#109 – Leitura de fôlego 1 – Livro licencioso = Leitura proibida

Este é o primeiro episódio da Leitura de fôlego, uma nova série de podcasts do Oxigênio, que apresenta temas de pesquisas de professores do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp. E começamos contando aqui sobre os livros ou romances licenciosos, que por seu teor tinham que circular de forma clandestina não só no Brasil, mas também em Portugal e França, por exemplo. Isso nos séculos XVII e XIX. Esses livros foram tema de pesquisa da Márcia Abreu, professora do IEL e que atualmente é também diretora executiva da Editora da Unicamp. Vamos ouvir sobre as características desses livros, porque eles eram proibidos e o que faziam os livreiros e leitores para ter acesso e distribuir esses romances naquela época. Quem está a frente deste projeto é a Laís Toledo, com supervisão e edição de Simone Pallone e trabalhos técnicos de Gustavo Campos e do Octávio Augusto Fonseca. Quem ajuda na divulgação do podcast é a Helena Ansani Nogueira. Vamos ao episódio, que é o número 109 do Oxigênio.

Roteiro:

Márcia Abreu (MA): Ter um livro licencioso em casa, ou vender um livro licencioso, naquela época, era tão perigoso como hoje seria vender droga pesada.

Laís Toledo (L): Devasso, libertino, desregrado, impudico, libidinoso, lascivo, indecente… Esses são alguns sinônimos para a palavra “licencioso”. Mas, afinal, o que é um livro licencioso? Por que era tão perigoso ler ou vender um livro desses no Brasil dos séculos XVIII e XIX? Como a censura de livros agia por aqui nessa época? O episódio de hoje trata de questões como essas. Quem conversa com a gente é a Márcia Azevedo de Abreu, professora e pesquisadora do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, da Unicamp. A Márcia tem desenvolvido pesquisas principalmente nas áreas de História do Livro e da Leitura e História da Literatura. Além disso, hoje em dia, ela também é Diretora Executiva da Editora da Unicamp.

L: Eu sou a Laís Toledo, e esse é um episódio da “Leitura de fôlego”, uma série sobre Literatura pro podcast Oxigênio.

Pra começar a conversa, eu pedi pra Márcia explicar o que é um romance licencioso.

MA: Um romance licencioso era um tipo de narrativa, que misturava cenas de sexo, ou um enredo sobre sexo, com discussões filosóficas sobre religião, sobre a natureza. Não a natureza assim das plantas, a natureza num sentido amplo, como o funcionamento dos corpos, as diferenças entre as culturas e também sobre as questões de poder. Um exemplo clássico de livro licencioso é o Teresa filósofa. Nesse livro, tem um enredo amplo, que é a trajetória dessa moça chamada Teresa, e ela vai se defrontando com várias situações em que ocorrem cenas de sexo, mas a cada cena de sexo tem uma discussão, sobre uma questão de moral ou sobre o comportamento da igreja, ou sobre uma questão filosófica. Acabada essa discussão, volta a ter uma cena, um encontro sexual de algum tipo. 

L: Vamos ouvir um trechinho do começo do livro Teresa filósofa, quando a narradora, a Teresa, aceita contar a história dela e diz que não vai esconder nada. A edição que eu tenho aqui é da editora L&PM, que tem tradução para o português da Carlota Gomes e um prefácio do filósofo Renato Janine Ribeiro. 

Thais Oliveira: “O quê, Senhor! Seriamente, quereis que escreva minha história […] Na verdade, caro Conde, isso parece estar acima de minhas forças. […] Mas se o exemplo, dizeis, e o raciocínio fizeram a vossa felicidade, por que não tentar contribuir para a dos outros pelas mesmas vias, pelo exemplo e pelo raciocínio? Por que temer escrever verdades úteis ao bem da sociedade? Pois bem, meu caro benfeitor! Não vou mais resistir! Escrevamos! […] Não, vossa tenra Teresa jamais vos responderá por uma recusa, vereis todos os recônditos do seu coração desde a mais tenra infância, a sua alma vai se revelar inteiramente nos detalhes das pequenas aventuras que, sem que percebesse, a conduziram, passo a passo, ao auge da volúpia.” 

L: Ah, o Teresa filósofa foi publicado pela primeira vez em francês, provavelmente em 1748, e existia uma controvérsia sobre a sua autoria. Mas, hoje em dia, é forte a ideia de que o livro foi escrito por Jean-Baptiste de Boyer, o Marquês d’Argens. Bom, esse é um exemplo de livro licencioso, mas existem outros que seguem modelos um pouco diferentes. 

MA: Tem alguns romances, que são mais focados na narrativa do sexo mesmo, como um que chama História de Saturnino, porteiro dos frades bentos. Esse, tem mais enredo e menos discurso, do que a Teresa filósofa. E, pelo título, já dá pra ver que o centro da discussão é o comportamento dos religiosos. Esse tema era muito frequente nos romances licenciosos. Eles ou se passavam ou dentro de conventos, monastérios, ou eles envolviam cenas de sexo com padres, abades, com as altas hierarquias da igreja. E tinha muito essa questão de apresentar os conventos como um lugar de devassidão, e não de religião ou de moral. Nesse caso, o ataque à igreja, à instituição da igreja, vinha pela apresentação do comportamento devasso, dos padres e das freiras. E, em outros casos também, o ataque à igreja ou à monarquia, vinha pela conversa entre as personagens, ou por comentários do narrador, sobre política, sobre religião, sobre moral. Então, pra resumir, o romance licencioso era uma narrativa, que ligava a ideia de livre reflexão com um enredo que tinha como tema central o sexo. 

L: A Márcia desenvolveu uma pesquisa relacionada aos romances licenciosos que teve um recorte de tempo e de espaço: ela se dedicou a estudar romances desse tipo que circularam no Brasil e em Portugal no século 18 e início do 19. Os livros licenciosos preocuparam muitos letrados dessa época. Essa categoria, “letrados”, entre aspas, inclui médicos, religiosos, filósofos e censores, por exemplo. Eles se perguntavam coisas do tipo: o que acontece quando alguém lê? Quais impactos esses livros têm sobre a moral dos leitores? A leitura leva a que tipo de ação? Ela pode provocar alterações no corpo do leitor? Eu pedi pra Márcia explicar um pouco das preocupações desses letrados. 

MA: A preocupação desses letrados, do século XVIII, do século XIX, começa com o romance em geral. Não só com os romances licenciosos, com o gênero romanesco. A maior parte deles achava que ler romance era um problema, e dá pra estabelecer tipo 3 categorias de problema que eles encontravam. 

L: A primeira categoria: perda de tempo.

MA: O romance era um problema, porque levava à perda de tempo. Eles achavam que o tempo que a gente tem na vida na Terra tem que ser usado com coisas úteis que levem à nossa salvação na vida eterna. Essa era uma questão mais ligada aos religiosos. Tem até um que fala uma coisa engraçada, que ele disse assim: “Se Jesus Cristo voltasse à Terra, batesse na porta de uma pessoa hoje em dia, ela não ia atender, porque ela estava entretida lendo um romance.”. E com isso ela ia perder a chance da salvação eterna. Os mais eruditos também viam ali uma perda de tempo, porque eles pensavam que todo o seu tempo útil devia ser destinado à obtenção de conhecimento, ao aprendizado, ao estudo.

L: Segunda categoria: corromper ou estragar o gosto.

MA: Outros, esses são mais os letrados ligados à área das letras, da literatura, achavam que o romance corrompia o gosto das pessoas. Eles faziam um grande esforço, nas escolas, pra que as pessoas compreendessem os procedimentos, os ditames da retórica e da poética. E ler, naquele tempo, era verificar quão bem alguém teria posto em prática aqueles preceitos. Essa era a ideia da boa leitura.

L: E terceira categoria: problema para a moral.

MA: Muitos viam também um problema pra moral. Esse era o problema mais geral, visto por todo mundo: pais de família, letrados, religiosos… E isso é porque eles achavam que os romances, em geral, mostravam a vida de pessoas que faziam coisas erradas. Mostrar as coisas erradas já seria um problema, mas o jeito envolvente de narrar, a maneira como a narrativa era construída, a maneira como as personagens eram construídas, fazia com que o leitor se identificasse com essas personagens erradas, que o leitor gostasse delas. E, eventualmente, entendesse ou desculpasse os erros que ela cometeu. Então, isso parecia um mau exemplo pra essas pessoas que se opunham ao romance. 

L: Em relação a esse suposto problema pra moral, a nossa entrevistada citou como exemplo um romance do escritor inglês Daniel Defoe, que ficou famoso pelo livro Robinson Crusoé. O exemplo que a Márcia deu foi de outro livro desse escritor: o romance Moll Flanders, publicado em 1722. Esse livro tem um subtítulo enorme, que é quase um resumo da narrativa e que apresenta os problemas, ou melhor o que os analistas da época achavam que eram problemas, da vida da personagem principal, a Moll. 

MA: Eu gosto de falar desse romance, porque o subtítulo dele já explica tudo. Olha como é o subtítulo: “as aventuras e desventuras da famosa Moll Flanders, que nasceu na prisão de New Gate e, ao longo de uma vida de contínuas peripécias, que durou 3 vintenas de anos, sem considerarmos sua infância, foi por 12 anos prostituta, por 12 anos ladra, casou-se 5 vezes, uma das quais com seu próprio irmão, foi deportada por 8 anos para a Virgínia, e, enfim, enriqueceu, viveu honestamente e morreu como penitente, escrito com base em suas próprias memórias”. Tudo isso que eu falei agora é o subtítulo.

L: As situações vividas pela personagem, contadas em primeira pessoa, eram bem problemáticas para a sociedade da época. E a própria personagem apresentava essas situações como problemas, pelos quais ela se desculpava e mostrava certo arrependimento. 

MA: Então todos esses problemas, que eles achavam que eram problemas, são contados por ela mesma, e ela vai dizendo a cada passo: “ah, eu errei aqui e eu só estou contando isso pra que ninguém erre como eu”. Então, os que queriam defender o romance, falavam “olha, está vendo? Ela está dizendo aí que não é pra fazer assim”. Mas a maior parte das pessoas lia isso como exemplos de como se sair bem desse tipo de situação, porque no fim deu tudo certo, ela enriqueceu, viveu honestamente e morreu como penitente. Ou também que levaria a uma compreensão. Isso, hoje em dia, a gente acha super bacana, mas eles não achavam. Levaria o leitor a compreender o comportamento das pessoas, “era a circunstância, ela não sabia, ela se equivocou…”. Então, isso fazia com que o gênero romanesco como um todo fosse muito mal visto. 

L: Então existiam essas preocupações com os romances no geral e não apenas em relação aos licenciosos. Os romances eram considerados uma perda de tempo; eles estragavam o gosto dos leitores; e também eram um problema para a moral. E as preocupações dos letrados especificamente em relação aos romances licenciosos?  O que a Márcia disse sobre isso?

MA: Agora, imagina o que que eles pensavam se o enredo fosse sobre sexo. Aí ia ficar pior ainda, né?! Eles ficavam mais alvoroçados, porque eles achavam que os romances eram uma narrativa de fácil leitura. Pra época, é mesmo, é muito mais fácil ler um romance do que ler um poema épico. Eles achavam que aquele jeito de narrar era envolvente, era acessível e colocava as pessoas em contato com situações que envolviam sexo, para falar mal da religião e da monarquia. Então, parecia uma combinação incendiária para eles. E tinha essa coisa da identificação, eles achavam que a pessoa podia passar à ação. Ela podia querer ser como aquela personagem. Muitos anos depois, a gente vai ver exemplos disso, como na Madame Bovary, por exemplo, no Primo Basílio, né?! Mas essa conversa já está presente desde o século XVIII. Então, eles achavam que alguns comportamentos podiam se modificar com a leitura, e também os corpos podiam se modificar. Especialmente durante a leitura de livros licenciosos. Dá pra imaginar o que acontecia com os corpos durante a leitura de um livro licencioso. E dá também pra imaginar o que eles achavam que podia ser um problema de transferir da leitura pra ação. Tem um dito do Rousseau, que eu acho bem bacana, que ele fala disso, desse efeito da leitura, de uma maneira não totalmente direta, e engraçada, ele fala que livros licenciosos são livros que se lê com uma só mão.

L: Essa preocupação com os romances no geral e principalmente com os romances licenciosos não ficava só na teoria, não. Nos séculos XVIII e XIX, a censura tinha um papel importante na imprensa. Eu pedi pra Márcia falar um pouco sobre a atuação dos censores nessa época, aqui no Brasil e em Portugal.  

MA: A censura no século XVIII e XIX não é uma coisa só de Portugal e do Brasil. Acho que eu posso dizer sem errar que, em todo o mundo ocidental, teve censura ao longo do século XVIII e alguns países prolongaram a censura até o século XIX. Então, esse é um fenômeno geral. Eu vou falar um pouquinho mais sobre Portugal e o Brasil, porque é o que eu estudei mais tempo, é o que eu conheço melhor. 

MA: Em Portugal e no Brasil teve censura desde a criação da imprensa, até o início do século XIX. Os censores, eles não se preocupavam só com os livros licenciosos, não. Eles se preocupavam com todos os livros. E liam buscando os livros que pudessem ter alguma ideia contrária à igreja, ou à monarquia, ou contra a moral vigente, mas eles faziam muito mais que isso. E foi essa parte que me atraiu tanto quando eu estudei os registros de censura em Portugal e no Brasil nos séculos XVIII e XIX, porque eu me dediquei a ler todos os pareceres que avaliavam romances pra entender como esses homens, eram todos homens, reagiam aos romances. Naquele tempo, não existia crítica literária como a gente entende hoje. Então, é ainda mais difícil saber o que as pessoas pensavam quando elas liam uma obra, como elas entendiam aquilo, como elas reagiam… Então, eu procurei os registros de censura, que ficam guardados na Torre do Tombo, em Portugal, e no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, pra entender o que os letrados da época pensavam sobre os romances. Hoje, a gente pensa que a censura era uma coisa feita por gente limitada, por gente ignorante, por gente sem muita cultura, porque a gente tem uma visão muito pejorativa da censura hoje em dia. E ela é derivada, eu acho, principalmente, da ação da censura no século XX durante as ditaduras, porque ali parece que a censura era exercida por gente assim mesmo, né?! Por gente sem muita instrução.

L: Mas esse não era o perfil dos censores do período que a Márcia estudou. Os censores do Antigo Regime eram pessoas letradas, da elite do Brasil e de Portugal. 

MA: Eles eram pessoas escolhidas entre os homens da elite letrada, eles eram muito cultos, eles falavam várias línguas, todos eles sabiam latim, eles liam muito, uma boa parte deles, pelo menos dos que eu trabalhei, que tinham que ler romance, eram também escritores e alguns eram professores. Por isso, é tão interessante entender o que que eles pensavam sobre os romances em geral. Quer dizer, pelo menos eu achei tão interessante entender isso. Porque ali dá pra gente ver como os homens cultos daquela época, homens que todos eles achavam que o romance era um gênero menor, todos, sem exceção, como eles reagiam a esse gênero menor. Um letrado que se levasse a sério não devia prestar muita atenção em romances, mas eles eram obrigados a ler todos os romances que passavam por Portugal e pelo Brasil, pra liberar a sua circulação ou a sua impressão. 

MA: Acho que é importante eu explicar uma coisa aqui. Pra que qualquer livro fosse impresso ou fosse vendido, em português ou traduzido, qualquer livro, em Portugal ou no Brasil, precisava ter uma autorização da censura. Nenhum livro podia ir pra gráfica sem um parecer de censor associado. Um nos bons tempos, porque em geral eram três, porque a censura, durante muito tempo, era tripartida. Você tinha que ter autorização da inquisição, autorização do bispado e autorização do desembargo do paço, que é a censura do Estado. Então, você imagina quanta gente que era contratada como censor e quantos livros eles tinham que ler. A obrigação desse pessoal era pegar o livro, ler inteiro, verificar se não tinha nenhum desvio da norma religiosa, da norma política ou da norma moral. 

L: Mas os censores não paravam por aí, não. A Márcia contou que eles acabavam avaliando também a qualidade literária das obras. Depois da leitura, eles faziam longos pareceres mostrando erros de composição no romance, como problemas de verossimilhança ou onde uma personagem estava mal construída, se era apresentada de um jeito no começo da narrativa e ficava de outro depois. E aí eles proibiam a impressão do livro. Ou seja, mesmo que não tivesse nenhum problema religioso, político ou moral, o livro ficava proibido por falta de qualidade. Então, ele era encaminhado pro autor ou pro editor com a explicação de que a obra continha erros. E eles podiam rever o texto e submeter de novo, corrigindo.

MA: Eu achei isso super interessante, porque mostra que muitos livros que a gente lê hoje, eles só são do jeito que são porque algum censor identificou erro ali e mandou corrigir, mandou melhorar alguma coisa. Tem muito livro de poesia proibido porque a qualidade dos versos era ruim. E alguns censores sugeriam: “olha, vai ficar melhor se você rimar assim…”, “Olha, a métrica aqui não está certa, faz de outro jeito”. Então, eu achei esse material muito rico, pra entender a reação desses letrados à cultura do seu tempo. 

L: E como será que os censores liam os livros licenciosos? A Márcia contou que não dá pra saber muito bem sobre a reação dos censores a esse tipo de livro, porque quase não existe registro a respeito disso…

MA: Ninguém era doido de enviar um livro desse pra censura analisar. A censura analisava todos os livros que as pessoas achavam que não tinha problema, e que elas queriam uma autorização pra imprimir. Todo mundo sabia que um livro licencioso não ia ter uma autorização. Então, não pediam, né? Então, esses livros licenciosos, tinham uma circulação clandestina, e eles só passavam pela censura quando eles eram apreendidos. Tinha muito caso de apreensão de livro. Às vezes era no porto, um navio que chegou com um carregamento de livro, alguém começa a olhar as listas (você tinha que fazer uma lista dos livros que estavam naquelas caixas). Pra desembarcar o livro, o censor tinha que olhar a lista e falar “esses podem descer, esses não podem”. Se ele não conhecesse o livro, ele mandava vir pra ele ler. Então, às vezes, no meio dessas caixas de livros, dessas listas, eles punham lá no meio um nome de um livro licencioso achando que ia passar. E o censor pegava, mas aí ele não fazia um longo parecer, explicando o que que ele achava. Ele falava “isso aqui é um livro licencioso”. Está proibido. Então, eles não se alongavam muito na explicação sobre isso, eles só identificavam quais eram as obras licenciosas, ou num desembarque ou numa apreensão na casa de alguma pessoa, porque tinha apreensão em casa também, ou alguma denúncia que eles recebiam.

L: Apesar de serem proibidos, assim, de cara, os romances licenciosos circulavam bastante por aqui nesse período estudado pela Márcia; na maior parte das vezes, de forma clandestina. 

MA:  Ter um livro licencioso em casa, ou vender um livro licencioso, era tão perigoso como hoje seria vender droga pesada. Então, era uma coisa muito arriscada para quem queria vender. E a circulação era muito controlada. Se um livreiro, por exemplo, fosse encontrado vendendo esse tipo de livro, ele ia ser preso. Dependendo da gravidade do caso, os seus bens podiam ser confiscados, sua loja podia ser fechada… Se alguém fosse pego com um livro desses em casa, a pessoa podia ir pra cadeia. Era proibido possuir. 

L: Apesar disso, a Márcia contou que acontecia uma coisa engraçada: várias pessoas pediam autorização para ter e ler livros proibidos. E alguns até conseguiam.

MA:  Muitas pessoas mandavam pedidos pra censura, deste teor: “Olha, eu sei que tal livro é proibido, mas eu preciso muito ler esse livro…” e aí eles davam as desculpas que eles conseguiam dar. Alguns falavam assim “Ai, eu sou um professor e eu preciso saber o que tem nesse livro, pra eu poder discutir, se eu pegar algum aluno com isso, pra poder saber o que que é…”. Alguns falavam “eu sou advogado, eu preciso saber esse livro pra poder defender alguém…”. Se a justificativa fosse plausível, eles até conseguiam. E a censura falava assim “Pode, sim. Como você é uma pessoa muito culta, muito bem formada, você pode ler isso, mas você tem que guardar na sua casa em um lugar escondido.” Alguns falavam “você tem que guardar num armário fechado com arame”. Porque eles não queriam que outras pessoas da casa ou amigos vissem e lessem aquilo, né? 

L: Fora esses casos de pedidos de autorização, a circulação dos livros licenciosos era clandestina. E a maior parte dos registros que a gente tem hoje sobre esse tipo de livro são justamente os registros de apreensão.

MA: Então, o registro que a gente tem dela é quando a coisa dá errado e alguém é pego. Mas, pela quantidade de apreensões que ficaram registradas, dá pra imaginar, que esses livros circulavam bastante, por vias clandestinas. 

L: Eu fiquei curiosa sobre como essa circulação clandestina acontecia na prática. Sabendo dos riscos no caso de uma apreensão, e que podiam ser denunciadas, como será que as pessoas faziam para enganar a censura? 

MA: Tinha vários jeitos de fazer isso, registrados nesses documentos de apreensão. Um deles era misturar as páginas impressas de livros licenciosos com livros autorizados, com livros normais. Os livros não eram transportados encadernados como faz hoje, a encadernação era feita ou pelo livreiro que vai vender ou às vezes até pela pessoa depois que ela comprou. O transporte dos livros era feito por meio daquelas folhas que saem da impressão antes mesmo de dobrar. São várias páginas do livro impressas numa folha grandona. Então, esse fardo de folhas grandonas eram acondicionados e mandados. O livreiro mandava montar aquilo depois que chegava lá na livraria dele, pra virar um livro. Se é um livreiro que está interessado em comércio de livros clandestinos, ele pode combinar de misturar algumas dessas folhas grandes, um pacotinho de folha grande de livro licencioso, misturado no meio de um livro mais tranquilo possível. Mas às vezes a vigilância pegava.

MA: Outro jeito era fazer a venda clandestina mesmo. Então, o cara de alguma maneira conseguia receber lá um tanto de livro clandestino, vinha pelos Alpes, era uma confusão danada pra fazer o livro chegar nas cidades. Aí conseguia fazer chegar num livreiro. É lógico que ele não vai pôr esse livro lá na prateleira da frente da livraria dele, né? Ele vai avisar, secretamente, pra algumas pessoas que ele conseguiu um ou dois. Essas pessoas avisavam pros amigos em quem eles tivessem confiança. Um livro desses, os livros em geral, mas esses também, eram lidos por muitas pessoas. O livro era muito mais caro do que ele é hoje, muito mais difícil o acesso, então, as pessoas emprestavam pros amigos, pros colegas, e o colega emprestava pro outro. Então, o livro clandestino podia ter uma grande circulação dessa maneira.

L: A Márcia contou sobre um outro modo de circular esses livros, mais curioso até que os demais. 

MA: Há também registros de um jeito super interessante de fazer esses livros circularem, que é a cópia manuscrita. Esse é o jeito da Inquisição, da censura não se meter. Você conseguiu um livro, você está feito, porque aí você copia ele inteiro à mão, passa pro teu amigo, o amigo copia à mão, a chance de alguém do poder saber disso é muito pequena. Eu estudei uma cópia manuscrita, uma tradução, na verdade, manuscrita, desse Teresa filósofa, que eu falei no começo. Ele circulava só em francês, um cara em Portugal traduziu, bonitinho, ainda dobrou a folhinha bonitinha pra ficar parecendo um livro, e isso está arquivado na Biblioteca Nacional lá de Lisboa, ele deve ter passado para várias pessoas. Em todos os casos, isso era muito perigoso, mesmo no manuscrito, porque, se alguém te denunciasse, você estava frito. E havia muita denúncia. A igreja estimulava muito a denúncia como um ato de honestidade da pessoa, um bom comportamento. Então muitas pessoas escreviam pra Inquisição e falavam “Olha, eu fui na casa do fulano e eu vi que lá no quarto dele tinha o livro tal.” A inquisição mandava alguém lá pra verificar. Às vezes tinha o livro tal. Às vezes, era só uma rixa, inimizade entre um e outro, falava que tinha, aí a polícia ia lá, prendia o sujeito, e ele ficava preso um tempo. Se ele fosse um estudante, jovem, tivesse um comportamento libertino, ele ficava um tempo preso pra se explicar, mesmo que ninguém achasse livro nenhum na casa dele. Se fosse uma pessoa muito instruída, muito erudita, muito cheia de dinheiro, era mais provável que ela desse um jeito de não ficar muito tempo presa.

L: Se era um perigo pra quem tinha ou vendia um livro desses, imagina pra quem escrevia. Então, lembra que eu falei que tinha uma controvérsia sobre quem seria o autor do Teresa filósofa? Esse não é um caso isolado no universo dos romances licenciosos. Como eram proibidos, ninguém colocava o próprio nome na capa, a autoria verdadeira não era declarada. Até hoje não se conhece a autoria da maior parte desses livros, a gente tem apenas suspeitas, porque eles eram publicados com pseudônimo ou mesmo sem indicação de autoria. E ninguém dizia também em qual tipografia o livro foi impresso, quem era o editor responsável. Sobre isso, a Márcia contou que acontecia uma coisa engraçada. 

MA: Os tipógrafos, as pessoas que trabalhavam nas gráficas, eles aproveitavam pra provocar um pouco aí, ou pra fazer piada. Então, naquela parte debaixo da página de rosto, onde costuma escrever a cidade, tipo Lisboa, na Impressão Régia, 1798. Eles escreviam assim: “Impresso no Vaticano, sob os auspícios do Papa”. Eles trocavam as indicações pra fazer graça ou pra provocar, essa situação clandestina em que eles estavam. 

L: Apesar de todas essas complicações em relação ao romance licencioso, um dos primeiros romances publicados no Brasil, pela tipografia oficial do rei, foi justamente um romance licencioso, que se chama História de dois amantes ou o templo de Jatab. Eu pedi pra Márcia contar a história dessa publicação pra gente.

MA: Essa história é engraçada e curiosa, porque esse livro é uma tradução para o português de um livro francês que se chama Mémoires turcs, que era um livro super proibido na França. Até em francês ele era proibido de circular… em Portugal. O que é estranho nesse caso, que eu falei que é curioso, é que ele foi um dos primeiros romances a ser publicado no Brasil, pela tipografia oficial do rei. Não era permitido imprimir nada no Brasil até 1808; tinha impressão clandestina, jogavam tudo no mar, era uma confusão. Agora, impressão autorizada foi só a partir de 1808, quando a corte saiu de Portugal. E veio para o Brasil, se transferiu pro Rio de Janeiro, e trouxe com ela o maquinário pra instalar a primeira imprensa aqui no Brasil, que se chamava “Impressão Régia”. O objetivo dessa impressão régia era imprimir decretos e documentos legais, alvarás, tudo que fosse preciso pro funcionamento do governo, mas isso não ocupava o tempo todo dela. Então, ela também imprimia outro tipo de obra. Imprimiu obras muito eruditas, imprimiu livros didáticos, e imprimiu também, curiosamente, alguns romancinhos. Eu falo romancinhos, porque a maior parte deles era bem curtinha, era tipo uma novelinha. Alguns eram maiores, como um que chama O diabo coxo, que foi impresso também por eles. Mas esse da História de dois amantes ou o templo de Jatab. A versão publicada aqui é uma novelinha curta.

L: A Márcia me contou o enredo desse livro e é difícil entender como ele foi publicado, apesar da censura vigente no período. E ainda por cima pela tipografia oficial do rei. Escuta essa história e me diz se você concorda comigo.

MA: O Mémoires turcs, ele é maior, ele conta tudo desde o começo, quando o rapaz nasceu… Eu vou falar só o pedacinho que foi publicado em Portugal e no Brasil. É a história de um rapaz que chama Dely e ele trabalha como mercador de escravos, que compra mulheres. Já começa assim. A função dele é viajar pela Pérsia pra achar as mulheres mais bonitas, comprar essas mulheres e levar pros haréns dos príncipes de Constantinopla. Então, numa das vezes que ele está fazendo uma das compras, ele está voltando pra casa e ele encontra um homem pobre que está querendo vender a filha dele. O rapaz vê a filha e se apaixona por ela, fala “eu vou comprar pra mim, não vou comprar pra príncipe nenhum”. O pai concorda, está vendendo, tanto faz se é pro príncipe, pra quem for, está vendendo. E a moça concorda também, porque ela gostou dele, achou ele bacana. O problema da história é que essa moça, ela seguia essa seita de Jatab, por isso que chama “ou o templo de Jatab”. Essa seita é totalmente inventada, e ela é criada ali dentro dessa história pra fazer críticas ou ironias às crenças dos mulçumanos e às crenças dos cristãos. Então, tudo que parece mais esquisito, do ponto de vista do narrador na religião mulçumana e na religião católica, ele coloca lá no templo de Jatab. E outras coisas que não estão assim oficialmente em nenhuma religião, mas ele coloca pra criticar a própria ideia de religião. Nessa seita, todas as mulheres tinham que permanecer virgens até 15 anos de idade, eram obrigadas. Com 15 anos, elas tinham que fazer uma peregrinação pra esse templo de Jatab, onde moram lá os sacerdotes. E a função dos sacerdotes é iniciar essas moças na vida sexual. Então, as primeiras experiências sexuais delas têm que ser com os sacerdotes. Eles chamavam isso de purificação. Elas tinham que ir lá pra ser purificadas. Só depois que elas estivessem purificadas é que elas iam poder casar. Já é, né?! Não preciso nem comentar, já é bem bizarro.

L: O livro faz alusão a uma crença da religião muçulmana de que os homens que têm uma ação correta na hora da morte terão no paraíso 72 virgens esperando por eles. Na obra analisada pela Márcia, isso é um pouco diferente.

MA: No templo de Jatab fala: “não, no paraíso tem pra homem e tem pra mulher”. Agora, a mulher pra ir pro paraíso tem que ter tido uma vida sexual muito ativa. E ela não pode nunca se negar a nenhum homem que tenha interesse por ela. O homem tem interesse, ela tem que ir. É isso que garante a vida eterna de plena felicidade após a morte. Bom, então, a moça por quem o Dely se apaixonou, ela é dessa seita. Ela ainda é virgem. Pra poder casar com ele, ela tem que ir lá se purificar. Então, o que que esse Dely resolve? Ele não quer que ela vá lá com os padres, ele quer que ela seja virgem pra casar com ele. Então, ele se transforma em monge. Ele fala “não, espera um pouquinho aí, eu vou lá me converter…”. A moça não pode saber que ele está aprontando isso, porque ela é crente mesmo. Ele vai lá se converte, e ele sabia que lá tinha uma regra, que era assim: o último padre que entra recebe a primeira moça que aparecer. Ele sabia que ela ia aparecer logo, porque ele ia comprá-la pra levar embora, né? Então ele vai lá e vira padre. E isso dá um monte de confusão, porque os outros padres também queriam ela, porque ela era a mais linda de todo o lugar, então, eles armam um monte de confusão pra atrapalhar, mas acaba dando certo e os dois ficam juntos. Tem que ficar 8 dias juntos, purificando, mas ela não podia saber que era com ele que ela estava, porque senão depois ela não ia querer casar com ele, ia ver que aquela purificação era fajuta. Então, ele fica disfarçado, mas ele fica muito feliz, porque ela conta muito satisfeita, ela fala: “Que bom! Logo vou poder estar fazendo essas coisas com o Dely”, aí ele fica todo contente. Bom, dá um monte de confusão, sai do convento, não sai do convento, consegue fugir, no fim de tudo, dá tudo certo, dá tudo certo. Não é igual a Moll Flanders que depois se arrepende, não, dá tudo certo. E eles casam e vão viver felizes para sempre. Dá umas confusões por ela ter essa obrigação de ter que ficar com todo mundo que se interessa por ela, mas termina tudo bem. É ou não é incrível que um livro desse tenha tido aprovação da censura, tenha tido várias edições, em Portugal e no Brasil? É um esquema clássico do romance libertino, é sexo entremeado com discussões filosóficas, sobre a religião, sobre a inconveniência de seguir preceitos religiosos muito cegamente. Ah, isso é interessante, porque nesse período que o Dely está no convento, ele aproveita pra falar mal da vida em convento, da vida de padre, que esses padres são todos devassos, tem longas passagens também sobre por que que são os pais que têm que decidir o destino dos filhos, porque o pai vende a moça e fala “ela tem que seguir essa religião dela, aí, ela tem que ficar com todo mundo que se interessar”.

L: O livro comentado pela nossa entrevistada apresenta as características de uma obra licenciosa, não só pelas menções a sexo, mas por fazer discussões de temas que são relevantes pros libertinos ou pros iluministas da época, que achavam que a razão devia prevalecer sobre os dogmas da religião. 

L: Com esse caso ainda misterioso da publicação oficial de um livro licencioso no Brasil, apesar de todas as complicações relacionadas à censura na época, a gente termina essa conversa. O que você achou desse episódio? Deixa um comentário pra gente. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento). E no Instagram e no Twitter também, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

L: O roteiro e a narração desse episódio foram feitos por mim, Laís Toledo. A leitura do trecho do livro foi feita pela Thais Oliveira. Os trabalhos técnicos foram feitos pelo Gustavo Campos e pelo Octávio Augusto, da rádio Unicamp. A edição do roteiro e coordenação do Oxigênio é da Simone Pallone. Até o próximo “Leitura de Fôlego”! 

 

Créditos de som:

“Dash and slope”, Castro. 

“Um Pepino”, Orange Cat. 

“Curiously and Curiously”, Calumet. 

“Stately Shadows”, Duck Lake.

“In Passage”, Migration. 

“Vernouillet”, The Sweet Hots. 

“Borough”, Molerider.

Todos do Blue Dot Studios (https://www.sessions.blue/)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *