#105 – Temático: Idosos, asilos e uma pandemia

Os idosos enfrentam situações de discriminação. Por fazerem parte do grupo de risco da Covid-19, a condição de isolamento foi intensificada. Neste episódio, Roberta Bueno e Rafael Revadam falam sobre os cuidados que estão sendo tomados nas Instituições de Longa Permanência para Idosos, como são chamadas as casas de repouso e asilos, e sobre o que o governo brasileiro está fazendo para proteger essa população idosa asilada. 

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ROTEIRO

ZULMA: Estou angustiada, né… triste. Uma coisa que nunca imaginei que passaria por isso. Muita coisa acontecendo e sem resultado, né… Não tem resultado. É isso que eu sinto. Estou triste, né? Muito triste. Porque eu tô longe, eu moro em Atibaia agora e a família trata por telefone, é a única coisa que eu tenho.

Roberta Bueno: Dona Zulma, de 93 anos, é hóspede de uma casa de repouso localizada em Atibaia, no interior de São Paulo. Ela é uma das 100 mil pessoas que vivem nas ILPIs, as Instituições de Longa Permanência para Idosos, como as casas de repouso e asilos são chamados atualmente.

Rafael Revadam: Fazendo parte do grupo de risco, os idosos estão enfrentando mais um cenário de discriminação, intensificado com a chegada do novo coronavírus. Com a pandemia, a população envelhecida encontrou mais uma situação de isolamento do resto da sociedade.

Roberta: No episódio de hoje, vamos falar da situação dos idosos na pandemia. Quais são os cuidados que estão sendo tomados nas ILPIs, e o que os políticos estão fazendo pela população idosa asilada. Eu sou Roberta Bueno.

Rafael: E eu sou Rafael Revadam. E este é o Oxigênio.

[Vinheta de abertura do podcast Oxigênio]

Roberta: De acordo com dados do IBGE, no Brasil existem cerca de 22 milhões de pessoas idosas, que são aquelas com idade maior ou igual a 65 anos. Isso corresponde a 10,5% da população.

Rafael: Já os idosos que vivem em ILPIs são, aproximadamente, 100 mil, segundo estimativa do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, sendo que 60 mil estão em instituições públicas e filantrópicas.

Roberta: Mas esses números tendem a aumentar nos próximos anos. É o que explica a psicóloga especialista em cuidados da população idosa, Regina Célia Celebrone.

Regina Celebrone: O idoso, ele sempre já esteve na margem. Porque a sociedade está começando a envelhecer agora. A sociedade brasileira, né? Vai ser um grande evento, o envelhecimento humano. Vai ser um grande advento. Vai triplicar o número de idosos até 2050. E o idoso já estava marginal, já tinha um olhar de escanteio na sociedade, porque ninguém quer saber que vai ficar velho. Porque velhice é sinônimo de morte, de coisa feia, de pelanca, daquilo que não é tão lindo, de um corpo que não é mais bonito de se ver, na sociedade do espetáculo que a gente vive hoje, dos corpos perfeitos.  E aí ele sofre: você não pode sair, você não pode colocar os pés fora de casa, ou você é uma ameaça para a gente. Se sai na rua, as pessoas olham feio. E aí, eu faço uma pergunta: será que já não olhavam feio para o idoso? De ser uma ameaça como fim de vida.

Rafael: É nesse cenário de discriminação que as ILPIs se encontram. E com o novo coronavírus, o cuidado com o idoso ganhou uma nova realidade. Nós perguntamos para Nadja Cardoso, coordenadora da Casa de Repouso Nova Canaã, em Atibaia, como foi contar para os moradores da casa que eles deveriam se isolar.

Nadja Cardoso: O isolamento social foi comunicado aqui na casa dia 10 de março. A princípio, a reação de cada um deles foi assustador, sem entender, na verdade. Mas o que que eu fiz? Eu fiz uma reunião aqui na casa, falando o que realmente estava acontecendo. Eles ficaram assustados, sim, afinal, quem não ficaria, né? Eles têm acesso à televisão, tem hóspedes que têm tablets e celulares… Então, eles têm acesso a informações. Mas, eu tentei passar de uma forma que eles ficassem um pouco tranquilos, pois nós estávamos fazendo a prevenção, precaução, diante dessa situação.

Roberta: Situação semelhante foi vivenciada na Casa Ondina Lobo, em São Paulo. Depois que a quarentena foi anunciada, as ILPIs começaram a tomar medidas de prevenção para proteger seus idosos. Paulo Coelho, diretor da instituição, dá mais detalhes.

Paulo Coelho: A casa é uma casa filantrópica. Toda a diretoria é voluntária. Nós não recebemos ajuda de nenhum governo federal, estadual ou municipal. A diretoria tem sempre o objetivo de buscar a receita para manter a casa, né. Quem são as pessoas que vivem hoje lá. São pessoas que estão acima de 60 anos de idade, sem família e sem recursos financeiros. Pessoas em total vulnerabilidade social. Esse é o tipo de pessoa que nós abrigamos lá. Então, hoje, quando começou todo esse processo no mundo, né, e a gente começou a perceber que isso chegou ao Brasil, né… eu lembro que por volta de 20 ou 26 de março mais ou menos, acho que é a data que eu tenho é 26 de março, o mundo já estava com 503 mil casos e o Brasil com pouco mais de mil e pouco casos. Isso tem 26 de março. Então, quando começou isso, a gente já falou nós temos que mudar e criar protocolos de segurança contra o coronavírus. Uma semana antes, eu diria antes de realmente começar explodir isso, a nossa diretoria se reuniu e começou a criar os protocolos. Tipo assim: visitas a partir de hoje não podem mais acontecer. A casa será fechada para visitas, né. Por quê? Idoso, né, de uma maneira geral, ele com toda a literatura que tem aí disponível, a gente sabe que é o risco maior pro Covid-19.

Rafael: Os idosos em geral são acometidos de mais doenças como como diabetes, cardiopatia, etc. que aumenta o risco de morte caso sejam contaminados pelo vírus.

Paulo Coelho: É óbvio que numa casa que abriga idosos que já vem de uma certa vulnerabilidade, muitos deles trazem doenças não só congênitas, mas também doenças que adquiriram durante a vida. Então, o risco era muito grande. A gente conversou e fechamos toda a entrada de idosos. Nós tínhamos um brechó e uma boutique para venda de objetos pra ajudar na manutenção da casa. Fechamos também. Ou seja, começamos a criar protocolos que garantissem o máximo possível, né, ou pelo menos mitigassem a entrada do vírus na casa, né. E aí, ééé, a gente começou a criar ações pra conseguir EPIs, ou seja, aventais, gorros, luvas, máscaras e tudo, porque nesse momento, a gente percebeu que o governo ainda não tava se preocupando com as ILPIs, sabe… Naquele momento, a gente percebeu que, fazendo contato com a secretaria social do governo, que também a secretaria de saúde, na verdade, naquele momento, eles não tinham nem sequer uma ideia de quantas ILPIs existem no estado.

Roberta: Entre as novas medidas, surgiu a necessidade do uso de equipamentos de proteção individual, os EPIs, como máscaras e luvas descartáveis.

Paulo Coelho: O que nós temos de material de EPI. Avental, luva, é uma quantidade pequena. E isso está muito difícil de comprar. Hoje, a gente tem uma necessidade premente de receber. Estamos tentando, junto ao Governo, fornecedores, luvas, aventais descartáveis. Máscara n95, para o profissional que vai estar tratando dessas pessoas em quarentena.

Rafael: Além da falta de EPIs, outro desafio é lidar com os idosos com sintomas de Covid ou diagnosticados com a doença. Por abrigar pessoas em situação de rua, a casa Ondina Lobo não conseguiu impedir a entrada do coronavírus na instituição e oito idosos testaram positivo.

Paulo Coelho: Nós chamamos o Samu. Seguimos todas as diretrizes do Governo. Nesses casos, a gente deveria comunicar o que foi feito e pedimos que eles fossem transferidos. Porque nós não somos uma casa de saúde, nós não temos estruturas para tratá-los. Ligamos para o Samu e o Samu “não, não é assim, nós vamos mandar uma equipe, essa equipe vai avaliar e aí a gente decide se traz ou não”.

Roberta: Cuidar do idoso asilado nesse momento de pandemia se tornou um debate em diferentes esferas da sociedade. Yeda de Oliveira Duarte, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, dá mais detalhes

Yeda Duarte: Aí, foi feita toda uma discussão de como cuidar das pessoas idosas institucionalizadas nesse momento. Primeiro tem que lembrar que os idosos podem ter sinais, sintomas inexistentes, obscurecidos ou atípicos, o que requer dobrar a vigilância em relação ao comportamento do idoso na instituição e qualquer alteração tem que ser avaliada. E, no caso de ter um idoso que pode ser suspeito, a equipe é orientada a usar o equipamento de proteção individual, o idoso passa a ser colocado em um leito isolado, num quarto privativo com leito isolado. Um quarto privativo dentro da instituição seria um quarto só para ele, com porta fechada e janela aberta, no sentido que o quarto fique ventilado e, na medida do possível, deixar apenas uma pessoa cuidando dele e essa pessoa não deveria cuidar dos outros. O que por si só gera uma série de complicações para várias instituições ou porque não tem espaço para fazer um quarto privativo ou porque não tem número de rh suficiente para deixar uma pessoa só cuidando da pessoa idosa suspeita ou caso confirmado.

Roberta: Yeda também aponta duas dificuldades enfrentadas pelas instituições: a falta de rendimentos dos idosos na pandemia e a falta de subsídios governamentais.

Yeda Duarte: A maior parte das instituições sobrevive com 70% do rendimento da pessoa idosa, que é liberado por lei e elas vivem de doações, festas, uma série de coisas que é feita na comunidade para arrecadação de fundos. Só que neste momento da pandemia, você não está tendo nenhuma dessas iniciativas. Então, a arrecadação de fundos das instituições foi brutalmente diminuída, daí essa medida de liberação de verba neste momento. Porque daqui a pouco a instituição não tem dinheiro para nada, para comprar insumo, para comprar comida etc. Nós fizemos algumas sugestões, conversando com alguns deputados, que, por exemplo, que o repasse federal per capita para as instituições conveniadas deveria ser de pelo menos um salário, porque hoje ele gira em torno de R$ 60 a R$90, o que é uma imoralidade, né. Então, se você aumenta o repasse, pelo menos por um tempo maior, as instituições teriam como se reorganizar nesse sentido.

Discurso de Damares Alves em vídeo: Os idosos foram e estão sendo prioridade neste momento de pandemia. O plano de contingência voltado para a proteção da pessoa idosa contém desde ações de proteção bancária, financeira, proteção contra violência patrimonial, mas também, lá na ponta, com distribuição de EPIs em instituições de longa permanência e o recebimento de denúncias de violência contra idosos. São inúmeras ações no Brasil.

Rafael: Quem está falando é a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Apesar da ministra relatar que o Governo Federal vem realizando uma série de medidas de apoio às ILPIs, não é isso que é visto na prática. Em consulta ao Portal da Transparência, seu ministério possuía uma verba de R$ 160 milhões para distribuir ao cuidado da população idosa asilada. Até o início de outubro essa verba estava parada.

Roberta: Para saber como estão as políticas públicas voltadas para os idosos residentes de ILPIs, procuramos a Deputada Lídice da Mata, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa da Câmara dos Deputados, a Cidoso. Em nota, a deputada revelou que a situação das ILPIs ainda é grave. Além da carência de um sistema eficiente de políticas públicas voltado às pessoas idosas, o governo demorou a regulamentar os recursos que o Congresso Nacional aprovou para as Instituições.

Rafael: O valor de R$ 160 milhões, encontrado no Portal da Transparência, foi votado e aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, e sancionado como lei no dia 29 de junho. Em 15 de julho, o Governo Federal publicou a Medida Provisória número 991, para possibilitar ao Ministério dos Direitos Humanos o pagamento do auxílio emergencial às ILPIs. Mas essa situação só foi regulamentada no início de setembro. As instituições tinham que fazer o cadastro até 3 de outubro para receber os recursos do auxílio emergencial. Enquanto isso, muitas estão passando por graves situações e, como afirma a própria ministra em um vídeo que circulou no final de setembro, mal sabiam como solicitar esse benefício.

Discurso de Damares Alves em vídeo: O Governo Federal vai repassar um auxílio emergencial para as instituições de longa permanência para idosos. As instituições que acolhem e abrigam idosos. Esse dinheiro já está disponível. Está aqui no nosso ministério. Nós vamos repassar direto para as instituições. Mas as instituições têm que fazer um cadastro no site do ministério. Já recebemos mais de duas mil instituições cadastradas, mas infelizmente algumas não estão com a documentação em dia. E, infelizmente, eu sei que tem instituições lá interior do Brasil que ainda não sabem deste recurso.

Roberta: A deputada Lídice da Mata deu mais detalhes sobre a precariedade das ILPIs. Ela disse em nota: “O Brasil tem uma política pública tímida para esta parcela da população e o orçamento hoje disponível para o setor beira ao ridículo. A maior parte das ILPIs vive de caridade, de doação. Neste momento crítico, é preciso que os recursos orçamentários cheguem às instituições, aos estados e municípios o mais rapidamente possível, para garantir às pessoas idosas o acolhimento e os cuidados necessários com a saúde e com uma velhice mais tranquila”.

Rafael: Lídice também forneceu alguns dados, obtidos em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, o Ipea. De acordo com ela, existem cerca de 3.500 instituições que atendem pessoas idosas com idade superior a 60 anos, somente 218 são asilos públicos. E em média, cada instituição gasta mais de 700 reais com cada residente.

Roberta: A professora Yeda de Oliveira Duarte, da USP, dá mais detalhes sobre a importância dos órgãos públicos no cuidado da população idosa asilada.

Yeda Duarte: As iniciativas públicas que faltam, do meu ponto de vista, seriam de fato uma central para regular a doação de coisas para as instituições e que possa distribuir de forma equitativa entre as instituições, isso em cada local. Claro que você vai fazer isso com a sociedade, mas precisa ser feito por alguém, o órgão público precisa tomar essa frente. Segundo, tem que se pensar na questão do financiamento, que não apenas o emergencial, mas um que possa progredir para os próximos seis meses a um ano, visando a garantia da qualidade de acolhimento e de assistência a essas pessoas. E a terceira coisa, embora, muito se tenha falado também é necessário que instituições e serviços de saúde realmente conversem. Isso precisa ser gerenciado por alguém que vai saber, num determinado território, quais são as instituições existentes, quais são os serviços de saúde existentes e como se faz esse fluxo e esse fluxo precisa ser publicizado, ou seja, todos tem que saber porque na hora que acontece, eu tenho que rapidamente tomar uma medida. 

Rafael: Apesar das divergências políticas, a população idosa asilada segue precisando de cuidados. Para a psicóloga Regina Célia Celebrone, nesse momento de pandemia, medidas especiais são novas demonstrações de carinho.

Regina Celebrone: Ligações individuais ou videochamadas com os idosos e seus familiares, para manter conectado. Conversar, olhar. E explicando para eles o que está acontecendo. Neste momento social, que precisa deste afastamento, desse distanciamento, para esperar isso passar. E se eles fizerem isso, eles estarão ajudando. Porque as pessoas lá de fora podem trazer a doença lá para dentro, e eles ali dentro estarão mais protegidos, inclusive. Colocar o idoso como um sujeito responsável, como protagonista. E, por enquanto, mantê-lo conectado com os vínculos lá fora.

Roberta: A especialista é esperançosa, e espera que o olhar ao idoso, que surgiu com a pandemia, permaneça quando o coronavírus for embora.

Regina Celebrone: Se tem algo que a crise trouxe de bom, vamos por assim, é trazer o idoso em evidência. Embora seja com um tom que ele é a população de risco, grupo de risco para pegar a doença, contrair o vírus e em risco de morte. Vamos pensar que tudo isso vai passar, que a maior parte dos idosos vai sobreviver e aí, que bom que serviu para sensibilizar o olhar da sociedade para quem é o idoso, que ele também tem sonhos, ele também tem projetos.

Íngrida Reis: Eu me chamo Íngrada Reis, estou só com 78 anos. Minha vida foi maravilhosa e é também. Sou muito feliz. Senti saudades de estar com a família. E gostoso é a gente ter saudade, sinal que fomos felizes. E sou também, porque aqui encontrei um lar. Foi difícil, porque eu ainda me julgo muito jovem, apesar da idade… 

Rafael: O Oxigênio fica por aqui. O episódio foi apresentado por mim, Rafael Revadam, e pela Roberta Bueno. Nós também fomos os responsáveis pela produção, roteiro e as entrevistas deste episódio. E os depoimentos utilizados neste programa são de hóspedes do Recanto Nova Canaã.

Roberta: As trilhas são da Youtube Audio Library e do Blue Dot Sessions. A revisão do roteiro e a coordenação é da professora Simone Pallone, do Labjor, e os trabalhos técnicos de Rafael Revadam.

Rafael: Você pode ajudar a Casa Ondina Lobo, instituição pública que participou dessa reportagem. Para isso, basta acessar o site deles: www.ondinalobo.org.br/.

Roberta: E você também pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias) e no Instagram e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

Rafael: E você também pode deixar a sua opinião sobre este episódio e sugerir temas para os próximos programas. Basta deixar o seu comentário na plataforma de streaming que utiliza. Até a próxima!

 

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