laboratório interativo, de divulgação de ciência, ele tem o seu espaço, tem vários experimentos, eles são confeccionados aqui mesmo na universidade federal do maranhão, temos uma oficina mecânica que confecciona esses experimentos. E a ideia é tornar a ciência de forma lúdica e de uma maneira acessível a todos. E dentro da ciência móvel nós levamos o experimento, nós temos um planetário inflável, móvel, para ensino de astronomia e nós temos três telescópios que nós colocamos para observação de astros”.

Para Antônio Oliveira, a grande missão da semana é alcançar comunidades que nunca tiveram a chance de conhecer um museu de ciência ou mesmo uma universidade. Assim, é possível até mesmo despertar o interesse de futuros cientistas.

“Em relação a qualquer outro país ainda é muito pouco nós dedicarmos só uma semana para a ciência e tecnologia. Mas eu acho que nós estamos no caminho certo. A semana tem tido uma adesão de vários estados, vários municípios, e temos tido um público cada vez maior em termos de atividades realizadas para o público em geral”.

É o que pensa também a professora Lenilda Austrilino, coordenadora da semana no estado de Alagoas. Para ela, a variação anual do tema permite uma integração entre diferentes áreas do conhecimento, o que é enriquecedor não apenas para o público, mas também para a produção científica e tecnológica.

“A minha experiência aqui em alagoas, eu acredito que a gente teve experiências muito exitosas. Não só olhando os números – que a gente vê crescendo, de número de atividades, o número de instituições que estão se inscrevendo, as pessoas participando dos eventos. Isso indica que nós divulgadores da ciência estamos atingindo a nossa meta”.

A professora Lenilda Austrilino ainda coordena a caravana itinerante de ciência e tecnologia de alagoas. Durante a semana nacional, a caravana leva oficinas e shows científicos relacionados ao tema do ano para diversas comunidades alagoanas. A equipe, composta de cerca de quarenta pessoas, passa anualmente por cinco cidades do interior do estado.

“A gente sempre faz o evento numa escola. Nós não usamos outro espaço físico para fazer. Nós já tentamos, e a gente já aprendeu que o melhor lugar para fazer esse evento é na escola”.

Para este ano, a caravana itinerante está preparando atividades que combinam a matemática a assuntos como moda, artesanato e corpo.

Ambos os coordenadores regionais da semana nacional de ciência e tecnologia entrevistados nesta reportagem, Lenilda Austrilino e Antônio Oliveira, afirmam que a escassez de recursos é um dos principais desafios na hora de planejar e executar as atividades. O problema piora ainda mais no atual cenário brasileiro, visto que o orçamento destinado pelo governo federal à ciência e à tecnologia tem sofrido grandes cortes.

No entanto, outros fatores podem atrapalhar ou impedir que a semana nacional cumpra seu papel de maneira efetiva, fazendo com que os cidadãos não só recebam informações sobre ciência, mas compreendam a produção científica de forma completa e sejam estimulados a participar de tomadas de decisões referentes ao tema.

A falta de abordagens desse tipo durante a semana nacional de ciência e tecnologia é uma das críticas feitas pelo pesquisador Felipe Fiani em sua dissertação de mestrado na área de educação para a ciência, defendida na Unesp, em dois mil e quinze. A pesquisa resultou em uma análise crítica do evento, tendo como foco as atividades realizadas no estado de São Paulo durante a edição de dois mil e treze.

“Ao analisarmos, por exemplo, os resumos das atividades realizadas no estado de São Paulo na semana nacional de ciência e tecnologia de 2013, os dados sugerem que menos de 5% das atividades fazem referência aos impactos sociais ou ambientais da ciência e tecnologia. Acreditamos que haverá uma melhora na contribuição da semana nacional de ciência e tecnologia se também forem incentivadas atividades que possam discutir o papel da ciência na sociedade, como a ciência é produzida e financiada, quais são os impactos das descobertas científicas e tecnológicas, como é o trabalho do profissional de ciência, etc”.

O pesquisador também verificou que a maior parte das atividades era composta por palestras, oficinas e feiras de ciência, ações que promovem uma divulgação científica unilateral, ou seja, indo do cientista até a população leiga. Na visão de Felipe Fiani, atividades como essa pouco estimulam a participação e a reflexão crítica do público.

“Acreditamos também que deve ser incentivado o debate entre cidadãos comuns e especialistas ou pesquisadores, não no sentido unilateral, mas viabilizando a troca de informações, uma forma incentivadora na compreensão do trabalho dos cientistas e do desenvolvimento da ciência. O contato com cientistas pode ser fundamental para desmistificação do cientista, para a quebra da visão que sustenta a neutralidade da ciência ou a existência de um único e imutável método científico”.

O pesquisador Felipe Fiani ainda sugere que os governos e instituições de pesquisa levem em conta outros modelos de atividades que podem ser oferecidos ao público, de forma a englobar as dimensões políticas, legais, éticas e sociais da ciência e da tecnologia.  

“O promotor deve levar em consideração que há diversas formas de comunicação e de engajamento do público descritos na literatura. Formatos como painéis de cidadãos, júris de cidadãos e conferência de consenso, são praticamente ausentes no brasil”.

A semana nacional de ciência e tecnologia também foi tema do mestrado da pesquisadora Iara Vasconcellos, defendido na área de ensino de ciências na USP, em dois mil e quinze. O trabalho analisou as atividades realizadas pela USP durante a semana nacional de dois mil e treze, passando pela estruturação e execução das ações até a interação estabelecida entre os expositores e o público.

Para a pesquisadora, o trabalho permitiu verificar a importância da semana nacional como espaço de diálogo entre a instituição de pesquisa e a população. Entretanto, ela avalia que é preciso constantemente pensar e repensar quais são de fato os objetivos do evento.  

“Se formos pensar sobre divulgação da ciência, existem diferentes correntes sobre o que se acredita que se deve ser feito. Existem pessoas que acreditam que divulgar ciência é complementar a formação que está sendo dada em sala de aula, por exemplo. Existem pessoas que acreditam que divulgar a ciência é ajudar numa formação crítica para que esse cidadão ele possa se apoderar dessas informações e construir junto aos cientistas a ciência que está sendo desenvolvida no momento”.

Apesar dos pontos a serem melhorados, Iara Vasconcellos afirma que a semana nacional é fundamental para que a ciência seja compreendida tanto em seus resultados como em seus processos.

“Se você pensar que os dados do censo sobre ciência e tecnologia do ministério de ciência, tecnologia, inovação e comunicações dos anos anteriores demonstram que o brasileiro tem uma visão muito positiva da ciência como um todo, mas que ao mesmo tempo ele não conhece as próprias instituições brasileiras e as pesquisas desenvolvidas no brasil, você que um espaço como a semana ele supre essa lacuna na formação do brasileiro”.

E para ficar por dentro da programação da décima quarta semana nacional de ciência e tecnologia, acompanhe o site snct.mctic.gov.br e a página facebook.com/semananacionalct.

Matéria de Beatriz Guimarães

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