100 anos de animação brasileira

Em 2017 a animação brasileira comemora 100 anos. O primeiro registro dessa arte no brasil foi exibido ao público no dia 22 de janeiro de 1917.

A animação o Kaiser é uma sátira política aos esforços imperialistas de Wilhelm segundo, líder alemão do início do século 19.

A obra tem como autor o cartunista Álvaro Marins, que assinava seus desenhos com o pseudônimo de Seth.

Nascido em Macaé, no rio de janeiro, o cartunista e ilustrador é considerado o pioneiro do cinema de animação no brasil.

Após 100 anos de sua estreia em um teatro no rio de janeiro, restam poucos registros sobre o Kaiser.  O filme foi perdido e apenas uma imagem reproduzida em um jornal da época e relatos comprovam sua existência.

Para o diretor do núcleo de cinema de animação (NCA) de campinas e professor do Instituto de Artes (IA) da Unicamp Wilson Lazaretti, os últimos anos trouxeram incentivos para essa área fora do mercado de publicidade.

“Hoje existe, por causa das leis de incentivo tem série para adesão, tem editais pra isso, especifico, vários setores da animação. Isso consegue sim de certa forma, não totalmente, dá uma perspectiva melhor do animador para quem entra nessa área”.

Professor da Unicamp há 23 anos, Lazaretti explica que a pesquisa acadêmica na área de animação ainda é recente no brasil.

“Na verdade, isso tudo tá começando agora. Em 100 anos de animação, eu acho que os cursos de animação que existem aqui no brasil começaram não faz 20 anos né? Eu dou aula na Unicap há 23 anos né, então assim, não é um curso de animação é uma matéria das artes plásticas. Eu acho que de certa forma é bom, mas existe um perigo, o perigo acadêmico, então esse mestrado é um caminho muito incrível. A animação é uma coisa que deve ser mais abrangente, ter muito mais liberdade de você criar seu próprio caminho”.

“História antes de uma história”, primeiro longa-metragem de Lazaretti, conta uma pouco de como a animação brasileira surgiu e se desenvolveu.

O filme levou 13 anos para ser produzido e mostra o personagem doutor k, um velho senhor que encontra lápis e papel e parte em uma jornada para aprender mais sobre o universo da animação.

“Chama história antes de uma história com relação dos personagens, tantos os criados como os que são existentes que é o Doutor K, com a própria arte da animação. Então ele cria cenários, como se fosse um Deus bíblico né, ele vai criando cenários, criando os personagens e se complica com alguns deles e aparentemente resolve no final. Então, mas é tudo através do desenho, então esse processo é muito longo e durou 13 anos de produção. Não porque eu quis, a equipe tinha, nem por falta de dinheiro, nem por excesso, mas enfim, o resultado foi um trabalho bastante poético, vamos colocar assim um pouco mais de filosofia né pra animação. Toda arte exige que se pense sobre ela, senão não tem nem sentindo você fazer um filme que não tenha nenhum conteúdo poético ou filosófico”.

A trilha sonora é composta por Paulo Howlands, traz canções interpretadas por Elza Soares e Ná Ozetti. História antes de uma história ainda conta com participação da orquestra sinfônica da Unicamp, responsável pela música tema do filme.

O centenário da animação brasileira quase foi coroado com um Oscar. O longa o menino e o mundo, de Alê Abreu, foi indicado para o prêmio mais prestigiado do cinema mundial em 2016.

Apesar de não ter levado a famosa estatueta dourada, o menino e o mundo foi premiado no Annie Awards como melhor animação independente.

Para o presidente da associação brasileira de cinema de animação césar cabral, o reconhecimento de o menino e o mundo é reflexo de uma primeira geração autoral na animação brasileira.

“Há dez, quinze anos atrás existia uma galera, sempre vai existir, pessoas querendo fazer animação, e existe um mercado que era muito fomentado pela indústria, pela publicidade, o lugar que a gente tinha pra trabalhar, e em paralelo a gente fazia acho que todo animador tem sua intenção de fazer seus projetos pessoais. A maioria deles quer fazer um curtinha, quer fazer um teste, quer experimentar alguma coisa em animação. Teve uma geração que estava ali trabalhando, ou tentando se colocar no mercado de publicidade principalmente, e em paralelo vinha produzindo seus curtas, pensando em festivais, pensando em experimentar ou se expressar de alguma maneira. Isso possibilitou criar uma geração pequena, mas uma geração autoral, e essa geração autoral destina do que a gente vive hoje, acaba chegando nesse madura de alguma maneira autoral como todo. O que possibilitou a gente produzir longas, séries que foram conquistando o mercado, conquistando o mundo e festivais de animação”.

Apesar do sucesso de crítica, o menino e o mundo não foi um sucesso de bilheteria no brasil. Segundo dados do site Adoro Cinema, menos de 4 mil espectadores apreciaram ao longa em sua semana de estreia. O filme custou cerca de r$ 2 milhões, mas arrecadou pouco mais da metade desse valor em bilheteria.

Fora do país, o sucesso foi um pouco maior. O longa teve mais de 100 mil espectadores na França, por exemplo. Para Lazaretti, essa é uma questão de educação.

“É educação mesmo, então assim, mesmo o … bem vivido na França com 100 mil espectadores, aqui no Brasil mesmo depois do prémio ele voltou para o cinema, mas não deve uma expressão muito grande, porque assim as pessoas estão desabituadas a ir ao cinema né. Então os pais, o público em geral, acho que esse hábito é uma coisa importante, porque é popular, pode fazer para um grande público então fica muito a desejar nessa questão”.

Para cabral, que também é diretor do curta “Dossiê Re Bordosa” e do seriado “Angeli The Killer”, é importante incentivar a produção de curtas, considerados pelo diretor uma ótima forma de aprendizado.

“Nossa batalha hoje em dia é a necessidade de reinvestir em curtas, é muito importante investir em uma indústria, investir em série, investir em longa. Mas a gente sabe o quão difícil é fazer um longa, e fazer um longa de animação então, tem que estar descobrindo qual o caminho. Já é difícil fazer um curta, se não tiver investimento e esse curta é um formato que pra animação é perfeita, ele consegue lidar com uma equipe pequena, um lançamento menor que possibilite experimentar. E isso foi um pouco esquecido nessa visão do investimento agora numa indústria, no mercado”.

Cabral ainda aponta que o crescimento da indústria de animação no país passa por incentivar projetos autorais, o que evita que o brasil seja considerado apenas uma fonte de profissionais prestadores de serviços nessa área.

Esta reportagem foi produzida por Tiago Alcântara.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *